30.10.2015 / Cultura / por

Desconstruindo muros artificiais: os projetos musicais que estimulam a pluralidade

©Apolinário
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Por Apolinário, especial para o FFW

Para muitas pessoas, os termos “gênero” e “sexo” são empregados alternadamente, como sinônimos. Mas, no mundo real, esse tipo de classificação vai gradativamente deteriorando. A definição biológica de sexo inclui uma complexidade raramente questionada. Considerados homem ou mulher na infância, nossa identidade de gênero acaba sendo motivo de pouca, ou nenhuma, dissonância. No entanto, sexo biológico e gênero são diferentes; gênero não está intrínseca nem exclusivamente ligado à anatomia física.

Até a década de 80 sobrevivia com força a dualidade entre sexo e gênero, sendo o primeiro para a natureza e o segundo, para cultura. Joan Scott, historiadora e militante do movimento feminista, foi uma das personalidades que mais abalou essa concepção, trazendo novas perspectivas para os estudos de gênero, como em seu artigo “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, publicado originalmente em 1986. Nele, Scott inicia a conversa chamando atenção para o que ela considera “usos descritivos de gênero”, quando apenas se olham para questões envolvendo mulheres e homens, sem arriscar-se a ir muito além. Juntamente a essa nova percepção de gênero e sexo, o mundo dava alguns passos em direção à não-binariedade com a androginia.

Androginia refere-se a dois conceitos base: a mistura de características femininas e masculinas em um único ser simultaneamente ou uma forma de descrever algo que não é nem masculino nem feminino, como a ambiguidade de gênero de Grace Jones, Boy George, David Bowie e Patti Smith – que transpunham o masculino e feminino em um aspecto de convergência pulverizada.

Fluidez de gênero e não-binariedade são – conceitualmente – distintos à androginia, pois a fluidez de gênero não se limita a discutir na perspectiva estilística. Para além da androginia, fluidez de gênero significa mais que homens de vestido e mulheres de blazer.

Enquanto muitos designers, ao longo da história da moda, flertam com a ideia de androginia, poucos outros como Rad Hourani – estilista nascido na Jordânia e radicado no Canadá, criador da marca homônima com enfoque em uma moda sem gênero – empurram os limites da não-binariedade na indústria da moda, borrando a linha entre homem e mulher, em construções arquitetônicas traduzidas em uma alfaiataria streetwear. Sua visão vanguardista lhe rendeu uma posição na semana de Alta-Costura em Paris, tornando-se o primeiro e único estilista “neutral-gender” a desfilar no evento.

Pela necessidade, Hourani começou a projetar suas primeiras peças aos 25 anos de idade. Um mercado com peças femininas muito justas e a confeçção masculina distanciada em forma e tecnologia têxtil foram o impulso para o desafio que Rad assumiria: vestir homens e mulheres sem distinção. Mas Rad não está solitário nesse novo recorte de moda, que ainda conta com algumas marcas como Telfar, 69 e até a gigante Selfrigdes. A loja de departamentos em Londres criou uma coleção completamente voltada para o mercado não-binário, chamada Agender – apresenta Hari Nef (ícone do transgênero na internet) em sua campanha, com faixa exclusiva criada por Devonté Hynes e Neneh Cherry, “He She Me”.

Gradativamente, a moda abraça essas novas formas de expressão de gênero nos castings de desfiles e campanhas de grandes marcas. Hari Nefi, atriz, escritora, modelo e artista performática que introduziu uma nova semântica analítica sobre as questões de gênero através de sua conta no Tumblr, onde foi descoberta, já desfilou para marcas como Hood By Air.

Andreja Pejic, começou sua carreira como Andrej Pejic, modelo andrógino que estrelou inúmeras campanhas masculinas e femininas, e retornou às passarelas como trans-mulher no desfile de verão em 2014 de Giles Deacon. Lea T, bombshell brasileira, ganhou o primeiro lugar como uma supermodelo e destaque em 2010, quando se tornou a musa de Riccardo Tisci, da Givenchy. Ela apareceu em desfiles de Alta-Costura e campanhas publicitárias, e desde então tem sido destaque em vários editoriais para publicações como “Vogue”, “Interview” e “Love”. Mas a lista de novos nomes no mercado é mais extensa do que imaginamos e inclui ainda Carmen Carrera (ex-drag queen e atualmente trans-mulher, participante do “Rupauls Drag Race”), Isis Knight e Ines Rau.

Num mundo construído sobre a diferença e a desigualdade, em que um lado desses pares binários – homem/ mulher, capital/ trabalho, desenvolvimento/ subdesenvolvimento, hétero/ gay – tem primazia sobre o outro, a identidade de gênero fluida é absolutamente uma forma de pluralizar as alternativas, desconstruindo os muros artificiais da exclusão e levando o 1+1 a resultados além do 2.

Shamir

Idade: 20 anos

Origem: Las Vegas, Estados Unidos

Shamir Bailey desde muito cedo mostrou seu interesse pela música. Aos nove anos ganhou seu primeiro violão, que o acompanhou por toda infância em Nevada, Estados Unidos.

Durante o colegial, em uma tentativa despretensiosa, Shamir apresentou algumas faixas para Nick Sylvester, representante do selo Godmode, no Brooklyn. No dia seguinte, pela manhã, o jovem foi surpreendido com o convite para conhecer a gravadora em Nova York. “Estava apavorado. Na minha cabeça passava apenas: ‘E se ele não aparecer’ ou ‘e se ele for um assassino?’”, diz Shamir, em tom cômico.

Foi questão de tempo para seus singles chegarem aos ouvidos de veículos como o Pitchork, considerando-o a “aposta do ano”. A mistura do tom de um contra tenor à la Prince e a sensibilidade rítmica de um Frankie Knuckles fazem o diferencial do jovem cantor e compositor, na cena dance music atualmente.

Carismático como uma boa estrela pop jovem que é, explica claramente a sua identidade de gênero no Twitter: “Sem gênero, sem sexualidade, e sem porr* nenhuma com isso”.

Miley Cyrus

Idade: 22 anos

Origem: Las Vegas, Estados Unidos

Miley, desviando do caminho “padronizado” das celebridades mirins Disney, tornou-se um dos nomes mais representativos – no circuito pop mundial – na luta pela visibilidade e discussão de identidade de gênero na atualidade. Politicamente engajada e com a missão de tornar o mundo mais tolerante às identidades de gênero, Miley criou a fundação de caridade “The Happy Hippie Foundation”, uma organização sem fins lucrativos dedicada ao auxilio de homossexuais, bissexuais, transexuais e os jovens não binários sem-teto.

Em um projeto recente com o Instagram, a cantora criou a hashtag #Instapride onde postava retratos de pessoas com diferentes identidades de gênero para promover a tolerância.  “Eu não quero ser menino,… na realidade, quero ser coisa nenhuma. Não me relaciono com as definições de menino e/ou menina, que as pessoas estão habituadas, e, quero que as pessoas entendam que ser uma garota não é o que me importuna, mas a caixa na qual querem me colocar, isso me deixa com raiva.”, diz Miley em entrevista a Elle.

Antony Hegarty

Idade: 43 anos

Origem: Chichester, Reino Unido

Antony Hegarty é um cantor, compositor e artista visual, mais conhecido pelo seu trabalho como líder da banda Antony and the Johnsons. Antony nasceu em Chichester, Inglaterra, em 1971. No início dos anos 90 se mudou para Manhattan para estudar na Universidade de Nova York, onde fundou o coletivo de arte performance Blacklips. Entrando em uma carreira musical, começou a se apresentar com um grupo de músicos em Nova York como Antony and the Johnsons. Seu primeiro álbum foi lançado em 2000. O segundo, “I Am a Bird Now” (2005), foi um sucesso comercial e de crítica, e venceu o Mercury Music Prize.

Durante a puberdade sua identidade de gênero ambígua estava mais definida: “Comecei a usar mais maquiagem. Essa é a pura verdade, provavelmente aos 12, 13 anos”, diz em entrevista ao “Guardian”.

Angel Haze

Idade: 23 anos

Origem: Michigan, Estados Unidos

Angel Haze é pansexual. A sua orientação de gênero é algo incomum no mundo do rap, o que significa que as experiências que auxiliam na construção de suas letras não são “vivências” tipicamente encontradas no gênero. Angel Haze fala sobre muitos temas que artistas de sucesso tendem a evitar, por medo de seu aspecto controverso.

“O amor não têm limites. Se você pode me fazer sentir, se você pode me fazer rir – e isso é bem difícil -, então eu posso ficar com você. Não me importo se você tem uma vagina ou se é hermafrodita, nada disso têm relação com o que posso sentir por você”, diz sobre seus relacionamentos.

Genesis P-Orridge

Idade: 43 anos

Origem: Sussex, Reino Unido

Genesis Breyer P-Orridge é um cantor, compositor, músico, poeta, artista performático e ocultista britânico. Fundador do coletivo artístico Coum Transmissions, P-Orridge acabou conhecido internacionalmente a partir da sua banda Throbbing Gristle, pioneiros do industrial. Depois de casar com Lady Jaye Breyer P-Orridge em 1993, Genesis e Lady Jaye começaram o “Pandrogeny Project“, – onde ambos eram submetidos a inúmeras cirurgias plásticas, para se tornarem cada vez mais iguais, quebrando as barreiras entre gênero, tornando-se Breyer P-Orridge – uma entidade descrita como a “amálgama” de seus dois eus. O projeto continua apenas com Genesis Breyer P-Orridge, após a morte de sua esposa em 2007.

“Será que estamos realmente aqui? Por que estamos realmente aqui? Podemos trocar um dia? Se pensarmos em nós mesmos como um organismo enorme, gostaríamos de enviar nosso ‘guia’ para onde eles são necessários para curar as nossas feridas. Para nós, esse é o melhor conceito de um futuro – fazer com que cada conceito de vida material seja sustentável e inspirador o máximo possível”,  diz Genesis, sobre sua exposição “Life as a Cheap Suitcase (Pandrogyny and a Search for a Unified Identity)”, um retrato do processo criativo e mutacional de “Pandrogeny Project”, na Summerhall Gallery.

Sateen

Origem: Nova York, Estados Unidos

Heterosexuais, casados e um duo musical, conhecidos pela personalidade e vida noturna em Nova York; esses são Exquisite Sateen e Miss Queen Sateen.

Como uma família, Sateen consiste em uma vocalista fashionista e um marido dragqueen, produtor da dupla e guitarrista na banda. Fascinados pela estética de John Waters e o reality show fenômeno “Rupal’s Drag Race”, a dupla começou suas performances inspiradas pela lisergia dance-pop de “Groove is in the Heart” de seus conterrâneos Dee-lite. “Estávamos obcecados por John Waters e Rupaul e de lá para cá, naturalmente, floresceram as drags requintadas que você vê hoje”, diz Exquisite, em entrevista exclusiva ao FFW, que você confere abaixo:

De onde surgiu a ideia de criar a “Sateen”?

Nós somos, de fato, um casal. Na verdade, estamos casados há um ano. Tudo começou como uma colaboração musical, que tornou-se um relacionamento e o Sateen veio à existência.

Heterossexuais em Drag, quais as expectativas do projeto?

Sateen está atualizando e incorporando nossas fantasias, expondo claramente que você pode ser quem quiser ser, pode transformar-se no que desejar, somos livres. Experimente, é muito estimulante.

E na moda, quais as suas marcas favoritas?

Nós somos completamente “LABEL WHORES”, amamos Dior, Dolce & Gabbana, Gaultier, Missoni e Moschino. A maioria das nossas roupas são de marcas italianas, mas também temos muitas peças de segunda mão, presentes e achados de brechós.

Sobre o futuro, quais os próximos passos de Sateen?

Estamos trabalhando em um novo material. Nosso último trabalho foi em colaboração com o diretor Marco Ovando em “Take my Picture”, vídeo gravado em VHS durante uma Susanne Bartsch (uma das maiores festas LGBT em NY) com um belo elenco de personagens de nosso mundo. Além disso, o vídeoclipe de “Take a Look” sairá ainda este ano.

O Brasil encontra-se em uma caminho de popularização do drag e o movimento “neutral-gender” está sendo escrito gradativamente. Qual mensagem Sateen, gostaria de enviar para todos nós?

MENINXS, CONTINUEM! O mundo pode ser duro para aqueles que se distanciam das normatividades. Amem-se, o amor que você tem por si mesmo será o guia através de qualquer situação, boa ou ruim. E claro, temos a esperança de ver homens heterossexuais “Sateenizados” (acetinados) e inspira-los a compreender mais sobre identidade de gênero e criar uma mente mais compreensiva e aberta às diferença, pois em primeiro lugar, Sateen é sobre amor !

 

+ Quem é a vanguarda musical que quer romper com a superexposição da era Kardashian

Apolinário, artista plástico e pesquisador, aprendeu a maior parte de seus “skills” na Box1824, onde trabalhou. Ele existe em todos os espaços do mundo online e offline – mais do que humano, ele é um vírus.


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