25.04.2018 / Moda / por

Lenny Niemeyer fala sobre sua coleção no SPFW: "me apossei de mim mesma"

Mari Calazans abre o desfile de Lenny Niemeyer (Agência Fotosite)
Mari Calazans abre o desfile de Lenny Niemeyer (Agência Fotosite)

Entrei no camarim e logo encontrei com o diretor de desfiles Bill McIntyre e o stylist Daniel Ueda. Lenny ainda não havia chegado. Depois de dar uma olhada na coleção que estava pendurada nas araras, me chama atenção o board com os rostos das modelos que desfilariam para a marca: a maioria não é branca e sim negra ou latina, uma conta rara de se ver na maior parte das passarelas do mundo.

O desfile, com 48 looks para o próximo verão, reúne os principais feitos da estilista ao longo de sua trajetória, que foram reinterpretados para esta coleção. Mas ainda assim tem um frescor, parece tão novo e tão atemporal ao mesmo tempo.

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Dani, que há anos trabalha com Lenny, começa me contando um pouco da coleção. “Ela quer falar de Brasil a partir de seu baú de memórias na Lenny. Buscamos no histórico coisas que ela sempre trabalhou, como o étnico, o tropical, o animal, artsy, e misturamos tudo numa coleção só”. Quando chega no backstage, ela tem facilidade para resumir o processo dessa coleção: “me apossei de mim mesma”.

Faz parte desse histórico o drapeado em jersey nos maiôs que foram tão copiados e que aqui aparece recebeu franjas e novas cores.

Agência Fotosite
Agência Fotosite

Outra momento que me chama atenção são os looks bem amplos que aparecem ao final do desfile. Pendurado na arara, eles já causavam impacto. Na passarela, virou a última tradução para a palavra chique. Foi só o que as pessoas falavam ao final do desfile: “muito chique”. Um chique suave, leve, atemporal e inteligente. O robe lilás aparece amarrado na frente, mas quando solto, vira uma saída de praia. Eu liguei os looks oversized ao streetwear, que tem em Dani Ueda um entusiasta. Mas ele disse que tem apenas tem a ver com conforto e suavidade.

A franja parece ser o elemento do momento para Lenny e Daniel: aparece em diversas peças e foi trabalhada em ráfia, seda e lycra, sempre soltas e longas.

“Tem uma palha que se desconstrói e se transforma em franja. Essa desconstrução, só quem sabe fazer sou eu com o Dani”.

Lenny chama muito pelo Dani. Ele complementa seu pensamento e muitas vezes antecipa o que ela quer falar. Quando eu pergunto algo, ela começa a responder até que fala: “Dani, responde. O que você acha? Você fala melhor do que eu”.

Assim que entrou no camarim, a primeira coisa que Lenny fez foi perguntar ao stylist se ele estava triste por ela ter tirado um look do desfile. Mais tarde, enquanto assistíamos ao ensaio, ela me disse: “O Dani me desafia muito”.

Daniel: É sempre assim. Fazemos vários looks, fotografamos e depois vamos tirando até chegar ao número certo para o desfile. Geralmente eu quero deixar e a Lenny quer tirar. Desta vez foi o contrário.

Lenny: Esse ano tivemos muito pouco tempo pra fazer a coleção. Pensei: “não vou conseguir fazer, não vou conseguir dar tudo de mim”. Quando deu e ficou tudo meio calmo, comecei a achar que tinha algo errado. Ontem, à meia-noite ainda estávamos colocando franja. É sempre assim: é trabalho até o último segundo.

Lenny, qual você acha que é o seu principal legado para a moda?

Lenny: É fazer a cartilha direitinho. Muita dedicação, muito trabalho. É minha vida, minha alma. Né, Dani? Eu falei pra ela que me dedico muito.

Dani: Sim, a Lenny trabalha e se entrega muito.

Lenny: Quando você acha que está bom, você trabalha muito mais. E seguimos inovando nas cores, nas formas…

Dani: Tenho certeza que ela foi uma ótima aluna na escola (risos).

Lenny: Dentro das limitações conseguimos fazer algo bacana. Espero que fique bom, né… É tanto sofrimento.

Dani: Nada é impossível com a Lenny.

Pouco tempo mais tarde, ao entrar na passarela para agradecer, Lenny foi ovacionada e o trabalho dessa equipe deixou o público com os olhos brilhando.


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