Um pássaro mágico chamado Tadáskía

Pintura da artista Tadáskía nas paredes da Sé Galeria / Cortesia
Pintura da artista Tadáskía nas paredes da Sé Galeria / Cortesia

Tadáskía significa “título de nobreza” e “aquela que tem um coração amigo”. É o nome de uma jovem artista carioca que é uma das promessas de sua geração. Meu encontro ela aconteceu em plena montagem de sua primeira exposição individual, que inaugura neste sábado (02.04) na Sé Galeria, em São Paulo.

Assim que entrei na galeria, fui impactada pela enorme pintura colorida (e sem esboço) que cobriu inteiramente as paredes do primeiro andar da casa modernista. Antes da entrevista, a gente passeou pelas obras e ela foi, aos poucos, me introduzindo em seu universo particular dos grupos, famílias, aparições e apresentações. A nossa conversa continuou no escritório da Sé Galeria, com pão de queijo, bolo de banana, café e água de coco.

A arte de Tadáskía é atravessada por muitos tópicos – reais, simbólicos e fantasiosos – que transmutam seu trabalho em uma expressão única. De pássaros encantados, ovnis e momentos mágicos à família, vida na periferia e questões de gênero, sua obra conta a história de uma pessoa em constante transformação.

Segundo o texto escrito pela curadora Clarissa Diniz, “a ideia de mudança é central na produção da artista. Cores, pastéis, pós, lápis, esmaltes ou pincéis têm sido aliados num desenhar que é uma pulsante e experimental coreografia de transformações que se dão no papel, na cor, na linha, na imagem, no corpo, no espaço. Tadáskía desenha para transformar e transforma desenhando”.

Ela acaba de voltar de Barcelona, sua primeira viagem internacional, onde participou da residência Homesession e foi convidada para projetos na França e em Portugal.

Leia abaixo os principais momentos da nossa conversa – com momentos sérios, de risadas e arrepios – sobre arte, família, religião e gênero sob a perspectiva de uma artista em eternos movimentos de mudança.

Tadáskia / Foto: Lydia Metral
Tadáskía / Foto: Lydia Metral

Como a arte apareceu na sua infância?

Eu devia ter uns 5 anos quando minha mãe fez um desenho de uma moça, com uma árvore, uma piscina e uma sombra. Foi o único desenho que vi da minha mãe e lembro dele até hoje. Minha tia incentivava muito a gente a pintar e deu pra gente um brinquedo de desenhar chamado Espelho Mágico. É a primeira relação com desenho que lembro. Até hoje gosto muito dessa palavra, espelho mágico.

Que outras experiências você teve que foram reafirmando seu interesse pela arte na adolescência?

Na escola pública eu cantava em apresentações e participava de festivais de poesia – escrevia poemas de amor. Depois eu fui pro CIEP Rubem Braga (Centro Integrado de Educação Pública), onde participei do projeto Rio Visto Por Nós, com grupos de alunos que gostavam de desenhar.  A gente saía pra visitar a zona sul do Rio de Janeiro que ninguém ainda conhecia, esses pontos turísticos como o Corcovado. E eu fiz um relatório poético da viagem. Também estudei desenho técnico num curso de eletrotécnica, trabalhei no MAR (Museu de Arte do Rio)  como educadora.

Como era a questão de gênero pra você nessa época?

Eu me considerava uma pessoa assexuada. Era a maneira mais fácil de fugir de qualquer pergunta. Nesse mesmo período eu era da igreja evangélica, então estava também muito conectada com Deus. Eu tinha interesse por meninos e meninas, mas havia todo esse universo do pecado, então eu tinha muito medo. Mas a igreja também me abriu muitas possibilidades em torno do canto, da dança, de me reunir com outros grupos, de formar uma família que não era a de sangue.  Era também um momento em que eu saía dessa realidade da periferia, que é muito dura. Você sai da sua casa, que não tem estrutura nenhuma, da sua vida familiar, que não tem estrutura nenhuma e que não tem perspectiva dada pelo Estado nem por ninguém, e você começa a perceber que existem perspectivas que não são visíveis, elas estão no oculto e você precisa acreditar que elas podem acontecer. Como um espelho mágico. O tempo é lento. E Deus se apresenta de muitas formas.

Como foi lidar com a igreja em um momento que descobria outras possibilidades de gênero?

No inicio eu acreditava muito em Deus, mas depois comecei a perceber que o Deus que era pregado na maior parte das vezes era um Deus muito cruel e eu quis me afastar dele durante muito tempo. O período que eu passei na igreja, de 12 a 19 anos, teve o seu lado mais duro, mas também me mostrou as muitas possibilidades de viver em grupo. Porque viver em grupo é estar num mundo com muitas marcas e acho que faço desenhos em grupos porque eles têm essas marcas de transformação. Depois que saí da igreja, fui percebendo meu gênero de outras maneiras, como uma pessoa não binária, bicha. E hoje me entendo como uma pessoa trans, uma trans feminina.

Como é sua relação hoje com a religião?

Eu comecei a transformar a figura de Deus. Hoje eu não tenho religião, mas me interesso por muitas.

“Olha o passarinho!” (com sua tia Gracilene Guarani, sua mãe Elenice Guarani, o pai Aguinaldo Morais, os primos Breno Moraes e Lucas Moraes e os amigos Aline Besouro e Lorran Dias)
“Olha o passarinho!” (com sua tia Gracilene Guarani, sua mãe Elenice
Guarani, o pai Aguinaldo Morais, os primos Breno Moraes e Lucas
Moraes e os amigos Aline Besouro e Lorran Dias)

Como você lida com essa questão dentro da sua casa? Você tem muitos embates com o seu pai?

Essa coisa de viver em grupo mostra como é a vida, que existem muitas coisas diferentes entre um pássaro encantado e outro, mas também muitas coisas parecidas. É como eu e meu pai. Tem muitas coisas drasticamente diferentes, mas o que nos aproxima é também o que podemos fazer juntos.

Mas eu nunca pedi permissão pra nada e ele foi aprendendo isso aos poucos. Eu sempre tive fé de que, mais cedo ou mais tarde, meu pai me amaria do meu jeito. Não é fácil pra ele, nem pra ninguém.  Mas eu nunca abri mão da minha vida e nem dei o direito de ninguém me violentar. Viver em grupo não é uma vida ideal, mas meus desenhos e trabalhos mostram não um mundo ideal, mas que o mundo é mágico, que tem essa passagem mágica. Você está num lugar e vai pro outro, existe essa possibilidade de alteração, a mudança é contínua.

Você passou por um longo período de mudanças na esfera pessoal e familiar e agora está num momento de transformação na vida profissional, a começar pela representação do seu trabalho pela Sé Galeria. Como é estar em em constante transição, em todos os campos?

Eu acho que eu evoco a mudança. Eu sempre desejei mudar.

Mudança dá bastante trabalho…

Dá, mas eu encaro. O mundo se apresenta. Por isso que “se apresentar” é um termo muito importante pra mim, porque as coisas se apresentam. Elas se escondem durante um tempo, mas elas também se apresentam e essa apresentação se dá de maneiras muito diferentes.

Dá um exemplo.

Por exemplo, eu estava trabalhando em Barcelona e precisava de algo para diluir minha tinta a óleo. Na casa onde eu estava tinha uma garrafa enorme de azeite – de algum jeito essa solução se apresentou e eu comecei a usar o azeite e usei ele aqui em São Paulo pra pintar a parede da galeria.

Linha Dourada / Cortesia Sé Galeria
Linha Dourada / Cortesia Sé Galeria

Mas podia ser outro artista lá, ver o azeite e ele não “se apresentar” (risos). A ideia de costurar os ovos também foi assim que aconteceu?

Meu pai sempre gostou muito de ovo e e eu via a casca sempre sendo descartada. Linha, agulha e ovos nunca faltaram em casa (risos), então um dia vi as cascas e resolvi costurar. Tinha 18 anos quando fiz pela primeira vez. Outro material que se apresentou foram as esteiras que também estão nesta exposição. O MAR estava jogando fora e eu levei pra minha casa, até que em 2019 fui participar de uma exposição do Parque Lage e eles também estavam descartando um monte de esteiras. Depois descobri pelo artista Gilson Plano que elas são de taboa e costumam ser usadas em rituais afro brasileiros pra que a pessoa morra e renasça. É uma esteira onde as pessoas fazem a passagem. Achei muito bonito esse significado e comecei a trançar as esteiras pra colocar os ovos, os desenhos, pra ser uma escultura que também tinha um sentido de guardar outras coisas.

E seu nome, de onde surgiu?

A partir de 2017 comecei a querer ser chamada no feminino. Meu nome era Maxwilliam e eu mudei para maxiwilla. Na arte as pessoas me chamavam no feminino, mas no dia a dia não e isso começou a me incomodar. O cheiro da testosterona estava me incomodando. Então iniciei o processo de acompanhamento hormonal em abril do ano passado. Veio o nome Tadaska na minha cabeça e eu mudei para Tadáskia. Pesquisei na internet e achei significados diferentes para Tadas (aquela que tem um coração amigo) e Askia (um titulo de nobreza, aquela que se alegra em Deus).

Nos meses que você passou esse ano trabalhando em Barcelona, sentiu diferença no tratamento em relação ao Brasil?

Sim. Foi a primeira vez que viajei e fiquei chocada porque lá todo mundo me chamava no feminino.

Aqui não te chamam no feminino?

No centro de São Paulo, sim, mas eu moro na periferia do Rio.  Eu vou na manicure, me chamam de “amigão”. Se eu estou mais próxima do centro, facilita porque as pessoas têm mais contato com outros grupos, outras culturas. Então muitas vezes não significa que as pessoas não te respeitam, mas que elas não têm acesso a grupos. A sociedade não faz com que as pessoas tenham experiências… Esses dias, motoristas de táxi e Uber me chamaram de “cara” e de “brother”.

Como está sendo esse momento atual? Sua primeira viagem, primeira exposição individual?

Está ótimo! Foi a minha primeira experiência fora do Brasil e amei, chorava de emoção. Sinto que é um direito que é tirado das pessoas. Viajar, conhecer o mundo é um direito que não é de todos e deveria ser. Porque faz parte da constituição do mundo no seu primórdio, que é as pessoas se deslocarem.  Mesmo eu tendo feito artes visuais na universidade, eu não conhecia esse mundo, o backstage…

E o que você está achando?

Eu acho que a gente tem que estar (no mercado) e que tem que ser distribuído pra que ele seja transformado. Se são sempre os mesmos grupos, ele não se transforma. Acho que tem uma coisa diferente entre mercado e artistas. Tem vários artistas que estão aí e não entraram no mercado. Quero citar Ana Cláudia Almeida, Aline Besouro, Diambe da Silva, Gilson Plano, Iagor Peres, Carla Santana, Tainan Cabral, Laís Amaral, Paulete Lindacelva, Millena Lízia, Aya Ibeji, Sabine Passareli, Iah Bahia, Luana Vitra, Castiel Vitorino Brasileiro, Jota Mombaça…

Você faz roupas para alguns trabalhos seus. Como é sua relação com a moda? Como ela atravessa seu trabalho?

O universo da roupa sempre existiu pra mim. Eu desenhava bonecas com estrelas nos vestidos e hoje eu faço esses vestidos para o meu trabalho de fotografia. Gosto muito de moda. Inclusive, foi a artista Äline Besourö que me apresentou o conceito de slow fashion. Acredito nessa percepção slow e também outra coisa que a Aline me dizia, do do it yourself, essa percepção punk da vida.

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Tadáskía “noite dia”

Sé Galeria

De 02.04 – 11.06

Entrada gratuita

Vila Modernista (al. Lorena, 1.257, Casa 2)

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