22.06.2017 / Cultura / por

Experimentando novos formatos, Hick Duarte se aprofunda na temática da juventude na mostra RENTE

©Cortesia Hick Duarte
©Cortesia Hick Duarte

Por Luísa Graça

Já faz algum tempo que a juventude aparece como tema recorrente no trabalho do fotógrafo Hick Duarte. Em sua terceira exposição individual, que entra em cartaz hoje (22.06) no Epicentro, em São Paulo, ele ainda explora essa temática de maneira generosa e um tanto crua como de costume, mas com uma abordagem mais intimista, retratando 9 jovens de diferentes regiões da cidade de São Paulo. Rente busca expor o universo pessoal e particular de cada um desses meninos, de 16 a 20 anos de idade, revelando seus códigos e personalidades através da linguagem visual. O fotógrafo registra seus personagens meio a elementos e situações reais e locais, onde eles vivem, e também em imagens criadas com maior controle num shooting em um terraço de um prédio no bairro da República.

É também uma série em que Hick, colaborador assíduo do FFW e de marcas como Cotton Project e Adidas, rendeu-se à inquietação de experimentar novos formatos, captando imagens em analógico e intervindo na edição ou impressão das imagens. Um curta-metragem de 8 minutos rodado em VHS também acompanha as fotografias reforçando a ideia de localidade que permeia o trabalho. “O que eu mais gosto a respeito do VHS é a maneira como o formato humaniza a imagem. Por ser um sistema doméstico de captação, as pessoas associam esse tipo de imagem a algo mais emocional e nostálgico, mais próximo”, explica ele em entrevista ao FFW. Leia mais a seguir.

Por que lhe pareceu interessante se aprofundar nesse tema? 

Eu sempre fui interessado por fotografia documental. Me formei em Jornalismo e meu primeiro contato com foto acabou acontecendo nesse contexto – de pesquisar, cobrir e ilustrar situações reais. Acho que isso acabou guiando decisivamente o meu trabalho, principalmente no âmbito autoral. As minhas duas exposições anteriores [Youth e Old Souls] têm raízes documentais e foi muito natural que isso rolasse com esta também. A diferença é que desta vez decidi não olhar para os arquivos e criar algo do zero. Além disso, tenho pensado muito sobre o tempo que se leva para se alcançar uma boa imagem, uma foto que tenha força e mensagem, com maior teor emocional, algo com que as pessoas se conectem. A questão é que isso é muito subjetivo e o ritmo do mercado hoje te orienta a ir na direção contrária.

Como você encontrou os nove jovens, personagens dessas fotos?

Eu já tinha uma forte relação com alguns, conhecia-os há algum tempo e isso colaborou fortemente para chegar a momentos mais intimistas na construção das imagens. Outros são amigos de amigos, que eu acabava encontrando aleatoriamente andando de skate, dando rolês pelo centro, festas de conhecidos ou em diárias de trabalho para outros projetos que de alguma forma se relacionavam com esse tema. Outros descobri pelo Instagram.

©Cortesia Hick Duarte
©Cortesia Hick Duarte

Sendo eles de partes diferentes da cidade, você notou influência do entorno no comportamento e visual de cada um? De que maneira isso informou suas fotos?

Desde o início, quando pensei pela primeira vez nessa série, eu não tinha a intenção de apresentar um retrato geral da juventude de São Paulo. A ideia na verdade era fazer um recorte desse tema a partir de uma perspectiva pessoal que me possibilitasse criar imagens com uma harmonia entre o meu interesse estético e o documental. Mesmo fazendo esse recorte, sempre pensei que seria muito mais interessante e desafiador olhar pra fora do lugar onde estou em São Paulo. Por isso, além do centro, eu também fotografei nas regiões de Guaianazes, Vila Irmãos Arnoni e Ferraz de Vasconcelos. A comunidade de onde eles vêm influencia diretamente no comportamento, na leitura que fazem da cidade e, fator decisivo para as fotos, nas referências e noções de estilo pessoal.

Qual a importância da moda nesse contexto?

A moda tem um papel muito secundário nessa série. Talvez seja muito mais sobre comportamento e experimentação pessoal do que necessariamente sobre moda. Acho que ela é uma expressão presente e que diz muito sobre cada um dos meninos, mas não foi um fator decisivo na escolha dos personagens.

Qual é a sua percepção da cultura jovem de São Paulo hoje?

A cada dia que passa descubro que ela é muito mais plural do que eu sempre imaginei. O que mais me desperta a curiosidade hoje é a capacidade de São Paulo em abrigar subculturas, a resistência de pequenos nichos artísticos e culturais, uma característica das principais metrópoles do mundo que acredito ter bastante força aqui. Me interessa bastante também a forma como a juventude na periferia cria e reinventa seus próprios códigos visuais, talvez sejam algumas das nossas expressões de estilo mais originais numa perspectiva global.texto_davi_26x40

O que tanto te atrai à ideia de juventude?

A beleza e efemeridade típicas de um período de transição, o senso de urgência, a busca orgânica por uma identidade, a ambição condicionada pela inocência, a pureza da intuição, a necessidade da união por afinidades estéticas e comportamentais específicas, a relação com o underground, a real despretensão, o momento de descoberta do próprio corpo, as estranhezas e desproporção física.

Algo te surpreendeu durante o processo de realização de Rente?

Preparar uma exposição é um processo de aprendizado muito grande. Tecnicamente, acho que consegui avançar bastante em como trabalho hoje com fotografia analógica. Percebi que digitalizar as próprias imagens faz uma diferença massiva no resultado final, principalmente em relação a textura e cor.

Tiveram também as lições em torno do tempo, da paciência na hora de construir uma imagem, do caminho invisível que você percorre até alcançar uma relação de real cumplicidade e transparência com o fotografado. Acho que isso é o mais importante em projetos autorais: colocar em prática algumas questões que você já vem matutando há um tempo, mas que não tem espaço para testar ou confirmar num contexto comercial.

RENTE, por Hick Duarte
De 22 de junho a 2 de julho, das 12h às 19h, no Epicentro
Rua da Consolação, 3423, Jardins – São Paulo
Apresentado FLAGCX e Sometimes Always
Curadoria e expografia: Augusto Mariotti e Gabriel Finotti
Cenografia: Estúdio SA
Trilha vídeo: Marcelo Gerab

 


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