08.02.2017 / Gente / por

Conheça Diego Vanassibara, sapateiro brasileiro radicado em Londres

©Henrietta Garnham/cortesia
©Henrietta Garnham/cortesia

Por Luísa Graça

Diego Vanassibara quer dar aos homens a oportunidade de sonhar com a moda também. Com a marca que leva seu nome, ele cria sapatos masculinos orientado por design, estilo e inovação, sem perder de vista a importância da atemporalidade e o aspecto artesanal que um calçado deve ter, inspirado por natureza, miscigenação brasileira e até mesmo pelo carnaval carioca. Natural de Caxias do Sul e vivendo em Londres há 11 anos, suas peças robustas refletem um encontro entre esses dois universos. A tradição europeia e o frescor e natureza do Brasil culminam em uma abordagem moderna de modelos clássicos como loafers, brogues, sliders, botas, Oxfords e Derbys.

 

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Em Londres, Vanassibara estudou design de sapatos na Cordwainers College (parte da London College of Fashion) que formou grandes nomes da sapataria, como Jimmy Choo, Nicholas Kirkwood e Charlotte Olympia Dellal. Lançou sua marca em 2013, exibindo coleções na London Collections: Men, colaborou com Mihara Yasuhiro e é um dos apadrinahdos da NEWGEN MEN, iniciativa do British Fashion Council e da TOPMAN que oferece recursos financeiros e consultoria a jovens designers, como foi o caso de J.W. Anderson, em 2013.

Foi com esse apoio que Diego, 33 anos, conseguiu desenvolver seu Verão 2017, uma coleção inspirada em mosaicos, intitulada Trincado. As peças estão fresquinhas nas prateleiras de lojas de departamento e revendedoras da marca em quatro continentes, nos endereços mais cool de Londres, Hong Kong e Los Angeles, mas ainda não são vendidas no Brasil (embora possam ser compradas online). “Nosso produto tem um valor agregado bastante elevado e ainda não há um canal de distribuição ideal no Brasil. Nossos clientes brasileiros [geralmente] compram nossos sapatos no exterior”, explica ele, que tem a produção artesanal dos sapatos baseada no Brasil e na Itália e tem preço médio de 500 libras (em torno de 2 mil reais).

Ele tem um ótimo site, bem completo e gostoso de navegar. Participa ainda de eventos de moda masculina em lojas especializadas em Londres e Tóquio e já saiu em revistas como GQ, Flaunt e Wallpaper.

O designer conversou com o FFW sobre seu trabalho.

Você enxerga um progresso na moda masculina nos últimos anos, no sentido de que é “permitido” ousar mais?

Desde a grande renúncia masculina à moda que aconteceu no final do século 19, em virtude da revolução industrial e mudança no modo de vida e depois seguido pela primeira guerra mundial, os homens foram deixados meio que de lado pela moda. A moda masculina tornou-se muito seca e pragmática. Acredito que nós homens também podemos curtir, aproveitar e sonhar com o vestir bem e, principalmente, o calçar bem. Existe, sim, um progresso, mas há muito a ser feito ainda.

O que te motivou a criar a marca e qual a filosofia por trás dela?

A vontade de ter um meio próprio para canalizar minha criatividade, criar sapatos fantásticos, ser independente e fazer as pessoas que os usam um pouco mais felizes. Adoro fazer as pessoas ao meu redor se sentirem bem. Quero criar calçados especiais e únicos e que satisfaçam as necessidades do nosso público. Nossa marca tem um nível muito rico de pesquisa por trás de cada design e não temos medo de arriscar e de sermos vanguardistas, com a consciência de que o cliente tem de se sentir bem.

Você demonstra uma preocupação com questões relacionadas à sustentabilidade, como no caso do Verão 2016, que teve como ponto de partida o desmatamento na Amazônia. De que maneira isso se traduz na produção dos seus sapatos?

Para mim, um dos maiores atos de sustentabilidade e preservação tem a ver com a preocupação com a durabilidade e o número de vezes que usamos um produto. Por exemplo, quando um sapato é feito à mão e tem qualidade o suficiente para ser usado por muitos anos, isso compensa o esforço e recursos naturais de sua produção. A cultura atual do “jogar fora”, do descartável, é nociva.

Pensando nessas questões, quais materiais você costuma usar?

Tendo a usar couro de vaquilhona, que é um gado mais jovem. É um couro mais macio e com maior elasticidade. Além disso é muito mais nobre e possibilita maior aproveitamento da pele e menor desperdício.

De que maneira suas origens brasileiras e a vida na Inglaterra informam seus desenhos?

Minhas origens brasileiras, que já são uma mistura bem exótica, e minha vida na Inglaterra se colidem num resultado bastante próprio. Diria que tem a ver com a maneira como vejo as coisas e processo informações na minha cabeça. Minha estética busca influências na arquitetura, na natureza, no meu jeito de interpretar nossa história e miscigenação e num olhar bem particular de como acho que o futuro pode ser.

O que te inspirou a criar suas coleções mais recentes?

Os modelos do Inverno 2018 acabaram de ser mostrados em Paris e se baseiam numa “interpretação religiosa” da cultura punk. Os calçados que são novidade nas lojas agora [Verão 2017] são inspirados na questão “O que seria um mosaico contemporâneo?”. Encontrei referências em vidros quebrados, trincados, estilhaçados, nos painéis de Athos Bulcão, em vitrôs, na passagem de São Francisco de Cândido Portinari na Igreja da Pampulha.

 


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