Paula Scavazzini: Descubra o trabalho e as inspirações da artista que é aposta do FFW

retrato-paula

Por Mark Cardoso

Foi em um ateliê-bunker, no subsolo de um desses predinhos do enladeirado bairro das Perdizes (São Paulo), que Paula Scavazzini passou boa parte da pandemia. Com pé direito alto, luz fria, telas e lonas por toda parte, a artista recebeu o FFW com chá quente e biscoitos. O clima era de satisfação e certa euforia comedida. Isso porque, um sábado atrás, ela havia inaugurado sua primeira individual em uma galeria de arte da Consolação/Higienópolis, em São Paulo, lotada por amigos e gente das Artes Plásticas, entre compradores e colegas de pincel.

Em meio ao isolamento, Paula se deparou com uma foto de família. O papel antigo trazia uma cena pitoresca que, posteriormente, foi apurada como sendo o registro de festejos de um casamento de libaneses, nos anos 1970. “Encontrei essa foto e fiquei alucinada, debruçada sobre ela”, lembra Paula, com brincos de um lado só do rosto e seu cabelão amarrado ao alto da cabeça, que já é sua marca visual. “Aquela foto me atraiu de uma forma inexplicável e intuitiva. As roupas, as formas, a postura de foto de casamento, que vi muito em minha casa também. Aquilo me instigou bastante”.

As personagens daquela imagem – colada até hoje em uma das pilastras do ateliê – e os objetos de decoração que se viam naquela cena foram o ponto de partida para “Estranhamente Familiar”, exposição individual da artista na galeria Projeto Vênus, de janeiro a março, a qual FFW foi conferir de perto. “Mas não eram muitos, os objetos. Então, eu comecei a criar esse cenário hipotético, por meio das minhas referências, memórias afetivas e meu próprio gosto. E aí, eu inventei os jogos que eles jogavam (gamão e xadrez) em uma tentativa de falar mais da personalidade daquelas figuras”.

Nesse meio-tempo, Paula lia Alan Paul descrever, em seu ‘A Casa de Usher’, essa moradia que, ao final, foi apontada pelo autor como algo estranhamente familiar. E nos tempos de faculdade, a artista lembra ter passado por Freud e seu conceito de estranho familiar. Foram essas referências que embalaram, conceitualmente, sua mais recente exposição.

“A exposição tem um mix de estranhos familiares. Na minha vida, esse é um conceito com o qual eu convivi muito, por causa da minha família. Os objetos do passado, hoje, são objetos estranhos, pra mim, por eu não ter mais essa proximidade toda. Foi familiar por um tempo. Além disso, tem a estranheza da imagem dessa família libanesa, que não é minha família, mas que é estranhamente familiar naquelas pessoas, naquela postura, naqueles olhares…”, enumera Paula.

uma das pinturas de paula em exposição
Uma das pinturas de paula em exposição. foto: divulgação

Um elemento muito presente nas pinturas que compõem essa exposição – além das pinceladas fortes e vigorosas e do pudor zero em coordenar cores fortes, elementos esses já identitários na obra da artista – é a textura adamascada. Questionada sobre isso, Paula conta um pouco de seu processo criativo recente: “no ápice da minha ansiedade, eu olhava pra cadeira e entrava no tecido dela, que me levava para a flor que estava na estampa. Me sentia olhando para dentro da flor e, quando eu via, parecia aquela imagem do final do jogo de Paciência, do Windows, sabe?” descreve. “Uma grande viagem psicodélica, minha, sozinha, e sem usar nada (risos). No processo da produção das obras desta exposição, eu cheguei a voltar pra casa e, em um banho, fechar os olhos e ver adamascado por toda parte. Foi aí que ele transbordou nas telas.”

Arquitetura, Artes Plásticas e Psicanálise

Hoje com 31 anos, Paula Scavazzini deixou São José dos Campos, cidade em que nasceu, aos 18, para cursar Arquitetura e Urbanismo na capital. Mas a faculdade não vingou. Aos olhos dela, Arquitetura é um curso muito artístico no começo. “É tudo muito livre. Não importava muito escala nem o que entrava em cena. Então, eu ia muito bem e estava feliz. Depois, que teve que entrar elementos como carro, pessoas e aquilo tudo se sustentar de pé, eu comecei a ficar frustrada”, relata. 

“Eu ando me guiando muito por frios na barriga. Se algo que eu estou fazendo está me dando frio na barriga, eu acredito que é isso e que está dando certo.”

Foi aí que ela cogitou fazer aquilo que queria fazer desde o começo: Artes. Mas para isso, teve que enfrentar a mãe. “Por mais que ela tenha sido uma mãe legal, sempre se preocupou muito com ‘o que você vai fazer pra dar conta da tua vida’”. Essa mãe, muito preocupada com o futuro, é alguém que viu o marido falecer aos 30 anos e teve que criar a filha sozinha. Curiosamente, Paula acredita que a Arte traz à superfície muito do nosso inconsciente: “eu acho que pintar é um jeito que eu dei de me aproximar de corpos com elementos de masculinidade. Cresci rodeada por mulheres. Nunca tive acesso a corpos masculinos, pois perdi meu pai cedo”.

Essa perda repentina foi um elemento definidor na personalidade e trajetória artística de Paula. “Eu pinto desde novinha. Aquela coisa bem clichê… mas tudo começou porque eu tinha muitos ciúmes da minha mãe. Talvez, por causa da morte do meu pai, que me deixou muito nova… e eu sou filha única. Sei que por conta desse ciúme doentio, aos 11 anos, fui parar na psicóloga. Depois de três sessões, ela recomendou que eu começasse a fazer pintura”. Poucas aulas mais tarde, ‘a menina estava curada’ e São Paulo começava a ver nascer uma artista que, hoje, já é referência em sua geração.

Artista essa que, não à toa, tem tons e nuances carregados por certo existencialismo e questionamentos sobre a vida. “Eu amo muito e odeio muito a vida. É difícil, né, hoje, estar vivo, sendo alguém muito sensível, e estar okay com as coisas da vida. É difícil estar no mundo… e a pintura e o que ela causa nas pessoas me fazem estar mais satisfeita em estar vivendo”, elabora a artista. E dispara: “sabe quando o navio está naufragando e você se agarra numa madeirinha… você tá ali, meio morrendo, mas tá vendo um pôr-do-sol bonito. Essas pinturas são isso pra mim: um pôr-do-sol bonito”.

a exposição
A exposição “Estranhamento Familiar”. foto: divulgação

Diálogo com a moda

Cercada apenas por materiais de pintura e aquela preocupação constante, de todos nós nesses tempos, quanto ao vírus e como a pandemia nos afetaria, Paula desenvolvia as obras que integram “Estranhamento Familiar”. Em meio a esse processo, uma forma de aproximar as pessoas desse processo solitário e isolado foi escolher pequenos recortes das cenas que suas telas apresentariam ao público e trabalhar esses elementos em camisetas-quadro.

Paula, então, lançou uma série exclusiva de camisetas, todas pintadas a mão, que dialogavam com as obras. No dia do vernissage, todos os amigos e colecionadores que puderam adquirir uma de suas obras-moda estavam presentes trajando as peças. Foi curioso observar essa performance sutil e despretensiosa que tomou conta da galeria pouco a pouco, conforme os convidados iam chegando.

A artista entrega ainda que um dos motivos para a “Estranhamente Familiar” surgir nesse formato foi, também, para criar uma ficção – ou melhor: uma realidade –, de modo que ela conseguisse se sentir mais feliz. “Para eu ter uma existência mais plena, ainda que ficcional. A gente sabe que uma pessoa de 30 anos, hoje, não consegue as coisas como os nossos pais. Eu não tenho a casa que eu queria, não sei se conseguirei… e mesmo que eu consiga, não sei se faz mais sentido ter uma casa tão grande, com tanta coisa”, pondera. E define a Arte como uma forma poética de apreender o mundo, as coisas e as pessoas: “pintei muitas coisas que eram objetos da minha avó, das minhas tias… de coisas que eu nem sei se chegarão até mim, um dia. E quando eu pinto, isso vira um pouco meu, entende?”

Ao olhar para a foto da família libanesa, Paula revela pensar que ainda não chegou a todos os lugares daquela casa, com as pinturas que integram a exposição. “Acho que ainda vou acabar criando os espaços mais vazios e menos acessados dessa casa, dessa família de migrantes”.

A ver…

as camisetas-obra. foto: mark cardoso
as camisetas-obra. foto: mark cardoso

copy-of-220128_venus_050-zoom2

captura-de-tela-2022-03-31-as-11-40-45


Relacionados


Veja Também

Assine a newsletter do FFW

Seja o primeiro a ter acesso a conteúdos exclusivos. Nós chegaremos ao seu email semanalmente quando tivermos algo realmente cool e relevante para dividir.

×