20.10.2017 / Comportamento / por

Como a moda está lidando com o assédio, a partir do recente escândalo no cinema

Imagem do desfile de Haider Ackermann Verão 18 / Agência Fotosite
Imagem do desfile de Haider Ackermann Verão 18 / Agência Fotosite

As notícias de assédio por parte de Harvey Weinsten se espalharam e tem ocupado espaços importantes em jornais, revistas, sites e redes sociais mundo afora, crescendo com cada vez mais mulheres vindo à tona com seus depoimentos. Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne, Asia Argento e Léa Seydoux estão entre as mais de 40 mulheres que já falaram abertamente sobre o caso, dividindo suas próprias experiências.

O abuso sexual é algo que cerca a mulher em todos os ambientes, mas no cinema e na moda funciona quase como se fosse uma coisa normal, como se as mulheres já soubessem que, para conseguir aquele papel ou se dar bem na carreira, era necessário passar por ele. Mas enquanto as atrizes quebravam o silêncio e corajosamente se abriam, a moda ficou calada. O clube do silêncio em torno do assédio é uma coisa absurda.

Até que a modelo Cameron Russel passou a usar seu perfil no Instagram para compartilhar histórias anônimas sofridas por outras modelos. Para ela, o escândalo Weinstein é o início de uma mudança de poder. “Nós estamos falando umas com as outras, estamos falando alto e estamos falando com advogados e repórteres”.

Em um dos posts ela descreve algumas situações:

“Alguns anos atrás, eu estava fotografando com outra modelo na sede corporativa de um cliente. Na cozinha, havia alguns cartazes sobre direito do trabalho e lemos a definição de assédio sexual. “Isso parece ser a nossa descrição do trabalho”, eu disse. O assédio sexual é inaceitavelmente comum. Sentei-me para tentar fazer uma lista de minhas próprias experiências. Beijinhos não consensuais, palmadas e beliscos. Falta de espaço adequado para troca de roupa, e respostas que nos envergonhavam quando pedíamos um espaço adequado para nos trocar. Intimidação por editores, fotógrafos, estilistas e clientes para fazer topless ou nude. Publicando nudez depois de acordar contratualmente que não. Massagem não consensual. E-mails inapropriados, mensagens de texto e telefonemas. Pressão, enquanto menor, para consumir álcool. Receber uma ordem do tipo: “finja que eu sou seu namorado”. Ser forçada a dormir na casa do fotógrafo em vez de providenciar um hotel. Ter o meu trabalho ameaçado se eu não participar. Ser chamada de diva, difícil, feminista, virgem, quando dizemos não. Eu perdi a conta. E isso é apenas o que é fácil de compartilhar, coisas tão comuns quanto dar um telefonema às 9h, prova de roupa e almoço”.

Christy Turlington veio logo atrás, dando força ao movimento. “Posso dizer que assédios e maus tratos sempre foram amplamente conhecidos e tolerados nessa indústria, que está cercada de predadores que se aproveitam da constante sensação de rejeição e solidão que muitas de nós experimentamos em algum momento da carreira”, contou a super modelo ao WWD. Christy diz não ter sido abusada, mas lembra que muitas vezes, quando viajava à trabalho, era confiada aos cuidados de “algum playboy assustador” em vez de ficar em um hotel.captura-de-tela-2017-10-20-as-09-13-29

“A pior coisa é que, para uma modelo, não é incomum se encontrar em uma situação estranha onde o fotografo ou outra pessoa acha que tem o direito sobre o seu corpo”, diz a modelo Trish Goff.

Cameron quebrou o silêncio da moda e tem recebido centenas de depoimentos de modelos (muitos postados em seu perfil). Logo, jornalistas e veículos começaram a cobrar posicionamento da indústria sobre o assunto, mas poucos se pronunciaram. “Comportamentos como este são inaceitáveis”, disse Anna Wintour ao New York Times. “Eu me sinto péssima quando penso no que essas mulheres passaram e admiro sua coragem em trazer isso à tona. Meu amor a todas elas e também à Georgina (Chapman, agora ex-mulher de Weinstein) e seus filhos. Nós todos temos um papel a desempenhar em criar ambientes seguros onde todas as pessoas possam ser livres e trabalhar sem medo”.

Wintour foi uma das primeiras entre os big players a falar publicamente justamente porque tinha uma espécie de parceria profissional com Harvey Weinstein – muitas vezes, atrizes de filmes produzidos pelo empresário saíam na capa da Vogue americana.

Ele também era casado com Georgina Chapman, dona da Marchesa, que desfila na semana de moda de Nova York e, ao que parece uma estilista querida por muitos. Em 2011, Harvey contou ao Wall Street Journal: “quando eu não estava indo muito bem, Anna dava uma festa e me colocava ao lado de Bernard Arnault”. O grupo LVMH tem uma fatia de 1% da Weisntein Company.

Como escreveu Vanessa Friedman no NYT, ainda faltam muitos designers e empresários se pronunciarem. As principais lojas de departamento que vendem Marchesa preferiram o silêncio e não falaram nem mesmo em suporte à estilista. Ao procurar representantes das lojas para sua matéria, ela ouviu: “nós não queremos fazer parte dessa história”.

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Essa frase resume tudo e por que ainda esse tipo de abuso é permitido e tolerado. Mas de fato, a situação atual abre um espaço para mudança. Semana passada a Care2, uma gigante comunidade online que promove causas nobres e tem mais de 40 milhões de membros, fez uma petição pedindo para a Nordstrom parar de vender as linhas DKNY e Donna Karan em resposta aos comentários da estilista defendendo Weinstein (mesmo que ela não faça mais parte da empresa que fundou).

A própria Marchesa, por sua proximidade com o escândalo, está sofrendo boicote. No Twitter, há uma hashtag #boycottmarchesa com diversos posts negativos e raivosos contra a marca e sua fundadora.

“A verdade é que ninguém sabe muito o que dizer a Georgina”, diz Steven Kolb, CEO do Council of Fashion Designers of America (CFDA). “Mas como uma força criativa e membro do CFDA, ela é uma pessoa que merece o apoio e a proteção da indústria”.

Por mais que muita gente ainda prefira ficar calada, os depoimentos das modelos são valiosos porque, em toda sua tristeza e raiva, há também coragem e vontade por mudança. Há um BASTA em cada um deles. E quanto mais gente se juntar ao coro, seja expondo uma situação ou apoiando as meninas e agindo pela transformação, mais força esse movimento tomará. Como bem disse a consultora de moda e ex-diretora da Barneys New York: “Estamos vivendo em um momento em que simplesmente temos que encontrar as palavras”.

 

 

 


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