31.08.2017 / Gente / por

Nome quente na cena drag queen, Aretha Sadick fala sobre sua carreira, ativismo, moda e gênero

Foto: Reprodução
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Por Guilherme Meneghetti

Tudo confluiu para que a carreira da drag queen Aretha Sadick despontasse rapidamente. Natural de Caxias, no Rio de Janeiro, em 2011 participou de última hora do concurso Miss Gay na capital carioca, a convite do amigo estilista Henrique Filho. Antes mesmo de Aretha surgir, Robson Rozza sequer tinha um nome para a sua persona drag. Então, pouco antes do concurso, Henrique a batizou de Aretha Sadick, inspirada na cantora Aretha Franklin.

Ela ganhou o concurso e se tornou a Miss Gay do Rio de Janeiro naquele ano. Em 2012, fez sua primeira – e importante – viagem internacional. Foi para Londres junto com outros 30 artistas brasileiros ocupar o Victoria & Albert Museum, no projeto Rio Occupation London, em que ao longo da residência artística que durou um mês, reuniam-se para produzir uma performance na galeria principal, além de promoverem workshops para os visitantes.

 

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Voltou para o Brasil com diversos questionamentos que a impulsionaram ainda mais em seu trabalho. Fez campanha para a Natura, marca com a qual se identifica por oferecer maquiagens com uma gama maior de tons de pele, desfilou na Casa de Criadores, e foi mergulhando de cabeça em sua carreira ao intercambiar entre o mundo da arte, da performance, da moda e da música.

Formada em Artes Cênicas e Moda, Aretha trabalhou como educadora de arte no CCBB de São Paulo. “Existe a minha performance enquanto artista, mas, sempre que possível, acho importante trazer um conteúdo educacional sobre isso; não no sentido ‘eu falo e você aprende’, mas nesse espaço de troca, de colaboração”, ela explica. “As exposições têm o conteúdo dos artistas. Mas existe um trabalho por trás com referências que, de alguma forma, se conectam com esse conteúdo. Então, tais informações o público entende minimamente sobre o que aquele artista quis trabalhar. No CCBB, tive a oportunidade de executar essa ideia com mais afinidade”.

Atualmente Aretha mora em São Paulo e faz parte do Coletivo Namíbia, ocupado por negros e negras que atuam em diferentes áreas para juntarem forças. Ela fez sua performance de Grace Jones na abertura desta SPFW N44, no Hotel Tivoli, à convite do DJ e produtor Zé Pedro e Paulo Borges.

Abaixo, confira a conversa que tivemos com Aretha, que nos contou detalhes sobre o seu trabalho, além de falar sobre ativismo, moda, gênero e representatividade.

Como nasceu a Aretha?

Eu sou do Rio de Janeiro e, lá, há um concurso que acontece até hoje, o Miss Gay. Em 2011, participei a convite de um amigo, o Henrique Filho, e ganhei! Fui a Miss Gay do estado naquele ano. Batizaram-me de Aretha. Então ela nasceu em 2011, inspirada na cantora Aretha Franklin.

Você tem referências nas quais se inspira?

Na época, eu não tinha muitas, pois vim do teatro, sou formada em Artes Cênicas. Quando a Aretha nasceu, por ser inspirada numa cantora negra minhas referências foram surgindo: Erykah Badu, Grace Jones, Elza Soares, Lauryn Hill… Em geral, grandes cantoras negras, mulheres da música, pois o universo musical é muito importante pra mim.

Você também tem uma forte relação com a moda, não?

Sim, sempre tive. Sou formado em moda e minha mãe é modelista, já trabalhou com várias marcas do Rio de Janeiro. Por isso cresci em meio a máquinas de costura, tecidos, revistas, manequins. No entanto, ela trabalhava no backstage, e eu não queria trabalhar do outro lado do palco, queria é estar na cena. Então, com todas aquelas referências que eu a via pesquisando e indicando para as clientes, o meu trabalho também foi se embebendo disso. Depois, fui para a parte dos figurinos no teatro, pra experimentar um pouco mais desta área e, em seguida, fui pra moda: comecei a desfilar, fazer fotos, vídeos, etc.

 

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Hoje você intercambia o seu trabalho entre moda e teatro?

Hoje muito menos. Meu trabalho é mais de performance. A partir de 2011, quando fui com mais força para o movimento drag queen, mergulhei de corpo e alma neste universo. Comecei a trabalhar com a plataforma Drag-se, sediada no Rio de Janeiro…

Por falar nisso, conte mais sobre os seus projetos.

Ainda continuo com a Drag-se, sou a embaixadora da plataforma aqui em São Paulo, faço essas conexões audiovisuai com o Rio. O meu programa fala sobre moda, chama-se Sadick Fashion Hit, justamente pra fazer essa ligação entre moda e música, falando do aqui e agora, sobre a cena que está acontecendo, e também do passado, que é outra grande referência para mim.

Há ainda o Entre X e Y. Hoje, esse projeto se desdobrou por meio do meu trabalho como performer, trazendo ainda mais a música. Estava muito focada na moda, aqui em São Paulo principalmente, e por isso este campo se abriu muito mais para mim neste sentido.

Minha performance atual é cantar Grace Jones, que inclusive fiz na festa de abertura da SPFW, no Tivoli – foi ótimo poder conectar moda e música, ainda mais com tendo Grace como inspiração.

 

Houve uma performance que você chamou de “Esta não sou eu”.

Aconteceu logo depois que eu voltei de Londres, em 2012, quando tive a oportunidade de ir pra lá passar um mês fazendo o trabalho Rio Occupation London. Fiquei apaixonada com aquele boom de informações que eu vi. Foi quando pude mergulhar com mais força no meu trabalho de gênero, identidade, raça. Quando voltei, senti uma diferença muito grande com a cena drag do Rio: eu não via tanta multiplicidade como vi em Londres – naquela época, a cena estava ficando mais fraca.

Ao voltar da capital britânica, trouxe comigo diversos questionamentos, inclusive sobre moda, pensando neste lugar que eu, enquanto pessoa negra, consigo ocupar dentro da cena fashion. Naquela época, a performance falava sobre essa relação sobre moda e imagem que precisava ser desconstruída. Por isso eu queimava páginas de revistas de moda com as quais não me sentia representada.

Agora, depois de 2/3 anos, pude perceber que todos os meus questionamentos começaram a se conformar como realidade e transformação, que é o que a gente vê atualmente: muito mais pessoas negras ocupando a SPFW, as passarelas, a mídia em geral, isso tudo se consolidando cada vez mais.

Você também se baseia em alguns teóricos que estudam a lógica dos gêneros. Quem são?

A Judith Butler é uma das principais, porque ela fala sobre essa performance de gênero. Afinal, todo mundo tem a sua atuação de certa forma e o movimento social teve a necessidade de desconstruí-la, pois todos nós estávamos encaixotados, com determinadas ideias de masculino e feminino. E o meu trabalho, tanto em Entre X e Y como em Esta Não Sou Eu, foi exatamente botar fogo nisso. Se a gente nasce e é imposta sobre nós uma ideia de masculinidade, será que a gente não pode transitar em outras ideias depois de um dado tempo? Ou voltar e decidir fazer outra coisa?

Tenho uma amiga maravilhosa que é uma “transalien”. Transexual, ela tem toda uma estética alienígena – é incrível o seu trabalho –, exatamente pra falar dessa transição: a gente cresce de um determinado jeito, mas não somos obrigados a morrer desse mesmo jeito.

E o que você planeja daqui pra frente?

Hoje atuo com o Coletivo Namíbia, ocupado por pessoas negras que pertencem a diferentes áreas daqui de São Paulo, onde moro há dois anos, seguindo a ideia de juntarmos forças. Faço performances em festas itinerantes do underground paulistano, como Mamba Negra, ODD, Caps Lock…

Nos últimos quatro anos, o meu trabalho foi mais direcionado para fortalecer a minha imagem, sobretudo no universo da moda. Agora, cantando Grace Jones para homenageá-la, que é por si só uma conversa preciosa e energética entre moda e música, estou abrindo o meu caminho para a música eletrônica. Vamos lançar nas plataformas até outubro, se não me engano, uma música que o Coletivo Namíbia está produzindo, incluindo com o videoclipe.


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