The Handmaid’s Tale: tudo o que você precisa saber para assistir à quarta temporada

A produção já é uma das séries distópicas mais importantes de todos os tempos

June, a personagem de Elizabeth Moss em The Handmaid's Tale. foto: divulgação
June, a personagem de Elizabeth Moss em The Handmaid's Tale. foto: divulgação

Em um dos flashbacks de The Handmaid´s Tale, June, a personagem de Elizabeth Moss pede um café após caminhar com uma amiga e quando decide pagar a conta tem seu cartão recusado. O atendente é hostil e usa de palavras de ódio contras as duas. Assustadas, elas abandonam o local com uma sensação da eminência do perigo, como uma sombra que se aproxima e está lentamente tomando conta do país em que elas vivem.

A escalada de pânico na série, que chega à sua quarta temporada, é crescente, mas nunca horizontal, e por isso esses fragmentos de memórias de June que vão se revelando pouco a pouco são importantíssimos para que o público entenda como, através de pequenas violações dia após dia, o mundo vai sendo engolido por um bueiro: uma ditadura teocrática e ultraviolenta que se instaura pautada na queda nos índices de fertilidade e que expõe pensamentos hediondos.  O discurso do governo é claro em alimentar que a culpa pela crise fértil é resultado de pautas modernas da sociedade, como naturalizar que homossexuais tenham o mesmos direitos civis ou de que as mulheres e se dediquem as suas carreiras.

As coisas pioram. Repressões violentas de manifestações pacíficas contra o governo, demissões em massa de mulheres nos seus postos de trabalho ou insinuações de uma inspetora na escola da filha dizendo que a febre que a criança apresenta um dia é culpa e responsabilidade de uma mãe omissa, que trabalha fora. É difícil afirmar qual o trecho da série baseada na obra distópica de 1985 da escritora Margart Atwood é o soco mais forte.

Quando June é raptada, separada do marido e da filha e perde o direito de usar a própria identidade. Ela é uma mulher fértil e se torna uma Aia – mulheres obrigadas a gestar bebês dos poderosos em um ritual monstruoso.  Ela então passa a ser Offred, uma propriedade de Fred, um dos generais do novo país dominado pelo regime. Embora não fique explícito, o regime de Gilleard domina parte significativa dos Estados Unidos e a única esperança é uma fuga para o Canadá.

Boa parte da carga emocional da série se deve a atuação da sua protagonista, a fabulosa Elizabeth Moss, se reafirmando como uma das melhores atrizes dessa geração. Ela precisa se conter o tempo todo nas expressões, já que é impedida de verbalizar o que sente. Outro ponto crucial no desenvolvimento da narrativa é a fotografia amarelada e com um filtro sombrio. Gilleard é sempre nublada, fria com uma trilha de horror enervante.

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os figurinos da serie: A esposa, a Aias e a Tia.

O figurino de Ane Crabtree é uma transposição precisa das descrições do livro e lembram em muitos aspectos trajes de uma comunidade estacionada em século XVII. As cores funcionam como pilares determinantes para a trama:

– As Aias usam vermelho, uma referência a cor da luxuria, do pecado e à personagem bíblica de Maria Madalena. Elas são obrigadas a andar em duplas nas raras atividades que podem executar, uma vigiando a outra sob o olhar d´Ele, trajando viseiras brancas que as impedem se desviar os olhares do caminho. O contraste das roupas das Aias, seja nas ruas nubladas ou no mercado iluminado são é pensando para gritar.

– As Tias, as conservadoras e cruéis disciplinadoras de Aias, consideradas moralmente superiores no sistema de castas, usam um tom de marrom desbotado.

– As Esposas, inférteis usam azul como um símbolo de pureza, e não podem ser maculadas. Elas representam a santidade de um lar casto, as cuidadoras dos bebês.

– As Marthas, cozinheiras e governantas das casas – que não podem gerar filhos como as Aias, usam um tom de verde que as fazem quase invisíveis. Invisibilidade essa que se torna uma aliada importante para as Marthas no decorrer da trama.

– Já os Homens usam preto.

As regras ortodoxas de Gilleard não permitem espaço para qualquer margem de individualidade ou de vaidade, tal como eram os trajes da Nova Inglaterra quando os primeiros colonos se firmaram por lá. Nada que seja opulento é permitido, as mulheres não usam joias nem maquiagens e os cabelos são reduzidos a coques presos na altura da nuca.

A série chega à sua quarta temporada ainda mais forte e relevante do que seu início perturbador. The Handmaid´s Tale é uma obra que pega na ferida viva da supressão de direitos, do ódio, do anti-feminismo. Um fantasma que parecia viver nos escombros no passado, mas, que volta e meia se revela presente na sociedade. Defender a democracia e a liberdade individual em pleno século XXI, onde todes deveriam ter o direito à liberdade em relação às escolhas e sobre o próprio corpo parece algo absurdo, e é assustador a necessidade de lutar contra o óbvio ainda se fazer necessária. Não existe espaço e não devemos jamais nos isentar de discussões políticas. Não se posicionar é no fundo naturalizar absurdos e um modo de ser conivente com a barbárie. Afinal, viver é sim um ato político.

Os episódios estão disponíveis semanalmente através da plataforma Paramount+. Já os mais ansiosos, que preferem maratonar de uma só vez todos os episódios, terão que aguardar o final da série no próximo mês.


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