06.04.2017 / Gente / por

Expensive $hit: uma conversa com Tasha e Tracie sobre autoestima na periferia

Tasha e Tracie ©Cortesia
Tasha e Tracie ©Cortesia

Muitos de vocês certamente já ouviram falar das gêmeas Okereke, Tasha e Tracie. Elas têm ganhado muita visibilidade por conta da participação do projeto Meio Fio, da Melissa, que inclusive está na SP Arte. Mas há tempos, as meninas têm inspirado garotas adolescentes e crianças da periferia.

Aos 21 anos, elas aprenderam logo cedo a importância de uma palavra: auto estima. E essa é a principal ferramenta que usam em todos os seus caminhos e ações, pois é o verdadeiro instrumento de mudança. Tasha e Tracie representam “o” empoderamento e transmitem essa autoestima às garotas de sua comunidade.

Mas é uma energia tão contagiante que as gêmeas estão conseguindo fazer uma travessia difícil: em vez de virem para o centro, estão levando o interesse que geram de volta para sua área. Sua criatividade, estilo e poder de comunicação também está deixando de impactar somente a menina negra – sua primeira conexão – para inspirar meninas no geral e no plural. “Realizamos nosso festival na quebrada. É a nossa prioridade porque muda muita coisa quando fazemos nosso rolê na nossa própria área. Já tem muita coisa rolando no centro, porque as pessoas não podem vir até aqui?”, pergunta Tasha.

Tasha e Tracie e a turma do desfile do coletivo MPIF na Casa do Povo ©Cortesia Melissa
Tasha e Tracie e a turma do desfile do coletivo MPIF na Casa do Povo ©Cortesia Melissa

Através do blog expensive $hit e do coletivo MPIF (Mulheres Pretas Independentes de Favela) elas abordam temas como miscigenação, as heranças do patriarcado, o poder da África, cultura negra no Brasil, rap e moda. T&T amam moda e dão dicas de como se vestir gastando muito, muito pouco. “A moda da rua não está na periferia. Elas imitam aqui os bagulhos lá de fora. Quer ser negro no meio de brancos. As pessoas querem habitar um lugar que não pertence a elas e a gente tá trabalhando uma história justamente o contrário: queremos ter o nosso lugar e todo mundo será bem vindo aqui”, diz Tracie. “Nosso corre é pra autonomia intelectual e de auto estima do favelado”, completa a irmã.

Quando elas se dirigem ao favelado, incluem também “aquele que não se enxerga favelado ou o preto classe média que também sente os mesmos preconceitos e repressões que o favelado sofre”. Quando alguém disse que eram it girls, logo corrigiram: é it favela.

E essa convicção e orgulho conferem muito poder. Com suas amigas sempre por perto, elas criticam as empresas que usam a diversidade como jogada de marketing e marcas de cosméticos que vendem produtos para alisar cabelo num dia e para encrespar no outro, conforme a tendência do momento.

Workshop com a performer Paula Garcia ©Reprodução
Workshop com a performer Paula Garcia ©Reprodução

E assim, elas chegaram à Melissa. O concurso Meio-Fio estava rolando, elas mandaram um release de última hora e entraram na competição. A preparação incluiu workshops com a performer Paula Garcia, que aprendeu com Marina Abramovic as performances de longa duração. E elas contaram assim:

– Fomos para uma experiência muito difícil. (Tracie)

– Viajamos para um lugar lindo, na natureza. (Tasha)

– Eu não tava a fim de ficar no mato. (Tracie)

– Mas é de resistência, de organizar os pensamentos, ficar concentrada. (Tasha)

– Mato, mosquito… Foi complicado, bem uma coisa de resistência mesmo. (Tracie)

– Fazia tempo que eu não ficava tão calada. (Tasha)

Dever cumprido com louvor, as meninas ficaram em 1º lugar na votação feita pelo público. E aqui estão elas, com sua instalação e suas roupas, na SP Arte, principal feira de arte do país. Lá, podemos ver o vídeo de Hick Duarte sobre o desfile que fizeram na Casa do Povo no final de março, apresentando as criações de moda do coletivo MPIF, das gêmeas junto com as amigas Aniele e Valeria. 20 looks foram mostrados, misturando brilhos, veludo e transparências a frases como “Você sabe quem matou Luana”, uma referência a Luana Barbosa dos Reis Santos que morreu espancada por policiais militares.

No espaço da Melissa, roupas, acessórios e ilustrações feitas por elas e seus amigos, estão à venda. “Não nos organizamos direito e não sabíamos da dinâmica, então o resultado final ficou 30% do que desejávamos. Mas tivemos uma boa resposta”. As peças têm energia, protesto, beleza e originalidade.

Próximo passo: lançar o site do coletivo para fortalecer ainda mais a voz da mulher negra através da moda, da música, da arte e da educação. “Estamos vendo como tem gente que acompanha o nosso corre”. E vai ter cada vez mais.


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