06.10.2017 / Comportamento / por

A história de Rio Uribe, da Gypsy Sport, que está levando a moda genderless para outro patamar

Rio Uribe, criador da Gypsy Sport / Reprodução
Rio Uribe, criador da Gypsy Sport / Reprodução

Uma parte da história de Rio Uribe é a mesma de muitos jovens que amam moda e querem trabalhar no meio: gosta de roupas e interage com elas desde pequeno, costurando ou inventando coisas para os irmãos mais novos ou bonecos. Muda-se para uma cidade onde as oportunidades de trabalho são maiores atrás do sonho de se tornar um estilista, mas para se manter, acaba se deparando com empregos que passam longe de seu sonho. Em mais uma mudança de trabalho, Uribe conseguiu uma vaga para cuidar do estoque de uma loja da Balenciaga – ou como ele mesmo fala, de “um trabalho de merda”.

Mas é agora que entra um ponto que foi decisivo para o desenrolar da sua história: determinação e energia. Uribe ralou por seis anos, fazendo o que não gostava, vivendo longe do seu ideal. Até que virou diretor de merchandising da Balenciaga e passou a viajar o mundo à trabalho.

O esforço foi compensado, certo? Sim, mas para ele ainda faltava algo. Em 2012, passou a postar fotos que tirava em suas viagens em uma página no Tumblr chamada Gypsy Sport (gypsy pela vibe global e sport por conta de um revival dos anos 90) até que começou a ter um número significativo de seguidores. O passo seguinte foi fazer chapéus e camisetas em seu apartamento no Harlem, tudo com material reciclado e sob o nome Gypsy Sport. Depois vendia em lojas pop up que armava aos finais de semana em parques e clubs. Até que um dia recebe um telefonema: o diretor de estilo da DKNY queria encomendar uns chapéus para o desfile de Verão 13. “Como diabos um designer corporativo e bem estabelecido de uma marca icônica de roupas esportivas ainda encontra um jovem designer amador como eu?”, ele se perguntou.

Ver seu produto no desfile foi o que fez ele perceber que era isso o que gostaria de fazer. Pediu demissão do emprego e usou suas economias para fazer um site, registrar seu logo e começar a produzir.

Cinco anos mais tarde, sua marca é uma forte representante da moda sem gênero, sem regras e com outra proposta de design, estilo e consumo. “Queremos trazer novas vozes para a conversa da moda. De desfiles a campanhas, sempre chamamos pessoas de todas as cores, gêneros e tamanhos”. A primeira apresentação aconteceu em 2014 no meio do Washington Square Park, em Nova York. Em 2016, ele venceu o CFDA/Vogue Fashion Fund. gypsy21

Seu mais recente desfile (verão 18) foi mostrado na Place de la République, em Paris, em plena sexta à noite, entre protestos de um grupo de egípcios e meninos andando de skate. No casting, amigos de amigos de amigos desfilaram em toda sua diversidade quase 40 looks feitos de calças velhas da Levi’s, crochês de sua mãe, chaveiros de loja de souvenir, muitos retalhos e posters que ele arrancou de uma estação de metrô poucas horas antes do show (foto acima). Uribe brinca com logos, como o da Coca Cola, que vira Coexist, e Gap, que vira Gyp.

A imagem final é caótica, apocalíptica, poderia ser o figurino de um filme como Mad Max. Um paletó não é mais um paletó, as mangas não necessariamente cobrem os braços e claro, não existe mais algo como roupa feminina ou masculina.

Trata-se de um movimento, mais do que uma marca. Uribe não nasceu em uma família rica, não estudou em nenhuma universidade de prestígio. Ele entregou dezenas de currículos e nunca teve resposta. Trabalhava em três trampos para se sustentar e ficou com medo de concorrer ao prêmio da Vogue. “Achava que não era educado o suficiente, sem muitas conexões, não conhecia as jornalistas da Vogue nem os membros do concurso. Tinha certeza que não conseguiria”.

O que ele fez foi ser ele mesmo e hoje é uma parte importante dessa conexão com uma comunidade que está alargando as barreiras do sistema para buscar novas maneiras de existir.


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