25.04.2016 / Comportamento

Refugiados que desfilaram para Ronaldo Fraga contam histórias de superação e esperança

Nour Koeder, Alassane-Diaw, Fanny-Mudingayl, Leon Diab e Nawras Alhaiabi no desfile de Ronaldo Fraga
Nour Koeder, Alassane-Diaw, Fanny-Mudingayl, Leon Diab e Nawras Alhaiabi no desfile de Ronaldo Fraga

Por Alexandre Ougata com colaboração de Isabella de Almeida Prado

São quatro homens e uma mulher. Cinco dos milhares de refugiados que procuraram abrigo no Brasil vislumbrando dias melhores. Vencidos os mais de dez mil quilômetros que separam seus países do nosso, esses guerreiros chegaram a solo brasileiro com histórias de sofrimento, mas também de superação.

+ Leia os destaques do desfile de Ronaldo Fraga

Convidados para atuarem como modelos no desfile de Ronaldo Fraga no SPFW N41, por intermédio de uma associação de apoio a refugiados, a congolesa Fanny-Mudingayl, os sírios Nour Koeder e Nawras Alhaibi, o senegalês Alassane-Diaw e o palestino Leon Diab observam atentamente o fluxo de entra e sai de pessoas no backstage e tentam captar aos poucos a atmosfera de uma semana de moda. Apesar de estreantes na passarela, não é de se espantar a tranquilidade que todos eles aparentam ter. Pudera. Há pouco tempo morando em São Paulo, já tiveram que vencer a barreira da língua e se adaptar a uma nova cultura e uma nova vida – mas, desta vez, cheios de esperança.

Momentos antes dos holofotes jogarem mais luz na vida destes novos residentes, eles relataram ao FFW um pouco de sua trajetória até aqui.

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Nour Koeder, 24 anos, Síria, estilista. Fala português.

Tempo no Brasil: dois anos. “Já viajei para Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná.”

Motivo da vinda: guerra civil da Síria. “Não dava para morar lá. Eu não tinha trabalho, nem ao menos um lugar para morar. O Brasil foi o único lugar que me abriu as portas. Tinha tentado migrar para alguns países europeus, mas não tive sorte. Como uma tia morava aqui fazia 35 anos, vim para ficar um tempo com ela. Agora moro no Tatuapé.”

O que fazia na Síria: trabalhava como estilista de roupa para festa.

Trabalho no Brasil: desempregado há três meses, já trabalhou em uma fábrica de confecção de jeans no Brás e como vendedor de roupa na feirinha da madrugada.

Uma saudade: dos amigos e da família. “Eles estão espalhados pelo mundo. Meu pai ficou preso na Síria por oito meses e meu irmão mais novo, de 20 anos de idade, foi para a Alemanha pelo mar.”

Um sentimento: esperança. “Quem sabe um dia mostrar minha coleção aqui no SPFW”.

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Nawras Alhaiabi, 33 anos, Síria, jornalista. Fala português.

Tempo no Brasil: quase dois anos.

Motivo da vinda: guerra civil da Síria. “Quando a guerra começou, ficou perigoso viver lá; ou você estava do lado do governo ou da oposição. Primeiro fui para o Líbano e depois para o Brasil. Cheguei triste, deprimido por ter abandonado minha família, minha casa. Não conhecia nada, nem ninguém. Não sabia uma palavra em português. Logo que cheguei fui morar em um hotel no Brás, depois aluguei um quarto para dividir com um refugiado também. Agora vivo com a minha esposa que conheci em uma associação de integração para refugiados aqui em São Paulo. Ela é marroquina e nos casamos aqui faz dez meses.”

O que fazia na Síria: “Me formei em jornalismo, mas trabalhava no Dutty Free em Damasco havia sete anos.”

Trabalho no Brasil: “Minha esposa e eu cozinhamos comida síria e marroquina e vendemos no piquenique que acontece aos fins de semana na Faria Lima. Queremos abrir o nosso restaurante.”

Uma saudade: dos pais. “Falo com eles diariamente”.

Um sentimento: esperança. “A guerra não vai terminar tão cedo. Aposto que dure no mínimo mais cinco anos. Tenho esperanças de conseguir viver e construir minha família aqui no Brasil.”

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Alassane-Diaw, 31 anos, Senegal, comerciante. Não fala português.

Tempo no Brasil: um ano.

Motivo da vinda: “Saí do Senegal porque lá não existe expectativa de vida. Não conseguia ganhar dinheiro e as jornadas de trabalho eram extensas. Moro sozinho na avenida São João, no centro de São Paulo.”

O que fazia no Senegal: “Minha família e eu tínhamos um pequeno comércio.”

Trabalho no Brasil: desempregado. “Desde que cheguei tenho procurado emprego, mas ainda não consegui. Como só falo francês, as coisas ficam mais difíceis.”

Uma saudade: “Minha mulher e minha filha.”

Um sentimento: esperança. “Traze-las para o Brasil também”.

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Leon Diab, 24 anos, Palestina, arquiteto.  Não fala português.

Tempo no Brasil: oito meses.

Motivo da vinda: “Tive de sair do país por causa da Faixa de Gaza. A estrutura para se viver lá é precária. Não tive escolhas. O Brasil apareceu como um lugar que oferece mais facilidades aos refugiados. É relativamente fácil conseguir o visto para ficar aqui, além de ser um país receptivo e com belas paisagens.”

O que fazia na Palestina: “Eu deixei a Palestina logo após o ensino médio e fui viver em Dubai, Milão, fui desbravar o mundo. Sou arquiteto, precisava viajar. Quando decidi voltar para o meu país de origem, me deparei com a situação de Gaza.”

Trabalho no Brasil: “Tenho um escritório de arquitetura e presto serviços para clientes brasileiros e do exterior.”

Uma saudade: “Não tenho. Saí de casa muito cedo, digo que sou uma pessoa do mundo.”

Um sentimento: “Esperança que a situação de Gaza tenha uma solução.”

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Fanny-Mudingayl, 24 anos, Congo, contadora. Não fala português.

Tempo no Brasil: três meses. “Cheguei no começo de 2016.”

Motivo da vinda: “Meu marido já estava aqui em São Paulo e eu desejava outro tipo de vida daquela que tinha no Congo. Moramos nós dois na Vila Matilde.”

O que fazia no Congo: “Fiz faculdade de contabilidade e trabalhava em um supermercado. Mas desde que deixei o emprego, não consegui mais nada.”

Trabalho no Brasil: desempregada. “Está difícil conseguir trabalho. Preciso aprender logo a língua portuguesa, vai me ajudar.”

Uma saudade: “Estou com o meu marido aqui. Então, tá tudo bem.”

Um sentimento: esperança de conseguir um emprego.


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