Dupla 02

Como dois meninos de 19 anos estão chamando atenção com uma música nova, animada e que traduz o comportamento da nova geração

Felipe Enow e Thalin, da dupla 02 / Foto: Cortesia
Felipe Enow e Thalin, da dupla 02 / Foto: Cortesia

Conheci a Dupla 02 através da minha filha adolescente. A gente sempre troca ideia de música e um dia no carro ela disse: ouve isso. Era Sophya, até hoje minha música preferida da dupla formada por Felipe Serson (aka Enow) e Thalin, dois meninos de 19 anos da Zona Oeste de São Paulo, ex-estudantes do colégio Vera Cruz.

O que me atraiu no som foi em primeiro lugar a letra enorme, cheia de referências ao mundo dos jovens hoje, desde comportamentais às formas de pronunciar certas palavras, em um mix de português e inglês, às vezes na mesma frase. E o beat que vai crescendo e mudando, animando e descendo. Uma música super pop, mas que não usa a fórmula usual de uma faixa pop.

A imagem deles também acompanha essa vibe meio desordenada, criativa e sempre em mutação e evolução. Com styling e figurino do estilista Leonardo Alexei, da marca Alexei, eles encontraram uma identidade visual que, assim como a música que fazem, passa longe do óbvio. Laços, metalizados, maxi jaquetas, plumas, bermudas bufantes, vestidos vintage, tudo misturado e finalizado com um bom All Star.

A Dupla 02 surgiu em meados da pandemia quando Enow e Thalin gravavam as músicas pelo celular, em trocas de mensagens. Foi o que tirou os dois dos quartos trancados para onde foram quando chegou o covid-19 e deu um novo sentido à vida. Hoje, eles se preparam para lançar um novo álbum e estão chamando atenção de artistas grandes, interessados na sonoridade e na energia jovem que contamina quem estiver por perto. Eu encontrei com eles no estúdio Base e fizemos uma conversa em grupo, com a participação dos sócios do estúdio e do estilista e figurinista Leonardo Alexei.

Quando vocês soltaram a primeira música? 

Thalin: Maio 2020 fizemos a primeira música e lançamos a Dupla 02. Em agosto lançamos nossa primeira mix tape, Estético.

Logo quando comecei a acompanhar vocês, vi um video do primeiro show que vocês fizeram, a galera cantando todas as músicas. 

Enow: E as letras do Thalin são difíceis, não são fáceis de decorar.

Eu escuto todo dia e ainda não decorei. Mas vocês esperavam essa resposta no show? Porque uma coisa é você ir ao show e curtir, outra é você saber todas as letras de uma banda que acabou de ser lançada. É outro envolvimento.

Enow: Foi um choque, né?

Thalin: Eu esperava, velho… (risos)

Enow: Ah, mais ou menos. Quando começou a primeira música, Deixa Vim, a plateia cantou e me bateu um arrepio.

Thalin: O que eu não esperava era o volume. A gente não ouvia nada, só a galera gritando.

 


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Vocês escrevem as letras juntos?

Enow: eu faço majoritariamente o beat, e o Thalin produz e faz a maior parte das letras.

As letras têm muitas referência misturadas. Como você escreve?

Thalin: As letras na nossa mix tape no começo são bem diferentes das letras de agora. A gente não se encontrou nenhuma vez na produção de Estético pra fazer. Eu tinha abandonado a escola, então ficava o dia inteiro pensando, eram letras bem mais cabeçudas,  com mais metáforas.

Enow: Hoje a gente entra no clima junto, ele ouve a batida e começa a escrever.

Thalin: Mas é sempre a partir de alguma referência.

Enow: O Thalin é uma pessoa que escreve com muita referência.

Sophia é a minha preferida (ouça e veja no clipe abaixo).

Thalin: É uma homenagem pra produtora Sophie. A letra na verdade já tava na minha cabeça essa sonoridade do ksã. Tava em casa falando Michael Jacksã. Tinha uma música do Logic que eu era viciado que ele cantava: like Kevin Durand I’m a Champion! Daí ficava like Kevin Durand, like Kevin Durand…. Dai eu escrevi em Sophya: dance like Micheal jacksã, playing like Devin durã

E tanto na letra quando no beat, é uma música que vai surpreendendo, vai mudando. Não tem aquela fórmula da música pop, que não sai da zona de conforto.

Enow: Eu acho que é até o contrário de uma zona de conforto porque as primeiras reações que a gente teve de todo mundo é de gente falando: achei estranho. É uma música muito não convencia em termos de compasso, estrutura.

Mas acho que é isso que a joia que vocês tem, de fazer uma sonoridade nova num lugar onde é difícil achar coisas novas. É difícil fazer algo que soa nova.

Thalin: Sophia mudou muito a minha visão pra escrever e entender o que as pessoas gostam. A parte do “to sozinho mas eu faço festa em casa” foi uma das frases que as pessoas mais gostaram porque foi bem na pandemia. Então é uma coisa de ser comunicativa com as pessoas e como o momento delas. O desafio depois de Sophia foi tentar mesclar esse jeito que eu escrevo – eu escrevo muito pra mim – com essa comunicação pras pessoas se verem naquilo.

Enow: Deixa Vim foi bem calculada, mais pensada. Não foi muito escutar o beat e ir no feeling, a gente construiu um enredo pra ela, então trabalhamos desses dois jeitos.

Quem são as referências de vocês, os artistas que gostam?

Thalin e Enow: Sophie, Beyoncé, Neptunes, Black Pink.

Black Pink? K pop?

Enow: Sim, a gente é fã. O produtor delas é um gênio. É demais, a gente passa mal. (risos)

Thalin: Elas são perfeitas.

O que elas tem que vocês gostam tanto?

Thalin: É a agressividade, é tudo muito na cara.

Enow: É agressivo e muito mainstream ao mesmo tempo. Black Pink especificamente dentro do KPop é o melhor. Eles já usaram sample do Tropkillaz em uma música, elas são bem antenadas.

Na pandemia vocês gravavam através de troca de mensagens?

Thalin: Até Sophia era ou no quarto do Enow ou eu gravava no carro, no celular. Agora a gente já ta fazendo outro som, que tá muito melhor, com mais qualidade de letra, de som e de captação. O Estúdio Base literalmente tirou a nossa produção do quarto.

Estudio: Eles estão caminhando agora pra um cenário mais pop, mais mainstream, dando esse passo pra sair do underground e trazer uma coisa mais comercial.

Show da Dupla 02 / Foto: Cortesia
Show da Dupla 02 / Foto: Cortesia

Quando vocês falam mainstream, onde é esse lugar?

Thalin: Luísa Sonza.

Ela cantando com vocês?

Thalin: Também, mas é mais a imagem que ela tem hoje. Acho que masculino não tem aqui uma idealização pra gente. Quem chega mais perto acho que é o Jão e o Matuê.

Mas Emicida não é mainstream? Não pode ser uma referência?

Enow: Mais ou menos. Ele é extremamente influente e todas as pessoas importantes vão ouvir, mas não é o som mainstream que tá rolando atualmente. Acho que Matuê é mais mainstream do que o Emicida.

Thalin: Mas falando em referências, pra mim tem três: Black Pink, Pharrell e Gal Costa, uma trinca onde a gente quer hegar.

Falando de estilo e imagem, vocês já tinham pessoalmente o hábito de misturar estampa, usar peças femininas no dia a dia ou o Leonardo Alexei que trouxe?

Enow: O Alexei trouxe muita coisa.

Alexei: Um amigo meu mandou o Instagram deles e achei que tinha a ver. O processo criativo deles é muito parecido com o meu. E a gente foi se entendendo.

Enow: Uma coisa muito importante é que a gente tava fazendo uma música diferente e queria abranger essa diferença em tudo, incluindo o figurino. Essa coisa de ter algo inesperado.

Thalin: Ele montando o look é igual ao Bob Ross pintando. Tem uma paisagem linda e ele vai lá e mete um borrão preto. O figurino tá lindo, ele vai lá e mete um monte de laço. Daí eu penso, tá meio estranho isso, mas o resultado final fica lindaço.

Enow e Thalin com styling do estilista Leo Alexei / Foto: Cortesia
Enow e Thalin com styling do estilista Leo Alexei / Foto: Cortesia

Como é fora da banda a relação de vocês com a moda?

Enow: O Alexei despertou muito isso na gente. Eu sempre tive interesse, mas ele mudou a nossa visão. Eu não me visto da mesma forma depois de ter conhecido ele.

Thalin: Eu tinha várias ideias de coisas que eu queria usar, mas nunca comprava. Mas depois do Leo, hoje uso muito mais roupa da minha mãe e da minha irmã do que minha. Sempre amei figurino, mas no dia a dia eu era meio normalzão.

O que é normalzão?

Thalin: Andava com uniforme de quem gostava de rap e skate. Depois percebi que os figurinos não são só pra performance, pode ser pra vida mesmo.

Enow: Tem que experimentar. Quando você começa a usar é que você também abre a sua cabeça praquela roupa cair em você.

Alexei: Eles são muito abertos pra ideias. Essa coisa de gênero, a gente nem pensa, não passa pela cabeça algo como “tô colocando um vestido num menino”. É só uma roupa.

Thalin: O Leo adora laços e é algo que dá pra você comprar umas fitas bem baratas pra fazer. Eu comprei um monte de fita! Às vezes eu boto só uma fita e já fica com o visual muito style. Abriu meus olhos também pra essa parada de não ter mais essa visão de precisar usar joias pra ficar bonito, usar grandes marcas… Sério, faz uns anos que eu não compro uma roupa. Prefiro gastar meu dinheiro com os estúdios.

Enow: Eu não compro há muito tempo. Eu usava muito terno. Gostava de filme de mafioso coreano.

Estudio: É nítida a diferença depois que eles conheceram o Leo. Atualmente eles não vêm pro estudio mal vestidos (risos).

Thalin e Felipe Enow com figurino de Alexei / Foto: Cortesia
Thalin e Felipe Enow com figurino de Alexei / Foto: Cortesia

Essa questão do gênero na roupa, que não tem mais feminino e masculino. Vocês se identificam com esse jeito de perceber a moda? Vocês sentem que pra geração de vocês tá caindo essa barreira?

Enow: Demais. A gente veio nessa virada de mentalidade, estamos aprendendo isso. Mas o seu filho menor, ele cresceu com isso como certo. A gente ainda cresceu aprendendo masculino feminino e depois foi desconstruindo. Acredito que vai ser cada vez mais normal não ter mais essas definições.

Como foi a pandemia pra vocês?

Thalin: No começo eu não saia do quarto pra nada. Olhando pro teto literalmente, só esperando acabar. Mas como não acabava, resolvi fazer alguma coisa e fui fazer entrega de bike. No final o que me salvou foi a música. Toco bateria e piano e fiquei fazendo música loucamente. Gravei muita coisa, mas nada foi lançado, mas pelo menos foi muito produtivo.

Enow: Antes da pandemia eu tava numa vida maluca de compromisso com a escola e querendo entrar em todos os projetos possíveis.  A gente nunca começaria a Dupla 02 se não fosse a pandemia. Também fiquei malzão no quarto e comecei a fazer música num iPad antigo. Na pandemia, peguei um computador e ficava o dia mexendo no programa e fazendo música.

Agora já é outro momento e a dinâmica de vocês mudou. Estão produzindo coisas novas no momento?

Enow: Estamos com um monte de músicas novas e lançando um som já com essa cara nova. Estamos indo pra outro lugar, tá bem diferente.

Thalin: E tem vários artistas grandes que estão falando com a gente também. Tá fluindo.

Dupla 02


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