05.04.2016 / Cultura / por

Galeria Emma Thomas completa 10 anos como símbolo de resistência no cenário artístico

A fachada da galeria Emma Thomas nos Jardins, em São Paulo ©Cortesia
A fachada da galeria Emma Thomas nos Jardins, em São Paulo ©Cortesia

A galeria Emma Thomas completa 10 anos e é um símbolo de resistência no mercado da arte. Não é fácil sobreviver levando nas costas uma galeria que descobre e forma novos talentos, que pensa a arte de forma democrática, como um grande ponto de encontro e de cooperação. A galeria foi fundada em 2006 por Juliana Freire e Flaviana Bernardo, que faziam trabalhos paralelos para bancar um espaço experimental e focado em arte jovem. Monica Martins entrou na sociedade em 2012. Nesse tempo todo, mais de 200 artistas e projetos passaram por lá e hoje elas têm um portfolio de 14 artistas fixos, como o ilustrador Marcelo Cipis, Lucas Simões e Rosana Ricalde, que dão à Emma Thomas vários olhares sobre a arte através de diferentes perspectivas, idades e experiências.

Mesmo buscando novos formatos e construir uma cena jovem de nível alto , as sócias entendem também que esta área tem códigos que devem ser seguidos para que elas participem do mercado, como, por exemplo, a participação em feiras. A Emma Thomas estará presente na sp-arte, que vai de 6 a 10 de abril no prédio da Bienal.

Na entrevista com Juliana Freire, conheça abaixo um pouco mais da fascinante história da Emma Thomas, feita de sonhos construídos, desfeitos, reconstruídos, sempre com os olhos abertos para o novo, o errante e o coletivo.

Como foi o começo da galeria?

A galeria começou em 2006 a partir da paixão por arte contemporânea e a intenção de fomentar e democratizar o acesso a este meio. Também de viagens a cidades onde a cena artística flexibilizava e experimentava novos formatos para o espaço expositivo comercial e, finalmente, da leitura de “No Interior do Cubo Branco”, que reúne os quatro ensaios de Brian O’Doherty publicados na revista Art Forum em 70 e 80.

No início dos 2000 ainda não era exigido que um profissional fosse tão especializado, então éramos estilistas, artistas, não existia ainda uma cena comercial jovem estabelecida em São Paulo e sempre que frequentávamos o circuito, sentíamos um distanciamento dos espaços tradicionais com o novo público que se formava. Era um mundo sem telefones celulares e pré-revolução da comunicação digital, portanto era necessário, natural e urgente a criação de espaços mais transversais e cooperativos, para dar vasão à uma pequena parte desta enorme produção nacional que não encontrava seus pares, seus pontos de contato e continuidade. 

 Por quantas mudanças vocês já passaram nesses 10 anos?

A primeira fase foi a realização do projeto dos sonhos, a gente funcionou durante três anos com total liberdade, trabalhávamos como estilistas para manter este espaço experimental focado em arte jovem e apresentamos mais de 250 nomes e projetos. Essa espécie de laboratório poderia ser fomentado pela venda das obras, mas na prática, era financiado com outros trabalhos que fazíamos paralelamente. Não tínhamos o know how de galeristas, ao mesmo tempo o projeto não conseguia apoio de leis de incentivo devido à nossa razão social e aí entramos dentro de um paradoxo tão irônico quanto o nome que criamos pra galeria. 

A segunda fase foi fazer escolhas: nos manter à margem ou crescer? Decidimos assumir a identidade da Sra. Thomas e nos tornar uma galeria que atua dentro de um raio maior, representando uma cena nacional. Este passo foi dado com a ajuda de muitos amigos, principalmente Adriano Casanova, que nos apresentou o projeto do galpão que a Galeria Baró estava construindo na época. Foi um passo inovador para o setor, duas “empresas” com públicos distintos co-existir no mesmo espaço. A Baró nos ajudou a dar os primeiros passos em direção às feiras e ao mercado internacional e nós trouxemos um fluxo de público pulsante. Somos gratas à Baró, nossa amizade, respeito e a união de forças e público aceleraram o crescimento mútuo.

A terceira fase foi intensificar e amadurecer nosso trabalho, crescendo na pesquisa e no alcance dos artistas que representamos, mantendo ao mesmo tempo, abertura para o novo e o experimental. Mudamos para a sede na rua Estados Unidos, um espaço convidativo e de fácil acesso, não formal e lúdico. Fizemos sempre bate papos, mini festivais, concertos, espetáculos de dança, uma tentativa de ser multicultural, mesmo dentro de um setor que cada vez se profissionalizava mais e se tornava mais específico. Esta fase foi muito difícil, pois seguir o modelo que existia não era muito o que queríamos, mas ao mesmo tempo compreendemos que muitas destas regras eram importantes e necessárias.

A quarta fase está em construção, é o desejo de nos aproximar da natureza, de ser mais etéricos ou sutis, itinerantes ou nos estabelecer em um local totalmente inesperado. Transcender os desafios que enfrentamos hoje no país, focadas em como colocar nossos dons à serviço de todos, como continuar colaborando para a cena artística em um novo formato. Estamos com várias ideias e projetos, buscando parte da essência que perdemos no processo de crescimento. Atravessamos mudanças em todas as esferas e arte é sempre um farol, uma luz que aponta para novas possibilidades. É este o passo que queremos dar agora, estamos em busca de um novo sócio para o desenvolvimento de um novo modelo de “galerismo”.

Como vocês selecionam os artistas?

Adotamos um critério empático e não curatorial: trabalhar com pessoas que carregam um desejo de colaborar, de se unir, de provocar ou de romper paradigmas através de seu trabalho. A produção pode oscilar, o formato e a pesquisa se desenvolvem diferentemente, mas a missão é clara – uma tentativa de se descobrir e descobrir o mundo, o outro. Tentamos enxergar o potencial do artista ou grupo em que ele está inserido, num ambiente mais amplo: não olhamos o que ele pode alcançar ou crescer com a sua arte, e sim o que ele pode fazer para questionar ou investigar o mundo, através do campo da arte.

Sempre trabalhamos num sistema de rede, de forma intuitiva, coperativa e colaborativa. Todos os artistas, coletivos, pesquisadores, curadores, amigos, colecionadores, visitantes foram formando esta identidade. Nosso trabalho é nos mater receptivas, como um “programa desbloqueado”.

As sócias Flaviana, Mônica e Juliana ©Cortesia
As sócias Flaviana, Mônica e Juliana ©Cortesia

Como é o ritmo da galeria? Quantas exposições ou eventos vocês fazem em um ano, por exemplo?

Ano passado fizemos 12 mostras nos dois andares da galeria, uma exposição internacional em parceria, uma mostra paralelo a um festival, nove bate-papos, duas mesa-redondas, quatro feiras, um curso e um novo site para e-commerce, é bem intenso, rsrs. Mantemos um ritmo de 9 a 16 mostras/ano.

Quais as maiores dificuldades que enfrentaram nesses 10 anos?

Num âmbito interno, foi ser muito artista para quem decidiu ser empresária. No externo, o Brasil atravessa um período de mudanças que consequentemente afetaram a economia desde 2014 e nos empurra para decisões que talvez demorássemos mais tempo para tomar. Já ficamos tempo demais preocupadas com a metade do copo vazia, e mesmo conseguindo forças para focar na metade cheia, o clima está tenso e arisco para qualquer empreendimento, tradicional ou inovador, pequeno ou grande, material ou virtual. Uma equação difícil de resolver, portanto vibramos sempre quando ouvimos que alguém conseguiu abrir novos mercados, é importante para todos. Genial quem consegue avançar em um período como este.

O que você aprendeu sobre o mundo das artes dirigindo a galeria nesses anos todos?

Que tudo é possível, fizemos tanto com tão poucos recursos financeiros. E fomos tão ajudadas, apoiadas, acolhidas por pessoas que compartilham do mesmo amor à arte nacional atual. Mas temos grandes desafios sim, alguns vêm da origem perversa de práticas comerciais, outros de rigidez cultural ou tentativa de manutenção de velhos modelos elitistas. Por exemplo:

– Você é empurrado a crescer, para não perder para uma galeria maior os artistas que você tanto trabalhou e apoiou,

– Mesmo crescendo, nunca é suficiente, tem sempre uma feira mais importante, um curador ou museu inalcansável, um lugar que você não tem acesso, há sempre este buraco, esta insatisfação, este fracasso. Há uma expectativa e cobrança desproporcionais de todos os lados, é um convite à esquizofrênia.

– Existe ainda um sucateamento de novas iniciativas, ao invés de apoio. Um exemplo, feiras cobram o mesmo valor de metro quadrado de qualquer galeria, tanto faz se você está apresentando um trabalho experimental ou uma obra consagrada. Há uma pressão que sempre empurra na direção contrária às novas expressões ou ao que reflete o hoje, é quase uma ditadura garantida pela impossibilidade de fomento aos “contraventores” culturais.

– Algumas vezes, é gerado o espaço que deveria ser para “o novo”, como os solo projects ou espaços curatorais seguindo o exemplo das feiras. Só que eles são ocupados pela ala jovem das grandes galerias ou até pelos nomes consagrados mesmo. Parece que foi raqueado o discurso.

Mas acredito que há como driblar tudo isto, sempre há. Se você não encontra um espaço para crescer, construa-o.

Exposição de Flora Assumpção ©Cortesia
Exposição de Flora Assumpção ©Cortesia

Você considera a Emma Thomas um símbolo de resistência na arte?

Sim. Se o discurso “it’s all about money” fosse uma máxima, nós teríamos desaparecido rapidamente. E temos uma abertura e uma preocupação grande com o coletivo. Já pensamos em montar um novo formato para atuar que não é a feira, mas une muitas galerias, artistas e projetos em um mesmo espaço. Esse desejo de trabalhar com o uma pequena cooperativa artística ainda não se materializou…

Você acha fundamental a participação em feiras?

Estamos repensando isto, tentando encontrar campos empáticos sem discriminar o que eles são, como um “match” no programa de paquera virtual: eu disse que te quero, você disse que me quer, vamos viabilizar isto dentro das nossas possibilidades, analizando nossas potências e limitações?

Este ano foi assim que aconteceu com a SParte e a ArteBa, sentimos que elas realmente se importam com a pesquisa dos artistas que apresentamos, e que juntos temos uma história comum, saudável e potente. Elas nos respeitam em nossa pequena atuação, e nós as respeitamos em sua grande atuação.

A arte se tornou uma grande feira? 

As grandes feiras são hoje como os grandes monopólios e impérios, quando começam estão delineando fronteiras, conquistando espaços nunca antes imaginados, há interesses de toda ordem. Mas quando tornam-se poderosas demais e brincam com a própria glória, oprimindo outras iniciativas e usando sua força política para manipulação de conteúdo, tornam-se prepotentes e vão perdendo o respeito dos profissionais da área e acho que até do público.

Qual a faixa de preço das obras na sua galeria?

Temos obras de R$ 700 a R$ 40.000, mas nosso preço médio oscila entre R$ 7 mil e R$ 9 mil.

Quais os proximos eventos e projetos da Emma Thomas pra esse ano?

Intensificar o programa Viveiro, fazer mais mostras fora dos espaços tradicionais de arte, atuar como proponentes culturais para projetos especiais, pesquisar novas mídias, formatos, festivais e entrar em um mundo mais transversal e multicultural, criar pontes e atravessar alguns modelos obsoletos. Pretendemos sair do cubo branco, entrar em contato com um público que ainda não frequenta galerias, entender a importância desta produção na sociedade e ouvir mais e de pessoas que não são do meio.


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