16.05.2018 / Beleza / por

Agora é que são elas: três mulheres que têm invertido a lógica no mercado de beleza

Equipe de Amanda Schön no backstage da Osklen no SPFW N45 / Agência Fotosite
Equipe de Amanda Schön no backstage da Osklen no SPFW N45 / Agência Fotosite

Por Guilherme Meneghetti

O mercado de beleza foi, por muito tempo, estritamente ligado ao universo feminino, fato que por si só diz muito sobre ideologias equivocadas que dominavam a maior parte do inconsciente coletivo de tempos atrás e, embora menos, ainda hoje. Mas isso não necessariamente implica num mercado “feito” por mulheres. “Se pensarmos que não faz tanto tempo assim, a maior parte da equipe de uma produção de moda era masculina: fotógrafos, diretores de arte, até os responsáveis pelos retoques da pós-edição”, diz Vanessa Rozan, responsável pela beleza do desfile da UMA no SPFW N45, ao FFW. “Todo o processo da imagem de beleza era editado e pensado sob a perspectiva masculina”.

Algo que ecoa no que observa Carla Biriba, que assinou a beleza da estreia da Handred na semana de moda. “Se você for comparar o que era uma representação de beleza ou de maquiagem de uns – nem precisa botar tanto tempo – dois, três anos atrás, era uma visão masculina da mulher”, analisa. “Ela tinha que estar, obviamente, muito maquiada. Representar sua feminilidade através de muita maquiagem e montação”.

Vanessa Rozan / Agência Fotosite
Vanessa Rozan / Agência Fotosite

E representar a feminilidade de maneira tal, claro, invariavelmente não agradaria a todas. “Eu e minhas amigas não nos identificávamos com essa beleza. Apesar de usarmos informações de moda e beleza que recebíamos de um mercado masculino, isso não fazia bem pra nossa auto-estima, não traduzia quem éramos”, diz Amanda Schön, no camarim do desfile da Osklen, para o qual assinou a beleza. “É muito limitante em geral”.

Segundo Amanda, atuar neste mercado majoritariamente masculino enquanto mulher é um fato que, por si só, muitas vezes pode gerar desconforto. “Eu escuto o tempo inteiro que mulher não sabe fazer cabelo, não sabe fazer isso ou aquilo”, conta ela, que se tornou uma das principais maquiadoras do Brasil e profissional oficial da Chanel. Não bastasse os desafios que enfrentou para alcançar reconhecimento profissional, ainda hoje ouve histórias tortuosas a respeito de sua trajetória – possivelmente, ela acredita, para justificar seu sucesso, anulando sua competência. “Você tem que ser 10 vezes melhor pro seu trabalho ser creditado. É uma cobrança muito maior em cima do nosso trabalho pelos homens. Estamos o tempo inteiro sendo colocadas à prova”.

Amanda Schön / Agência Fotosite
Amanda Schön / Agência Fotosite

Já Vanessa concorda que existe certa resistência no local de trabalho, mas que isso se aplica mais pelo fato de, como é o seu caso, apenas maquiar (e não fazer cabelo, como a maioria dos beauty artists faz), do que por simplesmente ser mulher. “Uma vez cheguei com o Vito Mariella, meu sócio e dupla de trabalho, e uma jornalista se referia a mim como assistente. É mais complicado explicar que é possível trabalhar em dupla, como funciona lá fora”, explica.

Ainda que há um longo caminho pela frente, é algo que está mudando, ao passo que cada vez mais mulheres vão se posicionando no mercado. Mas nada que tenha acontecido de uma hora pra outra. “Foi um trabalho de construção que não começou agora”, conta Vanessa. “Essa mudança é mais visível hoje, fato, mas ela vem acontecendo nos últimos 15 anos. Tanto eu quanto a Fabi Gomes, minha dupla de Meu Glitter Minha Vida [“websérie sobre brilho, maquiagem, histeria e a vida como ela é”, segundo a descrição do canal no YouTube] falamos muito sobre esse assunto. A gente teve que provar que é capaz e sempre ir atrás de excelência no nosso trabalho, construindo credibilidade e nome com tempo e paciência”.

Carla Biriba / Agência Fotosite
Carla Biriba / Agência Fotosite

De fato, essa é uma mudança conspícua atualmente. No entanto, embora ela venha acontecendo há pelo menos 15 anos, num passado muito recente, por exemplo, pouquíssimas mulheres tinham veemente expressividade no mercado, assinando a beleza de algum desfile do SPFW ou de grandes campanhas e editoriais, conforme aponta Amanda. “Quando chega uma mulher em meio a 20 homens, é uma opressão muito maior. Quando chegam 10 mulheres num ambiente de 20 homens, você está ali dizendo que aquele lugar também é seu, o que já vai mudando o clima”, diz.

Carla percebe novos ares no próprio dia a dia. “Engraçado pensar que, há cinco anos, normalmente as mulheres que eu via no estúdio eram sempre eu e a camareira, ou eu sendo assistente de alguém – um papel minoritário, em geral”, relembra. “Hoje, o meu dia a dia é composto basicamente por sets de moda nos quais as mulheres são maioria no grupo – ou é metade homem, metade mulher -, o que me deixa muito feliz e satisfeita”.

Para elas, o olhar feminino à beleza da mulher traz verdade. “Afinal, estamos falando do olhar da mulher sob a beleza da mulher – e não um olhar masculino de como a mulher deveria ser”, explica  Vanessa. “De uma certa maneira é uma reflexão profunda a respeito dos padrões de beleza, pois temos a chance de construir como queremos nos mostrar e todas as possibilidades de como a beleza ou estranheza pode ser”, continua.

“É muito importante essa visão da mulher sobre a beleza, que é totalmente diferente, na maioria das vezes, da visão do homem”, completa Carla. “Tanto que se você reparar no trabalho das maquiadoras em geral, é uma beleza em que as mulheres têm a pele muito mais natural. Não estamos obrigatoriamente presas a uma super montação”, observa.

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Amanda Schon conversa com Oskar Metsavaht no backstage da Osklen Agência Fotosite

“Nesse momento a gente consegue conversar com a verdade das mulheres”, acredita Amanda. “Antes você só tinha uma linguagem de contorno, de perfeição, de cílio, de montação. Agora você tem a linguagem de várias mulheres: a mulher que não usa maquiagem ou que usa pra criar um efeito diferente, com cores livremente, ou ainda, aquelas que usam para aquilo que conhecemos como ‘embelezamento’”.

De modo geral, Amanda, Carla e Vanessa enxergam um bom momento para as beauty artists. “Fomos encontrando nosso espaço, assim como nossa própria identidade. Hoje tanto na gringa quanto no Brasil a lista de mulheres à frente da beleza dos desfiles e editoriais só cresce”, diz Vanessa.

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Carla Biriba no camarim da Handred / Agência Fotosite

“É um momento de igualdade entre todos”, define Carla. “Estamos tendo muito mais abertura no mercado, podendo e conseguindo assinar mais trabalhos”. Amanda reitera: “É uma hora pra gente aproveitar essa abertura”.

A ideia é unir forças com outras mulheres, descontinuar rivalidades gratuitas e colocar em prática o conceito de sororidade (palavra que ainda hoje não faz parte dos principais dicionários brasileiros). Na última edição do SPFW, por exemplo, Carla deu assistência para Amanda nos desfiles que ela assinou a beleza, e Amanda retribuiu a força.

Agência Fotosite
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“Acredito muito nessa troca respeitosa e verdadeira entre todos os profissionais. Temos que nos aproveitar e fazer isso”, afirma Amanda. “A gente se apoia para conseguir se manter nesse lugar e também dar chance a outras mulheres, principalmente que se conectam conosco, a se manterem também”, completa. E isso é facilmente visto nos backstages comandados por ela, cujo ambiente é sempre corrido, mas também vibrante, animado e empoderado – o resultado é a energia boa que impera.

Esse, aliás, é o principal conselho delas às mulheres que pretendem seguir carreira como beauty artist, além de estudar muito, não desistir, não se iludir com o hype, procurar saber exatamente qual é sua estética e confiar nela. “Não existe rivalidade entre homens e mulheres. Estamos todos procurando a mesma posição igualitária. Tem lugar pra todo mundo, não precisamos nos preocupar com isso. Cada um faz o seu trabalho belissimamente”, indica Carla. “Procure sempre trocar ideia com outros profissionais – aliás, esse é o grande segredo: oferecer assistência, aprender com o próximo e assim por diante”.

Agência Fotosite
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“Tenha um grupo de apoio. Isso entre mulheres é muito importante e maravilhoso!”, reforça Amanda. “Crie alianças com outras mulheres que estão dentro do mercado, busque-as, não nutra essa coisa de rivalidade, até porque tem mercado pra todo mundo, um mercado em que as pessoas trocam, reconhecem e respeitam o talento uma das outras”, arremata.


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