06.07.2017 / Moda / por

Desfile de Alta Costura da Valentino consagra Pierpaolo Piccioli

Pierpaolo Piccioli no camarim após o desfile / Instagram Valentino
Pierpaolo Piccioli no camarim após o desfile / Instagram Valentino

Pierpaolo Piccioli e Maria Grazia Chiuri trabalharam juntos por 20 anos, 10 deles na Valentino, partindo do departamento de acessórios a direção criativa total da marca após a aposentadoria de Valentino Garavani. A dupla reposicionou a marca, revitalizou o masculino e criou uma linha de acessórios blockbuster, liderada pela linha Rockstud. Seus desfiles, ainda que lindos e impecáveis, logo passaram a ser fáceis de decifrar. De alguma maneira, já sabíamos o que esperar.

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Quando Maria Grazia Chiuri trocou a Valentino pela a Dior em 2016, aí ficou claro quem fazia o que nas coleções da marca italiana. Transparências, bordados e uma feminilidade fácil de gostar e elucidar estavam lá. Pela primeira vez, olhamos para a Dior e achamos que lembrava Valentino.

A Pierpaolo, sobrou a inventividade, o verdadeiro recurso que aquece o coração da moda. O pensamento artístico o distancia do óbvio e resulta em um olhar mais bold e arrojado, ainda que delicado, feminine e desejável.

No desfile de Alta Costura Inverno 18 da Valentino, mostrado ontem (05.07), seu quarto em carreira solo, Piccioli comprovou sua força. Fazer roupas bonitas – ainda mais com o budget e a estrutura dessas grifes – não parece um trabalho tão difícil assim dentro desse círculo. O que pouco se vê são mudanças de padrões. Mudar algo que já está consolidado, isso poucos fazem. Mudar e fazer com que a percepção das pessoas em relação a essa transformação seja 100% positiva, aí sim, você deu um passo.screen-shot-2017-07-06-at-11-32-47-am

Foi o que fez com sua “alta costura contemporânea”, em que manteve a mágica que ronda o universo da couture, pensada para os dias de hoje. “Quis manter os rituais, mas permitir que eles conversem com o futuro”, disse Pierpaolo ao BoF.

E foi exatamente isso o que ele fez, brilhantemente. Como? Parece uma fórmula óbvia para a contemporaneidade: pegando elementos da moda atual, como o layering, e a praticidade da moda do dia a dia, unindo ao artesanato de luxo e às inspirações artísticas.

A essa “modernidade”, ele associou seu interesse por espiritualidade e rituais religiosos – que também já vimos na Valentino. Desta vez, olhou justamente para o que é chamado de vestizione, a sobreposição de vestimentas religiosas, para inspirar a maneira como trabalhava sobrepondo camisas, casacos, calças e túnicas.

O mesmo ele fez com a cartela de cores, primeiramente inspirada na obra do pintor espanhol Francisco de Zurbaran, do século 17. Em seu moodboard, Piccioli reunia diversas pinturas que mostravam azuis, verdes, amarelos e vermelhos em combinações incomuns. E ele fez sua mágica, usando um dom de colorista que poucos designers têm nessa potência (Raf Simons e Consuelo Castiglioni entre eles). Em 60 looks, ele ligou um costume milenar e uma arte secular ao modo de vida contemporâneo.

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O público foi arrebatado por aquela sequência de looks, a começar pelo primeiro em tons de rosa, batizado de Angelus: blusa de chiffon de gola alta por baixo de uma capa de cetim, usados com uma calça ampla de crepe. Todas as peças foram batizadas com nomes de arcanjos e anjos.

O fazer rigoroso da couture, da forma como estamos acostumados, não era evidente. Algumas peças aparentavam simplicidade – “o valor autêntico da Alta Costura da Valentino não é visível” – e escondiam mais de 600 horas de trabalho humano. O vestido Zerachiel, um longo de lã com aplicações de renda e bordados de organza, foi feito em 700 horas, costurado pelas premieres, como é chamado o primeiro escalão do ateliê de alta costura. O vestido Gabriel, feito em chiffon rosa e um bordado que imita colmeia, levou 660 horas.

Formado pelo IED de Roma, Pierpaolo conheceu Maria Grazia através de um amigo em comum no início dos anos 80. Em 1989 foram trabalhar juntos na Fendi no departamento de acessórios, iniciando sua parceria criativa. Em 1999 entraram na Valentino como designers de acessórios. Em 2003 passaram a cuidar da linha Red Valentino e quando o fundador da marca se aposentou em 2008, assumiram a direção criativa. Em 2015 venceram o prêmio de designers no CFDA e um ano depois, Maria Grazia migrou para a Dior. Nessa partilha, a Valentino com certeza saiu ganhando, com seu olhar que equilibra o passado, o presente e o futuro.


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