Um dos favoritos ao Oscar, "Druk - Mais Uma Rodada" é sobre prazer, melancolia e amor à vida

Mads Mikkelsen em cena de Druk. foto: divulgação
Mads Mikkelsen em cena de Druk. foto: divulgação

Por Luiz Henrique Costa

Se existe uma categoria que merece atenção especial no Oscar é a de Melhor filme em língua estrangeira. Basta lembrarmos no último ano do sucesso estrondoso de Parasita, filme sul-coreano de Bong Joon Ho, que quebrou todos os paradigmas ao ser indicado – e vencer – também na categoria principal, concorrendo com pelo menos dois outros trabalhos excepcionais: Dor e Gloria do Almodóvar e Honeyland, o documentário da Macedônia que é de uma delicadeza e assinatura ímpares. São trabalhos tão particulares de uma cultura que seria impossível captá-los em qualquer outro canto do mundo. 

E agora em 2021 temos o lançamento no Brasil de Druk: Mais Uma Rodada, filme dinamarquês despontando como o favorito na mesma categoria dos mencionados acima e que trata de um tema, no mínimo, muito espinhoso. Dirigido por Thomas Vinterberg, Druk tem como ponto de partida a teoria do psiquiatra norueguês Finnn Skarderud, de que o ser humano nasce com uma espécie de déficit natural de álcool na corrente sanguínea e essa falha só é corrigida consumindo algumas doses diárias de bebida. A qualquer hora e ocasião, mesmo no ambiente de trabalho.

O cinema dinamarquês é super premiado não apenas pelo estilo mais naturalista e de vanguarda e por contar com nomes muito respeitados como o próprio Vinterberg ou do colega mais famoso e polêmico, Lars Von Trier, ambos inventores do Manifesto Dogma 95, mas também pelo estilo de produção mais horizontal, de produção colaborativa, em que o diretor não centraliza todas as decisões do filme, mas ouve e compartilha de opiniões de membros da equipe. Soma-se o apoio do Governo dinamarquês que acredita e investe na indústria cinematográfica através de uma linha de financiamento muito importante para as obras, o Danish Film Agreement

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Em Druk a controversa teoria defendida pelo psiquiatra norueguês serve de combustível para que quatro professores de uma escola comum de Copenhagen a utilizem como meio para resolver suas questões internas, sociais e frustrações. Eles decidem testar a sua eficácia consumindo bebida, qualquer uma, todos os dias durante a semana garantindo uma taxa constante de 0,05% de álcool circulando no organismo. São personagens de meia idade paralisados diante da rotina e dos rumos que a vida de cada um tomou. Qualquer garrafa de vodca escondida no fundo da bolsa funciona como uma daquelas longas esteiras de aeroporto em que você fica parado e sendo guiado ao mesmo tempo.  Não à toa e no auge do auto experimento, um deles, o professor de história interpretado pelo ator Mads Mikkelsen, se revela entusiasta do estilo de vida do ex-primeiro ministro da Inglaterra, Winston Churchill, que se gabava abertamente de beber uma taça de vinho logo no café da manhã e nunca ter fora de uma mesa de refeição uma garrafa do champagne-ostentação Pol Roger. 

É essencial uma pausa importante para reflexão nesse texto e lembrar que, embora o diretor e o roteirista nunca apontem o dedo ou demonstrem qualquer julgamento moral por quaisquer atitudes dos personagens eles também não as celebram. O alcoolismo é uma doença grave, reconhecida pelo Código Internacional de Doenças e a única possibilidade de sucesso no tratamento é a manutenção da abstinência. Diversos relatos podem ser ouvidos de dependentes químicos sobre a dificuldade em se manter abstinentes no tratamento, sobretudo pela oferta sempre farta e fácil de bebida. Ou em um ano de isolamento social números alarmantes apontam para um consumo de álcool cada vez mais excessivo para “esquecer” a realidade atual em que vivemos trancados do nosso próprio convívio à espera de tempos mais otimistas. 

Outro ponto que nunca deve ser ignorado: o contexto social em que vivem os personagens. Estamos falando de um filme produzido na capital da Dinamarca, um dos países com melhor qualidade de vida do mundo, e pesquisas comprovam que fatores como desemprego, ausência de lazer e de perspectiva podem ser definitivos para lançar um número cada vez maior de pessoas, sobretudo os jovens em países subdesenvolvidos, a se lançarem no precipício do excesso de álcool. 

É difícil não pensar em tantas variáveis em um contexto mais global e por isso Druk é um filme tão complexo. O que move alguém a beber muito ou não beber nada? Ou o que faz alguém saber a hora de parar e não perder o controle? Existe de fato esse controle, um campo seguro? Em uma das cenas mais interessantes do longa um dos personagens menciona o pianista Klaus Heerfordt, que segundo ele só tocava no ponto exato em que não estava nem bêbado, nem sóbrio. 

É nesse equilíbrio confuso, que os desliga da rotina e ao mesmo tempo os mantém com uma falsa sensação de controle sobre ela que os personagens buscam se esconder. E se o enredo agridoce não diretamente deixa uma mensagem, fica a certeza de que ninguém precisa sofrer sozinho e buscar por ajuda profissional não é apenas necessário, mas vital para superar certas dores. No período de filmagens, Thomas Vinterberg, que concorre também na categoria de Melhor Diretor no Oscar, perdeu a filha de 19 anos em um acidente de carro fatal. Vinterberg seguiu com o trabalho até o fim e fica perceptível que filme vai se fechando de forma melancólica. 

Para estômagos fortes, mas sem dúvida um dos trabalhos mais interessantes do ano. 


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