JUNGLE fala ao FFW sobre o terceiro álbum “Loving In Stereo”

A banda volta ao tempo em que tudo começou, a brincadeira entre dois amigos adolescentes que amavam Strokes.

os londrinos Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland do Jungle
os londrinos Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland do Jungle

Por Isadora Almeida

O Jungle apareceu no – já longínquo – ano de 2013 com o clipe de “Platoon”, no qual uma menina de seis anos dançando break fisgou a atenção de muita gente. Foi este vídeo viral, que colocou o coletivo misterioso, na verdade duo, formado pelos londrinos Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland, na cena musical mundial. O álbum de estreia Jungle, lançado um mês após o clipe, só confirmou que eles eram muito mais do que o hype. Clipes, estética, roupas, a mistura de pessoas no palco, tudo dava mais insumo para que eles construíssem uma carreira sólida baseada em um som timeless que mistura neo-soul, funk, eletrônica, hip hop e vai além. Deu certo. “A gente cresceu ouvindo muita coisa, muito Red Hot Chilli Peppers, meio engraçado lembrar disso, Rage Against The Machine. Na escola descobrimos Marvin Gaye, o Pet Sounds (The Beach Boys), aí depois muito hip-hop underground e instrumental, J Dilla, Knxwledge, as coisas que saem pela Stones Throw”, conta Josh Lloyd-Watson em entrevista ao FFW.

Deixando para trás o segundo trabalho, For Ever (2018), chegamos ao lançamento do dia, o ótimo Loving In Stereo (2021). Para o novo trabalho, eles voltam mais ao tempo em que tudo começou, a brincadeira entre dois amigos adolescentes que amavam Strokes. “O álbum três eu acho que é para se sentir livre. É tipo um lugar natural de se estar, não teve medo envolvido. No primeiro álbum é aquilo ‘o que estamos fazendo?’. Tipo um sentimento de ingenuidade, é o que você sempre quis na vida, sabe? Com o segundo álbum foi ‘bom, a gente tem que manter isso’, e no terceiro álbum foi ‘na real a gente não tem que fazer nada, a gente só tem que ser a gente mesmo’.” 

O som da capital inglesa neste verão 2021 (pós-vacina)? Há de ser Loving In Stereo. São quatorze faixas que trazem a energia da cidade em um verão ensolarado, ainda que com algumas nuvens no céu. É um tipo de sensação comedida, uma alegria que não atinge a explosão total, e nem precisa. “Acho que a maior parte do álbum veio antes da pandemia, então ela nos deu essa desculpa para descansarmos e não terminar correndo, ir ‘cozinhando’ o que tínhamos por um bom tempo. Queríamos criar músicas que fossem divertidas para se tocar ao vivo, na real era fazer músicas que a gente realmente curte. No For Ever teve uma coisa meio emotiva e pro Loving In Stereo não queríamos isso, é só uma parada de se sentir bem, uma energia positiva.” 

No primeiro álbum é aquilo ‘o que estamos fazendo?’. Tipo um sentimento de ingenuidade, é o que você sempre quis na vida, sabe? Com o segundo álbum foi ‘bom, a gente tem que manter isso’, e no terceiro álbum foi ‘na real a gente não tem que fazer nada, a gente só tem que ser a gente mesmo’.” Josh Lloyd-Watson

Ainda sobre energia positiva do trabalho, o nome sintetiza mais do que uma ideia em específico, é mais sobre o significado de tudo o que os amigos construíram nos quase dez anos de carreira. “O título veio de uma música que eu e o Tom escrevemos quando a gente tinha quatorze anos de idade. Foi uma das primeiras que escrevemos na guitarra, logo que a gente se conheceu, e esse nome ficou preso na gente, ele é cativante e soa como o título de algum álbum dos anos 1990 tipo do Bomfunk Mc’s. Acho que não tem um super significado, ele é catártico porque me lembra da nossa longa amizade. Dá para ler de várias maneiras, mas a real é que escolhemos porque é uma música que fizemos quando éramos crianças. É tipo um ciclo completo, a primeira coisa que fizemos juntos e esta é a última, talvez”, diz Josh em tom sarcástico.

O primeiro single que inaugurou a nova era é “KEEP MOVING”, que veio acompanhado de um clipe, como de praxe, lindo e cheio de dança. “Ela é como um hino para gente, não importa o que aconteça você tem que seguir, tipo no segundo álbum tinha a parada de falar sobre Los Angeles, sobre esse lugar diferente da nossa casa. Acho que ‘KEEP MOVING’ vem para dizer que precisamos sempre mudar de ares, mas voltar. Acho que é a metáfora mais forte ali. E tudo que está acontecendo no mundo, as pessoas podem se identificar com isso.”

Ainda sobre a cidade que é a casa do Jungle, Londres em 2021 além da cena post-punk que veio em peso com ótimos lançamentos. O SAULT, esse sim, um coletivo misterioso que desde 2019 vem lançando álbuns aclamados pela imprensa e público alternativo, é o que há de mais expressivo musicalmente em muito tempo. Uma das pistas que se tem é de que o produtor Inflo está envolvido no projeto. É como diz o ditado: onde tem fumaça tem fogo, e com o Jungle não seria diferente. “O Inflo é um amigo de longa data, ele trabalhou em algumas coisas no nosso segundo álbum. Ele é um gênio, é uma luz que guia, sabe? Trabalhamos com ele em L.A na faixa ‘Talk About It’ e ele falou muito pra gente deixar as coisas rolarem, não ficar pensando muito. Eu diria que ele não está diretamente ligado à produção do álbum, mas ajudou muito porque existe essa coisa de sermos dois criadores, meio coisa de irmão de um querer impressionar ao outro, acho que ele ajudou nesse sentido de nos guiar e não pensarmos muito.”

A idade e experiência deixaram Josh e Tom mais tranquilos em suas próprias peles, o que é visível além da música em si. Eles tiveram coragem e determinação de deixar o casting da XL Recordings, uma das gravadoras mais respeitadas do mundo, para lançarem a Caiola Records. “Toda a coisa do mundo independente é maravilhosa. No começo você tem que ter o apoio de uma grande gravadora para você conseguir ‘funcionar’, tipo, para que as pessoas cheguem até seu som. Mas a gente é muito sortudo de ter fãs e agora podemos ser donos da nossa música, sabe? Não precisamos da influência de uma grande gravadora, isso nos dá liberdade criativa, o que é o melhor cenário.”

Duas das melhores faixas da carreira da banda estão em sequência no novo disco, nas faixas três e quatro: “All Of The Time” e “Romeo”. A primeira soa fresh ao mesmo tempo que empoeirada. Tem um sample perfeito, que não é sample. Já “Romeo” é o encontro perfeito do Jungle com o hip-hop e o rapper Bas. É um 10/10. “A gente estava fazendo uma mixtape com umas paradas hip-hop, pensando que faríamos um álbum com várias participações. Na real foi meu primo que fez a batida de ‘Romeo’, e o Bas a gente conheceu em Coney Island em Nova York, estávamos tocando no mesmo festival e ele veio no backstage falar que tinha curtido nosso som e que quando estivesse em Londres era para gente se encontrar. A gente estava em estúdio quando ele passou pela cidade, mostramos a base e ele colocou um verso e foi isso. ‘All Of The Time’ veio de uma jam no Church Studio e foi bem natural, na minha cabeça eu queria usar samples, mas que tivesse aquele sentimento de dúvida ‘isso é um sample?’, que tivesse uma energia empoeirada, músicas que soam como se fossem antigas, mas elas são muito novas para serem velhas. Sentimento de não ter uma data e de que você já ouviu antes”, confessa Josh. 

Loving In Stereo traz novamente o core dos jovens, o tipo de música que não te deixa ficar parado, ela conversa diretamente com seus movimentos involuntários. Talvez seja a proposta dessa música que eleva o espírito, mais uma vez executada com excelência. “Eu acho que dança é a nossa expressão definitiva. Mesmo que eu não dance bem, eu entendo os aspectos espirituais da coisa, não está muito na nossa cabeça, é uma coisa de se conectar ao nosso corpo, pode ser meditando ou dançando. Acho que as pessoas que têm essa conexão com o corpo podem dançar muito bem, e sinto que como não tenho essa conexão com o meu corpo, não consigo dançar muito bem. Mas você tem que passar por isso para dançar bem, tipo uma jornada espiritual. Ver uma galera dançando muito bem você fica ‘caramba, eles devem ser muito conscientes dos seus corpos’, e acho que é isso, quanto mais a gente tentar se desligar da nossa cabeça e se ligar ao nosso corpo, o mundo seria um lugar melhor”.

Sobre os planos futuros, o Brasil está na lista. “O Brasil é um lugar incrível de se estar, eu lembro muito do show em São Paulo quando o Ronaldo estava vendo do lado do palco, foi meio ‘que demais isso!’. O público é muito receptivo, a gente curtiu muito estar aí todas as vezes e, se for possível, com certeza ano que vem queremos fazer mais shows.”

Enquanto um show no Brasil não vem fique com uma live do Jungle para sentir o gostinho de vê-los no palco.


Relacionados


Veja Também

Assine a newsletter do FFW

Seja o primeiro a ter acesso a conteúdos exclusivos. Nós chegaremos ao seu email semanalmente quando tivermos algo realmente cool e relevante para dividir.

×