Iceage lança novo álbum e fala ao FFW com exclusividade

O disco “Seek Shelter” revela uma banda mais madura e otimista, apesar de tudo

a banda dinamarquesa iceage que acabou de lançar novo álbum
a banda dinamarquesa iceage que acabou de lançar novo álbum

Por Isadora Almeida

Criando um rock altamente expressivo, Iceage é uma banda dinamarquesa que começou a carreira com os dois pés no punk. Logo na estreia em 2011, o aclamado álbum New Brigade, registro cru e barulhento fez gente de todo o mundo se perguntar quem eram aqueles jovens de 19 anos com guitarras raivosas e apresentações ao vivo consistentes, especialmente vindo de uma banda com pouca experiência e idade. Dez anos se passaram e os jovens punks hoje com quase 30 anos se tornaram uma das bandas mais interessantes do cenário alternativo, se afastando de maneira orgânica e lenta do som que os apresentou ao público.

Outros três álbuns You’re Nothing (2013), Plowing Into The Field Of Love (2014) e Beyondless (2018) se seguiram em meio ao turbilhão de turnês intermináveis, ou seja, em menos de uma década, são quatro trabalhos lançados e centenas de shows. Essa intensidade traz a banda até o momento atual, mais especificamente hoje (07.05), dia do lançamento do quinto álbum, o excelente Seek Shelter.

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a capa do novo álbum seek shelter, fotografado por Fryd Frydendahl

Desde o terceiro trabalho eles flertam com outros gêneros como o country, explícito na faixa “The Lord’s Favorite”, uma das melhores da carreira da banda, direção que ao longo dos anos só enriqueceu a produção e os permitiu seguir lançando álbuns melhores que os anteriores. Agora, no novo trabalho, eles mergulham ainda mais na música country e ainda abrem espaço para experimentar com o blues e gospel, fazendo com tamanha excelência que aos ouvidos parece que esses momentos fazem parte do repertório do Iceage desde o começo.

As experimentações certeiras não são a única novidade do novo disco. Até pouco tempo atrás, a banda era um quarteto formado por Elias Bender Rønnenfelt, Dan Kjær Nielsen, Jakob Tvilling Pless e Johan Suurballe Wieth. Agora com a adição do guitarrista Casper Morilla, eles lançam um trabalho enxuto, com nove músicas que, de maneira geral, falam sobre a vida, talvez por uma ótica um pouco mais esperançosa do que a dos trabalhos anteriores, ainda que o sentimento de salvação, redenção e a imprevisão do desconhecido ocupem grande parte das constatações e análises que as letras de Elias nos propõem.

A empreitada para dar vida a essa nova fase da carreira do quinteto que começa hoje teve início em 2019, quando pousaram em Portugal para duas semanas de gravação no estúdio de Sonic Boom (Peter Kember), vocalista e guitarrista da seminal banda britânica Spacemen 3, que assina a produção de Seek Shelter. A combinação dá resultado ao registro mais maduro e acessível da banda.

Iceage: Dan Kjær Nielsen (baterista), Johan Suurballe Wieth (guitarrista - que eu entrevistei sentado ali no fundo), Elias Bender Rønnenfelt (vocalista), Casper Morilla (guitarrista), Jakob Tvilling Pless (baixista). foto: Mishael Philip
Iceage: Dan Kjær Nielsen (baterista), Johan Suurballe Wieth (guitarrista – sentado ao fundo), Elias Bender Rønnenfelt (vocalista), Casper Morilla (guitarrista), Jakob Tvilling Pless (baixista). foto: Mishael Philip

Conversei via zoom com o guitarrista Johan Suurballe Wieth, com exclusividade para o FFW, que, direto da Dinamarca, contou um pouco sobre a produção do álbum, 10 anos na estrada, Caetano Veloso e moda.

Na minha humilde opinião, este é o melhor trabalho da carreira do Iceage até agora. Ouvindo o álbum me veio um sentimento de que existe esperança nessas músicas, mas elas estão esperando, clamando por algo maior, talvez salvação. Na sua opinião, qual é o fio que conecta todas essas músicas?

Muito obrigado! Bom, eu acho que tem sim um pouco de esperança e também amor nelas. Mas eu acho que é um conjunto de emoções que ligam todas elas. Pelo menos é o que eu sinto.

Como foi a experiência de gravar o álbum em Portugal? A atmosfera do lugar influenciou no resultado final? Você se sente inspirado trabalhando em lugares diferentes ou gravar é praticamente a mesma coisa estando em Portugal ou em qualquer outro lugar?

A gente sempre tenta se colocar em novos lugares. Tentamos sempre pelo menos não gravar a música principal do álbum na Dinamarca, mas é claro que o lugar que você está te inspira de maneiras subconscientes que eu provavelmente não conseguiria te explicar. Foi um lugar bem inspirador e estar com o Peter (Kember), que produziu o álbum, foi muito bom. E a razão principal de não gravarmos onde a gente vive é que sempre tem aquela distração, talvez olhar uma esquina e começar a pensar em alguma coisa que você viveu ali e isso pode te distrair. E em um novo lugar a gente se permite a viver e pensar em outras coisas, o que é muito bom. 

Como fã, adoro alguns álbuns ao vivo do Spacemen 3. E pelo que vejo no Youtube, as apresentações ao vivo do Iceage são incríveis. Como foi o processo de trabalho com o Peter Kember nesse sentido da música ao vivo? Vocês são muito influenciados em como as músicas vão soar em apresentações ao vivo enquanto gravam um álbum? Tipo, você pensa muito sobre como as músicas vão funcionar em apresentações ao vivo?

Trabalhar com o Peter foi maravilhoso, ele é um ser humano adorável e muito divertido, a gente deu boas risadas. Ele é aquele cara que senta e fica observando, só diz algo quando ele tem que dizer algo, e traz a melhor energia pra dentro do estúdio. Eu sinto que esse trabalho tem muita diferença se comparado aos outros, quando você pensa em termos de “música ao vivo”. A gente tem sido uma banda de turnê por tanto tempo, fizemos vários shows e a gente sempre testava as músicas e íamos moldando elas ao vivo pra depois gravar. Nesse álbum, muitas músicas a gente não tinha terminado até chegar no estúdio, então a gente não teve tempo de moldar elas de outra maneira. E eu acho que em termos de um álbum ser um álbum e as apresentações ao vivo são coisas muito diferentes. E tem que ser! Pelo menos eu acho que tem que ser duas coisas bem diferentes. A gente nunca se interessou em replicar o álbum ao vivo, são outputs diferentes. Seria ruim, meio que a gente ia “acabar” com as músicas tentando replicar ao vivo.

Eu amo o resultado do Elias cantando junto do Gospel Collective de Lisboa! De onde surgiu a ideia? E como foi? Vocês tiveram a ideia e direcionaram os cantores ou trabalharam juntos tentando entender a melhor maneira de fazer isso?

A gente tinha o interesse de trabalhar com corais, ou vocais que seguissem essa linha. Um dia estávamos conversando sobre isso e alguém no estúdio disse que conhecia esse coletivo. Eles foram lá no estúdio e ficaram acho que umas duas horas e foi maravilhoso ver eles cantando. E claro, a gente tinha umas ideias do que queríamos que eles fizessem, mas conversamos e eles colocaram muito do que eles são nas músicas. Foi bonito vê-los manifestando as vozes de uma maneira poderosa e aquilo virar parte da nossa música, ficamos muito felizes com essa colaboração.

Eu quero saber um pouco sobre a capa do álbum, porque achei muito bonita e forte. Fazendo uma pesquisa rápida, eu descobri que, para alguns nativos americanos, o cavalo é um símbolo do poder divino e espiritual. Já em um “significado espiritual”, o cavalo branco representa o progresso espiritual por meio do conhecimento e da fé. E na bíblia, o primeiro cavaleiro do apocalipse está em um cavalo branco, talvez invocando o Anticristo… há muitas interpretações dessa imagem. Existe um significado profundo por trás dessa imagem ou era mais sobre estética, por ser uma foto bonita?

Não tem esses significados que você disse, na verdade eu nem sabia, mas tudo que você falou é muito bonito, gostei. Bom, essa foto é da Fryd Frydendahl, uma fotógrafa brilhante que é nossa amiga, ela viveu em Nova York por um tempo, mas já está de volta na Dinamarca. A gente já trabalhou com ela antes, então chamamos ela pra conversar e ela tinha essa foto, que foi tirada no interior na casa dos pais dela. Nós vimos e achamos muito bonita, pensamos que era exatamente o que a capa desse álbum precisaria ser.

Eu sinto que nos trabalhos anteriores você orbitou talvez em torno das guitarras do Warren Ellis (Bad Seeds) e das guitarras do Martin Gore (Depeche Mode). No novo álbum eu também sinto alguma inspiração de álbuns como Forever Changes (Love), algumas coisas do Lee Hazelwood , algo da psicodelia experimental do álbum Maggot Brain (Funkadelic), … 

E por exemplo, quando ouvi “Vendetta” pela primeira vez, lembro que pensei: “as guitarras são dançantes, mas ao mesmo tempo é Iceage”.

Quais são suas inspirações para as guitarras desse álbum? 

Todos esses guitarristas e trabalhos que você citou eu gosto muito. Claro que eu toco guitarra de um jeito que foi moldado a partir de coisas que eu gosto e ouço, mas eu ouço muita coisa então não teria muito como dizer “ah, isso vem dessa inspiração ou daquela”. Eu gosto muito do Forever Changes e acredito que o guitarrista (Bryan MacLean) seja uma influência. Mas quando vou pro estúdio é importante pra mim não carregar todas essas referências, eu preciso me sentir livre pra poder criar, senão posso ficar preso a isso. Em geral, o que me inspira a tocar guitarra são o Elias, Dan, Jakob e Casper. Agora com a entrada do Casper na banda, ele sendo o outro guitarrista, tocar com ele me inspira muito e me ajuda a expandir o jeito que eu toco, o que é importante.

“Dear Saint Cecília” foi um dos pontos altos do álbum enquanto eu ouvia. Essa faixa me lembra a energia do Exile on Main St. dos Rolling Stones. Pelo o que eu sei, Santa Cecília é a padroeira dos músicos e achei muito interessante essa ligação entre uma atmosfera festiva da canção atrelada à imagem sagrada de Santa Cecília. De onde veio a ideia?

Sobre a letra eu não posso falar muito, porque o Elias escreveu e eu não tinha lido até ela estar pronta. Como você disse, ela é a padroeira dos músicos e o Elias é bem preciso quanto à letra, ela tem essa energia celebratória e otimista que você comentou, mas ele tá chamando por algo que está faltando, sabe? Acho que funcionam bem essas ideias juntas.  

“The Holding Hand”, a primeira faixa que vocês mostraram do álbum, é uma música com uma escalada épica. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, mas é tudo tão bem orquestrado, é muito bonito. Qual foi a ideia inicial?

Essa música começou com um teclado antigo barato que tinha um padrão de batida de bateria. O Elias gravou esses acordes e depois não sabíamos como moldá-los antes de entrar em estúdio. Tínhamos a parte “bombástica” de todos tocando juntos, mas fundi-la com a introdução foi meio que um longo processo. Estávamos trabalhando no estúdio e acabamos fazendo a primeira parte da música que é toda feita em um órgão antigo, a seção rítmica é feita nesse órgão, eu não sei exatamente qual o nome dele. Bom, mas queríamos dar pra essa música aquela sensação longa e arrastada de algo nunca realmente começando e depois uma explosão abrupta. Acho que foi isso que tínhamos em mente.

Vocês foram muito importantes e influentes para criar esse cenário/ambiente de bandas como Shame, Fontaines D.C. e outras dessa nova geração que transitam pelo post-punk, punk e algumas outras vertentes desse universo musical. Em janeiro, o New Brigade, seu álbum de estreia, fez 10 anos. Por curiosidade, queria saber quando foi a última vez que você o ouviu. E também entender… como você se sente sobre esse décimo aniversário, sabendo que sua música influenciou e ainda influencia outras bandas?

Falo de um lugar com muita humildade, que bandas que se sintam influenciadas e inspiradas por nós… bom, eu só tenho a agradecer muito. E eu não ouço o New Brigade desde que ele saiu, mas saber que a gente de alguma maneira inspirou bandas, especialmente gente boa como essas, é muito especial. E sobre esse aniversário, bom, são 10 anos da estreia, mas a gente se conhece tem uns 20 anos, e eu acho que tiro disso que é legal demais a gente ser tão amigos e tão próximos depois de 10 anos tão tumultuados estando na estrada e gravando. É, isso é o que eu tiro desse tempo, e sou agradecido por continuarmos com esse pacto de fazermos juntos o que tem valor pra nós.

No FFW nosso assunto principal é moda, então queria saber um pouco sobre como você gosta de se vestir. Eu particularmente gosto do jeito que vocês todos se vestem, é elegante mas é cool, e eu diria atemporal. Qual é a sua relação com as roupas? Acredita que sejam uma expressão dos seus sentimentos?

Eu não sei se é uma expressão dos meus sentimentos, mas eu amo roupas, na real eu gosto até um pouco demais, eu já gastei muito dinheiro comprando roupas (confessa rindo). Eu principalmente vou em brechós porque comprar roupa é caro. Gosto de ter um guarda-roupas bem diverso, que me dá a possibilidade de ser uma pessoa diferente a cada dia, o que eu acho muito legal.

Para finalizar, você conhece/gosta de música brasileira?

Espero não estar errado, mas o Caetano Veloso é brasileiro, certo? Eu gosto muito dele. Esperamos ir pro Brasil em algum momento, faz muito tempo que queremos ir, tomara que não demore. 

“Seek Shelter” é um lançamento da Mexican Summer.


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