24.03.2017 / Beleza / por

Slow beauty: conheça a brasileira Simple Organic, marca de beleza com produtos orgânicos e acessíveis

Máscara de cílios da nova marca Simple Organic ©Cortesia
Máscara de cílios da nova marca Simple Organic ©Cortesia

Por Guilherme Meneghetti

Patrícia Lima sempre trabalhou com moda. Ela é editora responsável pela revista independente Catarina, baseada em Florianópolis, e que depois se desdobrou em uma agência de publicidade.

Sua gravidez fez com que repensasse todos os seus hábitos enquanto cidadã. Começou a se preocupar com as próximas gerações, que inclui sua filha, e decidiu fazer sua parte no que diz respeito ao consumo consciente, sustentabilidade e responsabilidade social.

Descontinuou a agência de publicidade – um dos motivos foi a alta produção de material impresso –, manteve a revista e entrou de cabeça em um novo projeto: a Simple Organic, marca de beleza com maquiagem orgânica 100% certificada. Recém-lançada no SPFW N43, a marca fez parceria com a À La Garçonne – toda a beleza do desfile foi feita com os produtos da Simple Organic.

“Eu acredito que as passarelas também comunicam novos códigos para a sociedade”, diz Patrícia ao FFW. “Foi muito significativo entrar em um universo que nenhuma marca orgânica entrava e poder levar esse recado da sustentabilidade na beleza para quem muitas vezes não se preocupava com isso”.

O FFW conversou com a Patrícia para conhecer a filosofia da marca e seus produtos, que são desenvolvidos na Itália. Spoiler: além de acessíveis, um dos benefícios das maquiagens é poder dormir maquiada(o), pois não irá agredir a sua pele e, de quebra, ainda hidrata. Leia abaixo a conversa feita com Patrícia por telefone:

Como surgiu a ideia da Simple Organic?

Sempre fui muito workaholic. Trabalhei a vida toda com moda, fazendo campanhas, livros, revistas. Tive uma editora com agência de publicidade e a revista independente Catarina. No meio desse processo, há quatro anos, eu engravidei. Achei que a vida ia continuar a mesma, mas quando a minha filha nasceu, tudo mudou. Passei a rever o meu tempo para poder acompanhar o crescimento dela e, quando comecei a amamentar, tive o insight dos cosméticos orgânicos, pois deixei de usar maquiagem química enquanto amamentava.

Fui pesquisar opções e descobri a maquiagem natural, porém não me identifiquei com as marcas que estavam no mercado – não era nem a questão do produto em si, e sim o posicionamento, embalagem, identidade visual e etc. O produto pode ser legal, mas acredito que é necessário se preocupar com desde a embalagem, ao produto final – tudo faz parte de um pacote. Por exemplo, as pessoas usam óleo de coco como demaquilante com o mesmo pote que usam na cozinha e eu queria uma embalagem melhor! No inverno, o óleo fica duro, e aí tem que aquecê-lo em banho-maria para amolecer – e as pessoas fazem com esse mesmo pote da cozinha. Então pensei em fazer um demaquilante com óleo de coco, porém com uma roupagem de produto de beleza, uma cara bonita – e ainda adicionamos vitamina E.

Fui pesquisando mais e me apaixonei por esse segmento. Com o tempo, percebi que queria trocar de área. Por não compactuar com o consumo insustentável, decidi partir para a indústria de slow beauty – ter consciência e trabalhar de uma maneira correta.

Quanto tempo levou para fazer a marca?

A ideia surgiu há quatro anos e foram aproximadamente dois anos de pesquisa – das fórmulas, embalagens, e todo o processo.

Patricia Lima, fundadora da Simple Organic ©João Paulo Santos/Cortesia
Patricia Lima, fundadora da Simple Organic ©João Paulo Santos/Cortesia

Os produtos são desenvolvidos na Itália com matérias-primas brasileiras. Como funciona a produção?

Eu moro em Florianópolis, tenho uma equipe aqui que, juntos, conceituamos o produto, pesquisamos, organizamos todas as informações, e etc. A tecnologia da fábrica em Milão desenvolve o produto, porém ele é industrializado no Brasil. O nosso país tem grandes fornecedores que já exportam para o mundo todo. Então a logística já estava feita, não foi uma dificuldade. Pensando na exportação, eu sempre acreditei na beleza brasileira, com os nossos elementos. A gente tem uma linha de hidratantes que tem açaí, jabuticaba, lichia…

Qual é a eficácia dos produtos?

80% de nossas fórmulas tem óleo de coco, que é rastreado, certificado pela Ecocert, a maior certificadora de orgânicos do mundo, baseada em Paris, e adicionamos a vitamina E, um conservante natural que faz muito bem para a pele, além de dar estabilidade para o óleo. O nosso demaquilante é um produto que chamou bastante atenção, todo mundo falou “que alívio!”, por conta da nossa embalagem e por termos levado ao mercado esse óleo com uma roupagem de produto de beleza.

O nosso carro-chefe é o rímel. Na maioria das fórmulas, o rímel químico leva ou derivados do petróleo ou silicone, o que faz com que ele fique mais grosso e dê aquela cara que todo mundo gosta. As pessoas achavam que o rímel natural não tinha a mesma eficácia do sintético. A gente conseguiu atingir um resultado maravilhoso com o nosso, sem perder a performance que o químico atinge. Então você usa um rímel cuja fórmula é extremamente natural, sem silicone ou petrolato, é certificado, não agride o seu corpo e atinge um bom resultado.

O nosso bb cream é completamente hidratante porque tem óleo vegetal, vitaminas, não tem nada químico. É um produto que, se você quiser dormir com ele, você pode, ele não vai agredir sua pele. Não tem aquela coisa de precisar tirar a maquiagem antes de dormir. Você pode removê-lo a hora que quiser – o que é maravilhoso! Por que todos os dermatologistas pedem para tirar a maquiagem antes de dormir? Porque é um produto químico, não pode deixar muito tempo na pele.

A maioria dos nossos batons leva cera de carnaúba, que também é vegetal… Então tudo isso é um tratamento, é uma maquiagem que hidrata.

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Delineador, R$60,00 ©Divulgação

A produção é sustentável?

Toda a nossa linha é vegana (o que não quer dizer que ela sempre será, pois não somos uma marca vegana e, sim, orgânica). Quando você tem um produto ecologicamente correto, você se preocupa com toda a cadeia. Hoje, isso para o mercado de beleza implica principalmente no teste em animais. Atualmente nós temos tecnologia suficiente para não fazer esse tipo de teste e mesmo assim garantir a qualidade do produto. Testar em animais não é necessário. A tecnologia é incrível porque faz essa substituição.

Para as marcas internacionais, isso é mais comum – a Kat Von D, por exemplo, que está ganhando o mercado absurdamente, não testa em animais. Aqui, no Brasil, isso é muito recente ainda, é uma questão muito delicada. As pessoas acham que isso não existe mais, mas ainda há muitas marcas que o fazem. Eu acho que quando a gente compra um produto inconscientemente, sem questionar o que a gente está comprando, estamos fechando os olhos – não olha para a cadeia completa, não sabemos dos testes, dos certificados, da produção.

Outro exemplo são as nossas embalagens. A Anvisa exige que todos os produtos tenham a embalagem primária, que é a caixinha que embala o produto normalmente, e a embalagem secundária, onde vai o conteúdo do produto. Quando todo mundo abre a embalagem primária, vai para o lixo na sequência, automaticamente. Foi uma coisa em que trabalhamos muito. As nossas embalagens são saquinhos de tecido reutilizáveis – posteriormente pode se tornar uma nécessaire, por exemplo. Toda a informação de nossos produtos vem em um livreto com papel reciclado.

Com a marca você também promove a conscientização.

Exatamente! É muito mais uma atitude, sabe? Quando eu comecei a pesquisar, a minha preocupação não era ser uma marca “natureba” no sentido pejorativo; eu queria fazer uma marca consciente. Então, além de tentar chegar numa fórmula boa, com performance para entregar produtos de beleza com qualidade para o consumidor, eu queria que a marca tivesse um conceito e que transitasse no universo que eu sempre transitei e acessasse algumas pessoas que não são acessadas. O fato de ser uma marca orgânica tem como objetivo uma abordagem democrática, transitar em outros universos além do vegano e orgânico – porque hoje isso é muito segmentado. E aí vem à tona a questão das opções. Se o consumidor tem um batom com a mesma performance de um batom convencional, com a cor que ele deseja, que não é testado em animais e não é químico, por que ele vai optar pelo convencional? Claro, é uma escolha do consumidor. Eu sempre falo que nós entramos no mercado para ser mais uma opção. Somos uma marca de beleza, verdade, mas não queremos focar estritamente no segmento orgânico.

Os produtos orgânicos, na grande maioria, são mais caros do que os produtos tradicionais. Como essa questão influencia no preço final de seus produtos?

Produzir uma linha de maquiagem natural é muito mais difícil, o processo é muito mais lento. Mas com certeza vale a pena. Existe a questão da política de competitividade de cada marca. Eu nunca quis repassar para o consumidor final todo o meu investimento. Sempre tive certeza que eu queria fazer uma marca democrática, por isso precisamos manter nossos preços justos. Em média, o menor valor de nossa linha é entre R$75/80, e o valor mais alto é em torno de R$130 – para o mundo da maquiagem, são valores muito acessíveis. Eu não queria aquela coisa de a pessoa querer comprar um produto orgânico e o preço a impedir. Por isso estamos num patamar bem acessível. Enquanto for possível fazer isso, farei, é a minha política de marca.

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Batom, R$69,00 ©Divulgação

Onde os produtos são vendidos?

À princípio, a marca foi feita para ser vendida em e-commerce, pois sempre acreditei no mercado digital. Com o lançamento no SPFW, apareceram várias propostas para vendermos em lojas físicas. Ainda estamos avaliando em que lojas vender, pois isso não estava previsto – embora seja muito bom pra marca. Pensamos no futuro abrir uma loja própria também, porém, neste momento, quero sempre incentivar o e-commerce, que foi o meu objetivo.

Uma das filosofias da marca é a igualdade de gêneros. Como você a promove?

A igualdade de gêneros é muito nova para o grande público. Pra quem trabalha com moda, isso é comum há muito tempo. Pra mim isso não é uma coisa nova e eu nunca quis que a marca fosse feminina. É uma marca de beleza, ponto. Quem se identificar, usa. Hoje, mais do que nunca, vemos tantos meninos influencers sendo referência para o universo da maquiagem que eu não vejo por que fazer uma marca estritamente feminina. Não faz sentido. Eu não sei se eu preciso levantar essa bandeira do sem gênero porque pra mim é óbvio, usa quem quer, é uma marca democrática. Temos inúmeros produtos que se encaixam para homens e mulheres. É super possível os homens usarem os nossos bb creams no dia a dia, por exemplo. Temos um pó translúcido que dá uma matificada na pele que, pra mim, cai muito melhor em uma pele masculina do que feminina.

 

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BBCream, R$129,00 ©Divulgação

Quais são os próximos planos da Simple?

Ah, eu sou bem sonhadora (risos). Eu vejo a missão da Simple em levar para outras fronteiras a beleza brasileira. Somos uma empresa brasileira, regional – por ser de Floripa, que é uma coisa que eu sempre levanto a bandeira, afinal moramos numa ilha incrível! –, porém queremos ser uma marca globalizada, por isso o nome em inglês. A questão da exportação pra mim é bastante importante. Em agosto, por exemplo, seremos a primeira marca brasileira a participar de uma feira muito incrível em Nova York, a Indie Expo Beauty, de beleza indie orgânica e natural.

Seguindo o exemplo da revista Catarina, que sempre foi democratizar informação de moda, a Simple leva um pouco disso, tem a missão de democratizar essa informação da sustentabilidade para o mercado. Queremos oferecer um amplo leque de produtos orgânicos para atender um público cada vez maior. Já estamos dando alguns passos, porém ainda não posso divulgar. No geral, vamos produzir um mix maior de produtos. Em junho temos um lançamento bem grande na Bio Brasil, a maior feira de orgânicos do país, que acontece na Bienal.

E também tem as questões sociais, que ainda estamos aliando, mas vamos entrar para projetos sociais bem grandes.


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