Com Trava Línguas, Linn da Quebrada renasce e conta sobre o seu processo criativo

A artista renasce com a dádiva da dúvida em entrevista exclusiva para FFW

Linn da quebrada. foto: wallace domingues
Linn da quebrada. foto: wallace domingues

Por Dimas Henkes

Há um mito sobre o segundo álbum que artistas lançam, pois é com ele que podemos ditar o futuro promissor ou decadente de quem cria. É violento, mas é como o mercado age. Lina Pereira, que dá vida a opulenta Linn da Quebrada, deu uma rasteira no mercado com o seu próprio mito: da Eva que comeu o fruto e que agora se apresenta como semente para novas Evas. Em Trava Línguas, a artista reverencia o passado, se encontra no presente, deixa de lado o afrontamento e invoca seu lado sensível, mostrando sua maior força: a dúvida. 

Entre repetições de questionamentos que a própria cantora vive no dia a dia, Trava Línguas se concretizou com poesias musicalizadas criadas a partir do desnude pessoal do peso de justiceira. E foi se aprofundando cada vez mais na jornada do conhecimento pessoal que Lina se espiritualizou e ganhou força ancestral para matar a si mesma e renascer nessa nova era. É nessa profunda jornada que uma nova Linn da Quebrada se apresenta para nós, às vezes tímida, mas sempre provocadora. 

Se em Pajubá Linn desafiava o corpo, em Trava Línguas a artista questiona o que está ao seu redor. Agora, as trava-línguas plastificam as palavras, dando novos e múltiplos significados à elas. Linn da Quebrada criou uma nova forma de se expressar, desafiando o ouvinte a acompanhá-la. Em uma entrevista exclusiva para a FFW, conversamos sobre poesia, continuidade, seu filme que será lançado em breve e o magnífico time que a ajudou a construir a imagem dessa nova era. Prepare-se para se encantar.

Como foi o caminho que você fez para chegar nessa nova sonoridade narrativa e, principalmente, o que e quem te inspirou nessa mudança? 

Eu sinto que para a construção de Trava Línguas, eu tive que encarar, assim, de corpo inteiro algumas dúvidas que foram aparecendo no decorrer do processo e dos trabalhos com Pajubá –  Pajubá com certeza foi um divisor de águas e fez com que eu me deparasse com muitas contradições diante desse mercado.  Se antes de fazer Pajubá, eu trago todas as indagações e os questionamentos que eu trago com o decorrer do processo do disco, eu sinto que se antes, na verdade, se antes eu, eu fiz tudo isso para que eu não me sentisse sozinha. Com tempo, eu acho que teve um processo de me sentir cercada por uma multidão, que me olhava e não me via, de certa forma. Eu acho que o processo do mercado, da indústria, da arte, para além da arte, para além do seu fazer artístico, mas a arte como indústria que fez com que eu me perguntasse quem sou e quem eu estou sendo nesse momento?

Essa foi a principal pergunta que me norteou na construção narrativa de Trava Línguas, e diante disso, eu entendo que pra entender quem eu sou, quem eu estou sendo, eu preciso, antes de tudo, entender de onde eu vim, de onde eu venho, por isso eu acho que o processo de Trava Línguas é um processo que pra enfrentar e ir em frente eu entendo que eu preciso dar alguns passos atrás pra entender o que é que está acontecendo e assim elaborar melhor alguns caminhos para onde eu estou indo. Será que esses caminhos que eu estou caminhando são realmente os caminhos que eu quero investir o corpo? Principalmente dentro desse mercado, dentro desse processo de produtificação dos nossos corpos, de captura do mercado das nossas narrativas, das nossas histórias, das nossas identidades,  então acho que foi por aí primeiro que me motivou a caminhar. E para explorar essas sonoridades, eu sinto que o que era preciso nesse momento, enquanto estratégia, era elaborar rotas de fuga, para fugir dessas capturas. Então o que eu me proponho é mais uma vez ser muito honesta e sincera comigo. Fazer um álbum com aquilo que eu gostaria de ouvir nesse momento, com algo que tivesse a generosidade cruel para que eu pudesse falar das coisas que só eu poderia dizer para mim mesma, sabe? De ter a crueldade generosa de elaborar aquilo que é difícil de dizer e, por isso, o  Trava Línguas que é essa disputa travada no território da linguagem, que foge também desses moldes, das projeções, expectativas que se formaram em volta do meu corpo depois de Pajubá, porque eu acredito que as pessoas esperavam uma coisa ou esperavam algumas coisas, e de alguma forma esperavam que eu fosse fiel àquela que eu já fui. E na verdade o que eu trago com Trava Línguas é na verdade um compromisso com a infidelidade, um compromisso de continuar me movimentando e criando novos imaginários e me movendo pra lugares que me possibilitem ser outra, que me possibilitem não só não corresponder a essas expectativas que de alguma forma nos paralisam, né? Nos mantêm no mesmo lugar, nos mantêm e nos cristalizam como uma imagem bem constituída, bem formada. O que eu me proponho é a quebra. A quebra dessa imagem, a quebra desses imaginários e assim investigar novos ritmos, novas sonoridades, novas frequências vocais, um novo modo de cantar, me propor movimento.

Outra parte nova nesse álbum é a poesia, que já existia, mas voltou diferente também. Esse álbum de certa forma é “exclusivamente brasileiro”, por conta das próprias “trava-línguas” que você criou.  É impossível traduzi-lo, sabe? Então, ele é só nosso. Me lembrou até de uma parte da música Mutante, da Rita Lee, que ela canta: “Kiss me, baby, kiss me. Pena que você não me kiss”. Enfim, eu gosto muito dessas brincadeiras que você faz com a língua portuguesa e quero saber como você construiu essas poesias e quem são suas referências poéticas?  

Olha, as minhas referências poéticas partem muito da vida, dos meus encontros com as minhas parceiras, daquilo que eu vivi, das minhas experiências, das questões que eu mesmo não consigo responder, daquilo que não está bem resolvido em mim. Eu acho que tem esse processo – mais uma vez vou trazer isso porque isso tem me acompanhado, eu tenho tentado sim, no meu processo ser mais generosa comigo também, mais generosa com as coisas que eu não dou conta, por isso que eu trago também Stella Patrocínio, decido me acompanhar, ser acompanhada e acompanhar Stella do Patrocínio, entendendo das minhas impossibilidades fazer justiça, das minhas impossibilidades de corresponder expectativas formadas em torno daquilo que as pessoas esperam que a gente faça, então acho que a minha poética tem sido muito atravessada por Stella do Patrocínio, já  há algum tempo. E por entender, por exemplo, que a Stella do Patrocínio, que é tida como poeta, como artista, e os seus falatórios são tidos como obras. Na verdade, Stella do Patrocínio foi patologizada, foi psiquiatrizada, foi encarcerada na colônia Juliano Moreira, onde passou os últimos anos de sua vida, onde os registros dos seus falatórios, na verdade, eles denotam toda violência psiquiátrica-psíquica a qual ela foi submetida. São registros de violência e de apropriação extrativista de um mercado que após a sua morte transforma tudo que ela desse em produto, que o tempo todo enquanto ela falou em excesso, em acesso, ela estava sendo examinada sem que ela soubesse. Então a gente vê toda a crueldade em volta da Stella do Patrocínio e como esse mercado se apropria das nossas feridas e das nossas cicatrizes para que elas rendam e sejam lucrativas. Eu sinto que assim como aconteceu com a Stella, de alguma forma, eu percebo – mesmo que em lugares radicalmente opostos – que o mercado continua com essas estratégias perante os nossos corpos, as nossas feridas, as nossas marcas para que sirvam às grandes marcas e instituições. Acho que esse processo, ele passa por essa incorporação de mim.

Outra pessoa que eu me inspiro muito e que é minha parceira, que foi uma das pessoas que também escreveu uma das músicas, né, que escreveu a música “Amor Amor” é a Castiel Vitorino Brasileiro, que é psicóloga, macumbeira, artista visual, uma grande parceira que eu convidei para que ela escrevesse esse ponto que abriria o disco, que tem tido uma recepção maravilhosa. Acho que a minha poética, ela não parte só da música, isso que eu acho interessante, eu acho que a música ela se torna esse terreno de investigação e de proposição linguística e da linguagem, então eu tenho investigado esses processos de encontrar a diferença na repetição, por isso eu tenho investigado isso principalmente porque pensando em como as coisas se estabelecem muitas vezes, eu dou entrevistas  – assim como outras artistas – a gente dá muitas entrevistas que as perguntas são as mesmas. E por as perguntas serem as mesmas a gente é obrigada a voltar pro mesmo lugar, quando a gente está em outro lugar e isso de uma certa forma impede a movimentação do todo. Porque nós ficamos presas às mesmas indagações e não conseguimos avançar muitas vezes. E daí a minha intenção é justamente propor essa quebra e propor essa diferença na repetição para que a gente possa, para que eu possa ir quebrando também essa poética da sexualidade do gênero, que foi formada a partir do que o propus em Pajubá. Para além disso, acho que a Ventura Profana é uma pessoa que me inspira muito. Por isso, eu a convidei para que a gente faça essa música, no álbum. 

A Luísa Nascim, ela vem de uma de uma busca da própria sonoridade, daquilo que ela já vem construindo já há algum tempo com a banda Luísa e os Alquimistas. Então, eu sinto que as pessoas que eu me inspiro, as pessoas que inspiram na minha poética são justamente as pessoas que eu procuro trabalhar. A BadSista, por exemplo, foi uma pessoa que me deslocou muito, que me propôs experimentar também outras sonoridades, que estava disposta a experimentar e produzir outros sons. Então, a gente se provocou bastante, a gente se provocou a quebrar os ritmos e propor uma outra, um outro ritmo mesmo aos nossos pensamentos. Assim como também outra outra pessoa que eu busco nesse resgate de memórias, nessa construção poética, é a  Xica Manicongo, que nós trazemos nessa primeira música, em Amor Amor, que é tida como a primeira travesti, em solo brasileiro, mas que, por muito tempo, foi tida pela academia como o primeiro caso de homofobia,  o primeiro caso registrado mas que a gente percebe que se trata de uma travesti, que se a gente vai mais fundo ainda na questão, a gente percebe que se trata de uma outra coisa. Xica Manicongo era uma outra coisa, porque ela foi sequestrada do continente africano, trazida para o Brasil – e aqui, hoje, ela ganha essa categorização como travesti, mas se a gente vai mais fundo Xica Manicongo é uma outra coisa, porque ela era Quimbundo, seriam outros nomes, esses são os nomes do colonizador, ou os nomes que nós nos damos diante desse outro colonizador. Eu acho que a minha narrativa tem muito principalmente essa poética de resgate de memórias, uma poética que buscasse construir laços e vínculos mais próximos sonoramente com a minha mãe, com as nossas mães. Para que eu pudesse, assim, me aproximar de outras pessoas, para que a gente pudesse expandir a nossa comunicação e eu acho que é por aí um pouco.

Você fala da Stella e de outras pessoas que vieram antes. E não só pessoas, mas você fala da espiritualidade, que vem muito antes. Você se aproximou mais da espiritualidade nesse meio tempo entre os álbuns? Como ela te influenciou?

Sim, eu tenho me aproximado mais, acho que por muito tempo, eu me senti um pouco contida, nesse lugar da espiritualidade por ter vindo de um histórico ortodoxo, religioso e cristão, que fez com que por muito tempo eu me afastasse de mim mesma, culpabilizasse os meus desejos, as minhas orientações, as minhas vontades e isso fez com que eu matasse Deus, nesse sentido, esse Deus e essa divindade que me culpabilizou e que de uma certa forma parecia que exigia que eu tivesse que abrir mão de mim mesma para que eu pudesse viver. Isso também é morte. Acho que a partir daí, eu venho procurando modos de exercer uma incorporação de mim mesma e me incorporar dos meus desejos, da minha pele, de quem eu sou e entender – como eu já disse algumas vezes – que eu só posso acreditar em um deus, que também acredite em mim. Um deus ou deuses que também tenha eu contido em si, assim como a palavra Deus. E nisso eu tenho me aproximado mais do candomblé, tenho me aproximado mais de cultivar uma espiritualidade que me faça bem, cultivar uma espiritualidade que seja material e concreta e, principalmente, cultivar uma espiritualidade onde o meu corpo seja o meu templo, onde aquilo que cultuo e aquilo que eu cultive seja frutífero, proveitoso pra mim, com as minhas, com as nossas. Acho que tem sido um terreno que cada vez mais eu tenho tido a vontade de cuidar. Eu sinto que eu tenho cuidado de mim e cuidando de mim eu olho para as minhas fragilidades e assim eu consigo fazer com que elas se potencializem.

foto: wallace domingues
foto: wallace domingues

Você falou sobre matar e renascer. Isso me fez lembrar da capa do seu novo álbum. Me conta mais um pouco sobre o processo de criação, não só da capa, mas de todo processo de criação das imagens?

Eu convidei a Castiel Vitorino para que ela dirigisse a arte e esse foi um trabalho muito especial porque eu convidei muitas pessoas que eu gostaria de trabalhar, a Ode e as meninas da #LGBeauTé. Então eu pude escolher as pessoas com quem eu queria trabalhar para que eu me sentisse confortável e à vontade para oferecer o meu corpo nesse ritual. Eu vinha percebendo que muito do que eu faço, eu nunca tinha oferecido meu corpo inteiro dessa forma. Eu passei pela minha cirurgia para colocar as próteses, então eu tava vivendo um outro momento com meu corpo. Eu achei que esse  seria o momento ideal de oferecer o meu corpo na integridade de se sentir confortável, que me fizesse sentir segura mais do que confortável, porque acho que há muitos desconfortos em todos os processos e os desconfortos são importantes para que a gente confronte aquilo que também nos paralisa e acho que uma das coisas que vinha me paralisando, há um tempo, era o medo. E o medo em um lugar que, era muito curioso porque com Pajubá, eu tive que gritar, eu gritei, eu expus ao mundo muito de mim e eu costumava dizer que a arte salvou minha vida, mas hoje eu entendo que é impossível dissociar a arte do seus mecanismos de captura, a arte enquanto instituição e incorporação, então eu percebo que a arte tomou muito de mim e isso fez com que eu criasse um certo medo de, um medo de dar o primeiro passo, um medo de errar, inclusive. Logo eu, que  tenho, tive desde sempre um compromisso com o erro, com o fracasso, com a falha. Eu me expus enquanto falha e enquanto fracasso desse sistema para denunciar assim, esse sistema que está em ruínas, esse sistema hipócrita diante de tantas coisas que prefere ignorar. E eu sinto que com essa capa, da forma como a gente escolheu, assim como as outras imagens, eu sinto que o que eu fiz e estou fazendo nesse momento é me propor a ir com medo, vai com medo, não fica com medo, mas vai, aí eu fui com medo, eu fui com vontade, com desejo, sinto que eu estou indo com tudo que eu tenho, incluindo o medo também. E, para isso, eu precisava oferecer desse meu corpo, mas, ao mesmo tempo, estar num território em que eu me sentisse protegida, segura e confortavelmente desconfortável para fracassar, por isso, que foi esse território ritualístico foi construído com a Castiel, com as linhas de sal em volta do meu corpo, trazendo os pedaços de toco de árvore dessa nova Eva que cortou essa árvore do conhecimento do bem e do mal, que comeu do fruto, chupou até o caroço e agora se apresenta, também, de alguma forma como semente.

Esse time tem pessoas realmente incríveis. Como você os reuniu? Conta mais quem são essas pessoas – porque eu vi muitos nomes promissores de direção de arte brasileira.

Eu tenho flertado bastante com o universo das artes contemporâneas, com as pessoas que têm criado e feito da arte um espaço de experimentação interdisciplinar, transdisciplinar, um espaço desobediente também. Acho que isso tem me chamado atenção: pequenos espaços de insubordinação e desobediência aos parâmetros que a arte espera. Então, para isso, a primeira pessoa que eu convidei foi a Castiel Vitorino. Eu já vinha experimentando artifícios de uma beleza que fosse mais sincera com aquela que eu estou sendo hoje e, pra isso, eu procurei a Ágata, a Rapha da Cruz e a Mago Tonhôn da #LGBeauTé e a gente vêm construindo uma imagem contínua entendendo meu corpo, meu cabelo, as minhas possibilidades e os meus limites, aquilo que eu gosto, aquilo que eu não gosto, experimentando novas coisas também e por isso que eu as convidei.  A Odi é uma artista que eu já estava flertando há algum tempo pelos trabalhos e pelo cuidado de uma delicadeza e de uma sutileza com a imagem, que me aproximava muito e cultivava em mim uma curiosidade de entender como ela produzia esses processos porque eu acho que uma das coisas que mais me interessa nesse álbum, para além do produto final, para além da música, para além da capa, para além das fotos divulgação, o que mais me atrai é a possibilidade de criar um processo onde eu possa me nutrir, um processo que seja proveitoso, não só para chegar em resultados que sejam excelentes, porque isso a gente vai chegar, porque nós somos excelentes, estamos trabalhando com pessoas excelentes, cheias de  vontade, mas o que me interessa nesse momento é que o processo seja prazeroso para nós, que estamos trabalhando. Para isso, também eu já estava experimentando a fotografia com o Wallace Domingues, desde “Há Início”.  Já vinha observando os trabalhos dele com a HOA e com outras plataformas e que me deixava muito instigada a também ter uma imagem criada conjuntamente e o Wallace e as outras artistas foram muito abertas, eu me senti muito participante de todo processo, eu participei na criação do moodboard, da criação de ideias, na construção do espaço, no pensamento das luzes, nas poses que a gente gostaria de trabalhar, na beleza que a gente gostaria de evidenciar, nas roupas, nas vestes, que mesmo revelando muito, ainda assim, o que cobriria e como cobriria. Então, foi mais ou menos por aí que eu procurei construir esse time, para que eu pudesse me sentir verdadeiramente envolvida com tudo que estava sendo feito. Isso é muito cansativo, né? É um investimento de energia muito grande, porque são muitas frentes de trabalho mas, ao mesmo tempo, eu sinto que são demandas que me alimentam, que me nutrem, porque eu sinto que eu aprendi muito com todas essas pessoas e a gente conseguiu construir algo muito importante. 

E esse moodboard? Eu fiquei bem curioso: o que que tinha nele? Tinham outras artistas? 

Esse moodboard, na verdade, ele já foi bem focado, porque eu já sabia por quais caminhos eu gostaria de ir. Então, eu já sabia mais ou menos as cores daquilo que eu queria experimentar, eu sabia que eu queria uma beleza que evidenciasse quem eu estou sendo, o momento do meu corpo que eu estou trazendo hoje. Então, a gente pensou os cabelos que poderiam ser trazidos, mas também nesse lugar de como eu poderia mostrar meu cabelo, como que eu poderia mostrar o meu corpo, qual que seria a forma que eu gostaria de trazer essas formas e esse conteúdo, né? Tinha o elemento da terra que eu queria muito trazer. O moodboard foi construído a partir de um desejo meu, desse processo de incorporação da nova Eva e, pra isso, a gente foi construindo juntas essa imagem: quem é essa nova Eva? O que é que essa nova Eva traz em si, não só enquanto elementos, mas enquanto narrativa: a gente está falando de força, dela ser muito poderosa, ou a gente tá falando também da força que se encontra na fragilidade, na vulnerabilidade. Eu acho que foi por aí que a gente foi construindo essas imagens. A gente construiu esse moodboard que eu trouxe essas poses, esse pequeno círculo, inicialmente eu queria que fosse um imagem em pé mas eu também queria que tivesse essa imagem capturada de cima, quando a gente viu essa imagem de cima, a gente teve certeza que era por ali que a gente queria ir pra construir essa capa também. Outras artistas que foram muito importantes para esse processo: foi a Cyshimi que fez as unhas, um trabalho primoroso, que são obras de arte. A própria Pedra que também foi responsável pela composição das peças para o figurino. São muitas pessoas que foram cruciais nesse processo. Essa é uma outra coisa que eu entendi: de que é isso, de que eu continuo não sabendo fazer nada sozinha. Não é possível fazer o que eu quero sozinha. É preciso fortalecer as minhas redes, as nossas redes e é preciso pra mim nesse momento me coletivizar, porque me coletivizar também é uma forma de dividir as negociações e fazer com que as coisas aconteçam sem que eu seja sobrecarregada.

Falando mais sobre os visuais, quero saber um pouco dos shows. Todos traziam um visual muito marcante como performance artística. Como você faz as escolhas visuais da construção dos shows? E como será o visual da próxima turnê?

Sabe que ainda não sei, eu ainda não me deparei exatamente com essa questão. Eu estou ansiosa, inclusive, pra gente começar a erguer, levantar esse show. Entender como vai ser estruturalmente. Eu sei que eu estou com vontade de trazer instrumentos para o ao vivo, quero muito trazer um instrumento de sopro para o show, o trompete. Acho que o trompete era algo que eu queria muito porque eu queria esse sopro de vida também, eu queria voltar à superfície, eu precisava respirar, eu precisava que as músicas me proporcionassem, na sua melodia, pausa. Eu tenho buscado o silêncio, eu tenho procurado entender o barulho que o silêncio tem, do mundo, do mundo à minha volta, de tudo que está à minha volta. Eu quero também que tenha guitarra. Eu tenho proposto para a BadSista, para que quando ela possa, porque ela também tem uma agenda muito conturbada, estar com a gente no show. A Dominique com a percussão é algo que não tem como abrir mão, acho que a percussão é algo que me marca, que me movimenta, que me caracteriza. Fora isso, fora essa vontade de levantar um show todo, que seja pautado pela presença, mais uma vez pela presença, acho que eu tenho buscado talvez enquanto performatividade perante esse show, dentro desse show, a vulnerabilidade. Eu tenho buscado o menos, não enquanto me apequenar, mas ao menos de conseguir assumir a minha menor grandeza, quero buscar construir nesse show trazer as imagens de uma narrativa – que ainda está por vir –  que é o filme Trava Línguas.

Sobre o filme…

O filme Trava Línguas que eu estou dirigindo, ao lado do Rodrigo de Carvalho, e que é um filme que vai traçar e construir uma rota de compartilhamento de processo onde seja possível perceber como meu corpo se transforma em música e como a música se transforma nesse corpo. Então, eu acho que os visuais vão conter essa narrativa, vão contar essa narrativa da volta pra cidade onde a minha mãe nasceu, nessa busca em Viçosa, Alagoas, por entender quem sou eu tentando refazer os possíveis passos daquelas que vieram antes de mim, tentando resgatar memórias  que me foram interrompidas e roubadas. E acho que Trava Línguas nesse lugar enquanto show, enquanto algo, enquanto proposição de trabalho, coletivização é um retorno, é o retorno, é um resgate, é um compartilhamento, é uma abrir dessas feridas e compartilhar com o mundo e com aquelas que me acompanham quem eu estou sendo. É dar alguns passos atrás e se perguntar: para onde que a gente tá indo mesmo, gente?

Acho que o Trava Línguas não é só um álbum, não é só música, não é só filme, ele é uma metodologia de pensamento e ação. Eu estou me colocando em Trava Línguas, eu estou tentando decifrar esses pensamentos essas questões em todos esses campos. E o show é um desses lugares que eu estou muita ansiosa por estar, inclusive, revelando aqui porque eu fui muita adoecida psicologicamente, psicofisicamente nesses anos de trabalho. Eu sinto que as crises de ansiedade, o esgotamento, tudo isso de alguma forma quando eu for voltar a ter o show, depois de dois anos de pandemia, eu acho que eu vou ter que encarar essas questões também e nesse lugar que eu estou agora, eu sinto que uma das coisas que eu vou presar é pela minha saúde, pela minha saúde mental, pela minha preservação também, enquanto Lina Pereira e enquanto Linn da Quebrada. 

Então seria Trava Línguas – álbum e filme –  um processo de cura seu? 

Eu acho que de alguma forma sim, eu acho que é um processo de frescuras e um processo de free-is-cura, enquanto um processo de libertação e cura. Para isso, eu preciso encarar de frente as frescuras das quais eu não quero abrir mão. Frescura geralmente é tido como aquilo que é bobagem: “Que ansiedade o quê? que depressão o quê? Isso é frescura. Bora trabalhar que isso passa”. Têm frescuras que me mantêm de pé, assim como tem algumas contradições que fazem com que eu me mantenha viva mesmo, me mantenha em movimento. E eu sinto que Trava Línguas tem sido um processo de cura a partir das minhas frescuras.

Para finalizar, você tem algum conselho para algum jovem artista?

Conselho que eu tenho dado muito é duvidar. Duvide e faça da dúvida uma dádiva compartilhada. Também uma das coisas que eu tenho entendido é a valorização do seu fazer artístico, do seu fazer artístico, independente da arte enquanto instituição e incorporação, porque a arte nos rouba e a partir do momento que a gente está dentro de um mercado, que tudo que a gente faça seja para ser vendido e tudo que a gente faça seja por essa circulação mercantil. E isso de alguma forma, não estou falando que a gente não têm que fazer, vender, muito pelo contrário, a gente tem que sobreviver.

Mas acho crucial que a gente preserve de alguma maneira o quê no seu fazer artístico tipo aciona. Um conselho bem prático que eu daria é: escreva em um caderno o porquê você está fazendo isso hoje, porquê você quer fazer isso. Vai viver o mundo, vai trabalhar, vai fazer, depois de um tempo volte até esse caderno, relembre, reveja o que te motivava. Suas motivações podem mudar, seus interesses podem ter se deslocado completamente e voltando você se pergunta: será que ainda faz sentido este lugar?  Será que eu quero ir para outro lugar? Será que eu virei uma outra coisa? E assim eu acho que a gente pode entender o que a gente quer fazer com aquilo que fizeram da gente, o que você pode fazer com aquilo que fizeram de você. São essas indagações que eu posso trazer.

 


Relacionados


Veja Também

Assine a newsletter do FFW

Seja o primeiro a ter acesso a conteúdos exclusivos. Nós chegaremos ao seu email semanalmente quando tivermos algo realmente cool e relevante para dividir.

×