23.05.2016 / Moda / por

Flavia Aranha cria moda atemporal, num processo de tingimento com plantas e confecção do próprio tecido

Uma das fotos da exposição que registra o processo de tecelagem e tingimento do algodão em Muzambinho (MG) ©Daniel Malva
Uma das fotos da exposição que registra o processo de tecelagem e tingimento do algodão em Muzambinho (MG) ©Daniel Malva

É da fermentação das folhas de uma planta leguminosa chamada indigosfera, da família das anileiras, que vêm os tons de azul usados nas roupas de Flavia Aranha. Já as cascas de romã, cozidas em panela de ferro, criam um tom marrom acinzentado queimado bonito. O vermelho é conseguido por meio da raíz da ruivinha, ou rubia tinctorium. As cartelas de cores das coleções da estilista são uma verdadeira aula de botânica executada numa “cozinha”, como é chamada a lavanderia para o tingimento natural de suas roupas e que ela acaba de ampliar no andar de cima de sua loja e ateliê na Vila Madalena (SP). “São tons que a gente não encontra no pantone”, diz, sobre o técnica usada desde que abriu a marca há sete anos, depois de quatro como gerente de produtos da Ellus, seu primeiro emprego assim que se formou na conceituada faculdade de moda Santa Marcelina.

A mais recente coleção cápsula de Flavia, “Enlace”, faz uma boa síntese dos ingredientes de sua moda, com foco no design clean e atemporal que evidenciam a qualidade e o processo artesanal dos tingimentos e dos algodões, linhos, sedas e lãs,  muitas vezes tecidos especialmente para a marca, num processo que pode começar na colheita do algodão – 50% do que ela usa é orgânico – ou no tecer de um fio que já vem pronto, caso da cooperativa Maria, criada pela japonesa Mayumi Ito na região mineira de Muzambinho, responsável por tecer e tingir todo o algodão usado nos seis modelos lançados por Flavia na quinta (19.05) passada, com uma exposição de fotos de Daniel Malva, que registrou todo o trabalho das 14 artesãs, da confecção do tecido nos teares ao tingimento feito com pétalas e folhas de rosa da própria plantação, além de café, folha de romã e folha de caju. Também foi produzido um vídeo, que você assiste abaixo.

Esse tipo de parceria não é novidade para a estilista. Ao longo de sua carreira foi viajando pelo Brasil em busca de artesãos, até formar uma rede de colaboradores que envolve 20 cooperativas e microempresas. As encomendas são feitas em pequenos volumes, já que o processo é todo artesanal. A família de dona Ana, em Pirinópolis (Goiás), por exemplo, confecciona 15 bolsas de couro de tilápia sem cromo (processo de curtimento que não é tóxico) para a marca. As entregas, com o passar dos anos, ganharam agilidade, embora sejam ainda feitas no esquema slow fashion total: a designer conta que antes não podia marcar data de lançamento de uma coleção porque a encomenda de um tecido ou tingimento poderia demorar seis meses para chegar. “Hoje conseguem me entregar em um mês.”

Michele Provensi na campanha de uma das coleções da estilista: a ideia é criar roupas atemporais ©Divulgação
Michele Provensi na campanha de uma das coleções da estilista: a ideia é criar roupas atemporais ©Divulgação

Flavia leva ao pé da letra o conceito de slow fashion e de moda sustentável – será a primeira marca de moda no Brasil a ganhar o selo B, dado a empresas sustentáveis -, o que não quer dizer que fuja da tecnologia ou da visão de negócio. Fez parceria com a USP para desenvolver um processo de como aplicar o corante natural em grande escala na sua recém-inaugurada lavanderia industrial, investiga novas matérias primas como o látex da Rondônia – material impermeável e biodegradável que ela já usa como uma alternativa ao couro animal – e participa anualmente do Green Showroom, evento em Berlim focado em slow fashion. Voltou a exportar depois de alguns anos focada no mercado brasileiro, uma escolha que fez para continuar do tamanho que considera ideal para sua moda. Nos primeiros anos da grife, foi a exportação que a manteve: chegou a vender para sete países, entre Áustria, Alemanha, Suíça e Japão, mercados que já consumiam, há sete anos, o conceito de moda artesanal e sustentável com shape minimalista. “O slow precisa ser pequeno”, diz, sobre sua decisão de exportar menos.

Atualmente, o Brasil tem lhe sido generoso: mesmo com a crise, afirma ter crescido 36% no ano passado. A cartela de clientes é considerável e, ao contrário do que se pensa, não mora no bairro onde fica sua loja: a maioria vem de outras regiões para adquirir seus produtos. O sucesso é tamanho que ela vai ampliar seu leque de atuação: até o fim do ano deve lançar uma linha masculina, chamada José. “Essa grande indústria não está entendendo o que o consumidor quer. Ele quer uma relação mais íntima com a roupa”, diz. “Meus clientes sabem identificar o que é um algodão puro, por exemplo. Eles não compram poliéster.”


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