Bala Desejo tem sabor de sucesso instantâneo

A trupe carioca encanta ao mostrar o brilho inocente de um sonho coletivo

na ordem: Lucas Nunes, Julia Mestre , Dora Morelenbaum e Zé Ibarra. fotos: Pyetra Salles
na ordem: Lucas Nunes, Julia Mestre , Dora Morelenbaum e Zé Ibarra. fotos: Pyetra Salles

Por Dimas Henkes

Durante a pandemia, os amigos Dora Morelenbaum, Julia Mestre, Lucas Nunes e Zé Ibarra se juntaram na mesma casa e começaram a escrever músicas em conjunto, trazer versos dos projetos solos e combinar musicalidades. E foi com a ajuda de uma live da Teresa Cristina que olhares (e ouvidos) ficaram atentos ao que estava nascendo. 

Sim Sim Sim, primeiro álbum da banda Bala Desejo, é dividido em lado A e lado B (fazendo analogia a um disco de vinil) e foi lançado neste ano pela Coala Records. As letras navegam em psicodelia e a musicalidade evoca a alma latina-brasileira que há dentro de nós. Como eles mesmos tentam definir no show, esse álbum é uma confusão danada. Das melhores.

A imagem e o figurino tem um papel importante no palco. Com ajuda da stylist Maria Rocha (fundadora da DRAMA), o quarteto se diverte entre instrumentos, danças e lambidas para entregar um show caloroso, divertido e com o importante poder de nos lembrar o sabor de dizer SIM para a vida. O nome da banda já começou a rodar o Brasil nos principais festivais, então não perca essa experiência. 

Batemos um papo com o Zé Ibarra e a Dora Morelenbaum sobre a volta aos palcos, figurinos e criação.

Depois de quase dois anos criando, compondo e gravando, vocês começaram a entrar em turnê pelo Brasil. Como está sendo a troca com diferentes públicos depois de tanto tempo de isolamento? 

Dora Morelenbaum: É maravilhoso poder, finalmente, sentir esse calor e troca tão esperados por nós. O Bala Desejo surgiu como reflexo, quase que inconsciente, dessa clausura dos corpos e cabeças, também. Depois, na época das gravações, quando fechamos as músicas, já estávamos mais conscientes de onde estávamos pisando. Então, ver tudo o que ansiamos por tanto tempo se concretizando, – ganhando forma pra além de nós quatro, sendo reafirmado e sentido pelo público – é muito realizador. 

“A composição muitas vezes é acompanhada de um processo dolorido, por tentar extrair uma tradução de algo que ainda nem compreendemos.” Dora Morelenbaum

Há um paradoxo interessante no álbum “SIM SIM SIM”. Na pandemia, quando nos afastamos da sociedade, vocês criaram músicas sobre felicidade e um sonho carnal de dançar grudado. Como foi a dinâmica de composição e convivência entre vocês quatro? 

Dora Morelenbaum: No início tentamos criar metas e dinâmicas pra conseguirmos levantar as 10 composições, e nos encontrávamos no final do mês na casa da Julia em Barbacena (Minas Gerais) pra imergirmos ainda mais nessas primeiras ideias. Em cada um de nós já morava de forma diferente essa vontade de uma busca da cura pela alegria.

A composição muitas vezes é acompanhada de um processo dolorido, por tentar extrair uma tradução de algo que ainda nem compreendemos. Estar em grupo tanto pode facilitar esse processo como pode deixar mais sensações em confronto. No final, vale a pena, porque chegamos em uma tradução que não é individual a nenhum de nós, mas um novo lugar de compreensão coletiva dessa sensação afirmativa perante a vida.

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Quero saber sobre as referências visuais da banda! Vejo muita Tropicália, brilhos, estampa sobre estampa e anos 70s… Até uma performance teatral à la Zé Celso. Qual o moodboard estético da Bala Desejo?

Dora Morelenbaum: Sinto que a estética do Bala Desejo permeia muitas épocas, em geral, e ainda tem o fator que, por sermos quatro, estamos sempre tentando descobrir essa intercessão entre nós, um ponto que faça sentido pra todes. 

Desde cedo percebemos que vinha de nós quatro essa vontade de misturar linguagens, tanto dentro da própria música – ao misturar e percorrer gêneros diversos – quanto na hora de nos aproximarmos da poesia e teatro, e também no figurino e entendimento da imagem do Bala. 

Existe uma explicação sobre essas referências e estéticas saudosistas? Há algo que vocês querem trazer de volta?

Dora Morelenbaum: Na verdade, sempre sentimos no Bala Desejo uma sensação mais nostálgica do que saudosista, no sentido de mais referenciar do que somente reverenciar. A gente bebe de fontes diversas, muitas atuais e claro que muitas também do século passado, e isso se traduz no que produzimos. Com muito respeito e admiração, mas não como uma meta, até porque os artistas que tanto ouvimos já atingiram essas metas estéticas, a gente só brinca com elas e tenta descobrir novas coisas. 

“Sempre sentimos no Bala Desejo uma sensação mais nostálgica do que saudosista, no sentido de mais referenciar do que somente reverenciar.” Dora Morelenbaum

Falando sobre os anos 1970s, essa foi uma década que revolucionou a música. Quero saber um álbum favorito de cada integrante dessa época que inspirou a criação de Bala Desejo. 

Lucas Nunes: Clube da Esquina, Milton Nascimento e Lô Borges

Julia Mestre: Telúrica, Baby Consuelo

Zé Ibarra: Elis e Tom, Elis e Tom

Dora Morelenbaum: Amoroso, João Gilberto

Além das fotos, a capa e a identidade visual do álbum remetem ao mundo analógico. Quem assina a criação? E como foi o processo dessa criação?

Zé Ibarra: Então, o processo de criação dessa identidade foi coletivo e tem muito a ver com nossa vontade de incorporarmos uma atitude “analógica” ou melhor, viva, em todas as frentes do projeto. Gravamos muitas coisas ao vivo no disco, nos propusemos a morarmos juntos – nós e a banda – durante o processo de gravação, enfim, tudo sempre pensando nessa fisicalidade e vivacidade dos processos. 

Como as roupas são escolhidas para os shows e qual a relação dos looks com a performance no palco? 

Zé Ibarra: Os looks têm tudo a ver com a sensação que queremos passar com nosso shows, nossas fotos e em tudo que aparecemos. É tudo uma coisa só, uma atitude, um gostinho específico que queremos transmitir, mas lembrando que nada disso foi, digamos assim, “criado”, somos nós no fim das contas, tudo o que soa e o que aparece tá dentro duma verdade nossa. E quem nos tem ajudado muito nessa tarefa, aí sim, de organizar essas ideias todas é a Maria Rocha, nossa figurinista, que tá sempre conosco, sugerindo caminhos e deixando tudo lindo. 

A conta do Instagram de vocês é super divertida e há uma aproximação criativa da banda com o público. Como vocês criam as postagens? 

Julia Mestre: Começa por um ponto em comum do grupo em que todos são apaixonados por fotografia, mais ainda quando analógica. O barato que tem no resultado dessas fotos é a espontaneidade que fica quando reveladas. Acho que isso faz deixar próximo da nossa vivência pro público, não fazemos pose, somos. Sempre tento mostrar em vídeos (stories) nossas brincadeiras internas, somos amigos de anos, então quando pegamos no pé do outro é pra valer! (risos). Acho que tá aí o segredo da nossa comunicação, está nessa tentativa de mostrar nosso lado brincalhão, como somos um com o outro. 

Tenho uma sensação de clássico instantâneo no “SIM SIM SIM”. Então quero saber: qual a direção o futuro de vocês aponta?

Zé Ibarra: A direção? Acho que para alguém de fora já seria difícil essa pergunta, imagina para quem tá dentro? Acho que se a sua pergunta tem algum fundo de verdade, nosso caminho tem tudo para florescer e se abrir cada vez mais. É tudo o que a gente quer, que o Bala Desejo e o disco Sim Sim Sim possam de fato permear a vida das pessoas, que ele realmente vire algo que tenha feito e que continue fazendo parte. Imaginar que esse disco pode mudar alguma coisa mesmo que pequena no Brasil e no mundo é uma alegria profunda, e pelo que temos visto, estamos indo nesse caminho.

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