Inspirado por Bob Marley, Steve McQueen retrata tensões raciais na série Small Axe

Lovers Rock, da antologia de filmes Small Axe / Reprodução
Lovers Rock, da antologia de filmes Small Axe / Reprodução

Por Luiz Henrique Costa

Assistir a “Small Axe”, o mais recente trabalho de Steve McQueen nos leva a pensar em como ele reagiria ao conhecer a história de uma ilustre moradora da Praça Onze e um dos símbolos da Resistência Negra no Brasil: Tia Ciata, a pioneira que abriu as portas da sua casa no Rio de Janeiro para rodas de samba, quando o ritmo era considerado uma prática ilegal e sofreu inúmeras repressões da polícia por esse motivo

O termo Small Axe deriva originalmente de um provérbio africano muito proferido em países na região do Caribe e eternizado em canções como a de Bob Marley na até então banda de reggae que fundou em 1962, The Wailers:

“If you are the big tree / We are the small axe / Sharpened to cut you down / Ready to cut you down” (se vocês são uma grande árvore / nós somos o pequeno machado/ afiados para derrubá-la / preparados para derrubá-la).

Embora em tradução livre o título da série signifique “pequeno machado”, ele deve ser compreendido como ‘juntos somos mais fortes’ nas palavras do próprio diretor, Steve McQueen. E não em vão Small Axe é o título emblemático escolhido pelo britânico, o primeiro diretor negro a ser premiado na história do Oscar pela adaptação do livro autobiográfico de Solomon Northup, “12 Anos de Escravidão”, em que um homem negro nascido livre em Nova York é sequestrado em 1841 por mercadores de escravos e  vendido para fazendeiros nas plantações de algodão da Louisiana. Naquele ano, ainda era intenso o conflito entre os estados do Norte com uma economia baseada na indústria, e trabalhadores assalariados e os estados do Sul, latifundiários que permaneciam em defesa da escravatura.

cena de Os 9 de Mangrove
cena de Os 9 de Mangrove

Steve McQueen assina agora, com semelhante vigor e brilhantismo, essa série antológica de cinco filmes produzida originalmente pela BBC One e que está sendo exibida pela plataforma da Globoplay no Brasil. Em Small Axe, cada episódio é um filme completo, com histórias independentes e coligadas por casos reais com base nas tensões raciais vividas na região de West India, em Londres, entre os anos de 1969 e 1982.

Education

O diretor já relatou um episódio traumático em sua própria experiência escolar em que foi direcionado para turmas onde se sugeria que alunos negros deveriam seguir carreiras que envolviam trabalhos mais manuais, como encanadores, construtores ou pedreiros. “Mais tarde o novo chefe da escola admitiu que houve racismo institucional na época”.  E esse será o tema principal do quinto e último filme da antologia, Education, que promete ser um dos mais emocionantes, inspirado na própria experiência de McQueen através do pequeno Kingslay, que funciona como um alter ego do cineasta em seu difícil período escolar. Em entrevistas, o cineasta revelou publicamente sobre a sua dislexia e a dificuldade em aprender a ler.

Os demais quatro filmes já disponíveis que compõem Small Axe são intitulados: Os 9 de Mangrove, Lovers Rock, Vermelho, Branco e Azul e Alex Wheatle.

Os 9 de Mangrove

No primeiro deles, Os 9 de Mangrove, que se passa em 1968 e tem como eixo narrativo principal o caso verídico da frequente perseguição policial em torno do restaurante que deu nome ao título do filme e que tem como proprietário o carismático Shaun Parks dando vida a Frank Crichlow. Além do personagem de Shaun, o episódio se concentra em uma das líderes dos Panteras Negras, Altheia Jones, vivida pela atriz Letitia Wright.

Mangrove representa muito mais que um restaurante comum, é um espaço de proteção e acolhimento entre os imigrantes. É preciso entender que 1968 foi o ano do deplorável discurso de ódio anti-imigração feito pelo parlamentar conversador Enoch Powell, o que inflou muitos execráveis como ele a também se revelarem publicamente. A hostilidade que pairava no ar no Reino Unido desse ano dá o tom arrasador do início do filme e após um protesto organizado pela comunidade, nove manifestantes vão a julgamento em um tribunal, composto majoritariamente por homens brancos, no segundo ato do filme.

Os 9 de Mangrove / Reprodução
cena de protesto em Os 9 de Mangrove / Reprodução

Lovers Rock

Em Lovers Rock vemos um filme completamente diferente do primeiro e então fica evidente o que McQueen diz com filmes independentes. Nos anos 1980, Lovers Rock era o subgênero mais romântico do reggae e fez enorme sucesso na comunidade jamaicana no Reino Unido, onde todo mundo queria mesmo é saber de dançar no estilo scrubbing em festas improvisadas nas residências. Jovens negros não eram bem vindos em boates frequentadas por brancos, mas isso não os impedia de curtir uma boa e intensa noitada. Nesse filme, embora seja deixado de lado o tom mais político e nos faça vibrar com a erupção musical que nascia naquele momento através de um estilo importantíssimo na identidade negra britânica, é preciso entender que a tensão racial nunca adormece.

cena de Lovers Rock
cena de Lovers Rock

A paleta de cores de tons terrosos e alaranjados, tão recorrente na assinatura de McQueen segue marcante, mas em um trabalho mais festivo, com menos diálogos, nunca menos interessante. É impossível falar dos anos 80 sem destacar o trabalho do casal de protagonistas, Amarah-Jae St. Aubyn e Micheal Ward, e do figurino, que brilha em todos os exageros que a década permite no estilo assinado por Jacqueline Durran, que já foi indicada ao Oscar de melhor figurino por três vezes e levou a estatueta por Anna Karenina.

Nos quase 60 minutos ultra sensoriais de Lovers Rock, podemos sentir o aroma do curry goat, o prato jamaicano servido em festas e celebrações ao som de Silly Games em uma sequência longa e apoteótica que você vai querer assistir em looping.

Vermelho, branco e Azul

No terceiro filme retornamos a um episódio mais dramático ao acompanhar a história de Leroy Logan, interpretado pelo excelente John Boyega (aka Finn, da trilogia de Star Wars) e que está tão convincente no papel que acaba de ganhar o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante em minissérie. Logan é um oficial da polícia prestes a se tornar pai e o único profissional negro atuando em sua equipe.

Em meio ao sonho de se tornar um agente da lei, Leroy vive às voltas em conflitos, especialmente com o pai, que já sofreu agressão policial e se opõe ao desejo do filho. Temos aqui um trabalho com uma atuação mais introspectiva do protagonista e o roteiro assinado por Courttia Newland narra bem o seu crescimento e as angústias que são vividas por um homem com diversos ideais, mas também com questionamentos e anseios próprios da natureza humana.

Alex Wheatle

Alex Wheatle / Reprodução
Alex Wheatle / Reprodução

No penúltimo filme, também mais compacto como em Lovers Rock, conhecemos Alex Wheatle, interpretado pelo ator Sheyi Cole, em uma auto jornada que se passa desde o abandono pelos pais biológicos, a criação conturbada em um lar infantil e a adoção por uma mulher perversa e descontrolada.

Novamente inspirado em um personagem real, Wheatle é um conhecido escritor premiado que foi preso nas manifestações de Brixton, em 1981. Enquanto cumpria a pena, seu companheiro de cela o incentivou a mergulhar na leitura e escrita, despertando o que o impulsionaria a escrever obras importantíssimas como East of Acre Motim (infelizmente ainda não traduzido e publicado em português).

Á época, a então primeira ministra Margaret Tatcher, em um dos seus inúmeros discursos equivocados negou que as manifestações em Brixton pudessem ter a ver com as altíssimas taxas de desemprego, especialmente entre os jovens negros no Reino Unido.

Small Axe é um conjunto de belos filmes, com uma merecida indicação ao Globo de Ouro, em que Steve McQueen com todo seu talento e delicadeza usuais, dedicou o conjunto da obra a George Floyd, assassinado pela polícia americana no ano passado.

“Dedico esses filmes a George Floyd e a todos os outros negros que foram assassinados, vistos ou invisíveis, por ser quem eles são, nos EUA, Reino Unido e em outros lugares. Se você é a grande árvore, nós somos o pequeno machado. As vidas negras importam”.


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