17.04.2017 / Arte / por

Após 13 anos sem fazer uma mostra inédita, Damien Hirst retorna com a superlativa Treasures from the Wreck of the Unbelievable

Uma das esculturas da mostra, Demon With Bowl, que possui 18 metros de altura ©Reprodução
Uma das esculturas da mostra, Demon With Bowl, que possui 18 metros de altura ©Reprodução

Após 13 anos sem apresentar uma exposição inédita, o irreverente artista britânico Damien Hirst faz um retorno triunfal com a mostra Treasures from the Wreck of the Unbelievable (tesouros do naufrágio do inacreditável, em tradução livre), inaugurada neste mês (09.04) em Veneza, na Itália. Com 189 novas obras, a exposição ocupa dois museus, um ao lado do outro: o Palazzo Grassi, com seus 5.000 m² no Grande Canal, principal via da cidade, e o Punta della Dogana, antiga alfândega de Veneza – ambos pertencem a François Pinault, colecionador de longa data das obras de Hirst e fundador do grupo Kering, conglomerado que detém grifes como Gucci, Saint Laurent e Balenciaga.

Conhecido por suas obras de animais como tubarão, vaca e ovelha mergulhados numa vitrine de formol, Hirst, aos 51 anos, é um dos nomes mais proeminentes do Young British Artists e um dos mais sucedidos de sua geração. Em 2008, ele leiloou todas as obras que tinha em seu ateliê de uma só vez, faturando R$511,6 milhões. Depois disso, seus preços caíram e, segundo especialistas, esse episódio marcou o início de seu fim – que, pelo visto, está longe de acontecer. Com mais de mil fornecedores de países como África do Sul, Estados Unidos, Alemanha e Itália, Treasures from the Wreck of the Unbelievable, que tem curadoria de Elena Geuna, levou quase quarto meses para ser montada e apresenta obras avaliadas em US$4 milhões. Algumas chegam a pesar quatro toneladas – uma das esculturas, a Demon with Bowl, inspirada no poema Ghost of Flea, de William Blake, tem 18 metros de altura.

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Damien Hirst

A ideia foi criar esculturas como se houvessem sido retiradas do fundo do mar – o “naufrágio” em questão – e, por trás disso, o artista criou toda uma mitologia. Segundo ele, em 2008 foi descoberto no fundo do mar da costa leste da África o navio de Cif Amontan II, um escravo liberto da Turquia que viveu entre o primeiro e o início do segundo século. Amontan foi muito rico e um grande colecionador de arte. Parte de sua coleção, que incluía 100 tesouros oriundos de diversas culturas (asteca, inca, romana, egípcia e outras), foi colocada como oferenda a um lugar muito distante no “Apistos” (inacreditável, em grego), o navio que afundou e foi descoberto mais de 2000 anos depois. Foi daí que surgiram suas esculturas: são monstros marinhos, ursos, leões, esfinges, espadas, medusas, de ouro, prata, bronze, cristal e outros, como se estivessem incrustados com coral e outras substâncias do fundo mar.

Antes de ser exibida, cada escultura foi submersa no mar por um mês. Paralelamente, a veracidade da mitologia de Hirst é fomentada pelo vídeo em que mostra mergulhadores “resgatando” as obras. Por isso, a ambiguidade é o sentimento que prevalece: são tesouros que foram realmente de Cid Amontan II ou foram criadas ontem? Essa história é realmente um mito antigo ou foi criada pelo artista? O que Hirst faz é um entrecruzamento entre um passado muito distante (com o mito de Amontan) com um presente recente, já que algumas esculturas lembram figuras da cultura pop contemporânea como o Mickey Mouse, os faraós que os críticos associaram a Pharrell Williams e Rihanna, a deusa que se assemelha à Kate Moss e até a estátua que lembra Yolandi Visser, vocalista do duo Die Antwoord.

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Tudo isso é possível? “É tudo sobre o que você quer acreditar”, disse Hirst ao The New York Times. “Acreditar é diferente de religião. É o que precisamos fazer hoje”. Ele acrescenta: “Quando você é um artista, tudo o que faz é espelhado no mundo em que estamos vivendo hoje. E agora, com todos esses mentirosos no poder, é muito mais difícil acreditar no passado do que no futuro”.

Para os críticos, a mostra dividiu opiniões. Jonathan Jones, do The Guardian, adorou e a avaliou com cinco estrelas. “Quando eu vi pela última vez uma obra de arte contemporânea que surpreendeu, perturbou e me encantou tanto quanto isso?”, escreveu. Já Alastair Sooke, do The Telegraph, achou pavorosa e avaliou com apenas duas estrelas. “Em última análise, porém, Treasures from the Wreck of the Unbelievable oferece escala em vez de ambição; é um kitsch mascarado como alta arte”.

Treasures from the Wreck of the Unbelievable permanece em cartaz no Palazzo Grassi e no Punta della Dogana, em Veneza, Itália, até 03 de dezembro. 


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