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    Da periferia para a periferia: O fenômeno do funk paulista

    Dos bailes e festas brasileiras ao cenário internacional

    Da periferia para a periferia: O fenômeno do funk paulista

    Dos bailes e festas brasileiras ao cenário internacional

    POR Laura Budin

    Sonoridade underground, batidas eletrônicas e trilha sonora dos bailes funks de periferia, o funk paulista vem conquistando novos ouvintes – e principalmente, novos ambientes. Não conhecido por seu fator comercial, ou seja, de difícil acesso quando comparados aos hits cariocas tocados em rádios e festas pelo Brasil, o funk paulista chama atenção por sua retomada à música eletrônica dentro de gêneros brasileiros, principalmente por DJ’s. Paredões coloridos, roupas de marca, apresentações coreografadas com dançarinos vestidos de palhaço e uma estética ‘‘sombria’’ são alguns dos inúmeros pontos que fazem do funk paulista único dentro do gênero.

    Hoje, o FFW te conta por que o funk paulista é um dos ritmos musicais brasileiros mais interessantes dos últimos anos.

    Propagação pelos DJ’s
    Conhecidos como os maiores responsáveis pelo hits mais populares e as divulgações do funk paulista mundo à fora, os DJ’s vêm se tornando protagonistas de uma cena que antes era composta, em sua maioria, por MCs. Com mais liberdade criativa e embalando festas de comunidade como o Baile da D17, da Marcone e do Helipa, além de eventos como Submundo 808, Pankas e Batekoo com seus remixes e tags musicais super conhecidas, esses profissionais acabam levando a sonoridade para abordagens mais eletrônicas e do underground quando falamos de um ritmo mais conhecido em vertentes cariocas.

    DJ Caio Prince

    Nascido em São Paulo, DJ Caio Prince, 23, sempre esteve inserido na música: de clarinetista em banda sinfônica aos 10 anos à dançarino de hip-hop aos 14, Caio começou a produzir música quando se inscreveu em um curso gratuito para DJs aos 19 anos e hoje é um dos nomes mais conhecidos da cena de funk paulista no Brasil.

    DJ Bassan

    Gaia Bassan, 26, conhecida também apenas por DJ Bassan, nasceu em Alvorada, no Rio Grande do Sul, e começou a tocar por meio dos ballrooms: ‘‘Eu fazia colagens musicais para apresentações de grupos de dança, consequentemente comecei a estudar discotecagem e tocar nas batalhas de vogue, conhecidas como as ball’s da cultura ballroom’’. Atualmente, além de fazer apresentações por todo o Brasil, Bassan também já é conhecida na cena paulista de eletrônica, tendo tocado em festas como Mamba Negra, Tijolo Records, Capslock, Masterplano e Coala Festival.

    Não é um novo ritmo…
    Apesar de parecer novo – com hits pelo Tik Tok e reconhecimento internacional – o funk paulista esteve presente na cena musical brasileira desde os anos 2000. O gênero, na verdade, já teve diversos nomes: de funk ostentação nos anos 2010’s com MCs como Mc Daleste e Mc Guimê ao funk mandelão.

    Para um ouvido desatento, o funk paulista pode passar como só mais um subgênero ou vertente dos ritmos agitados e melódicos do funk carioca, mas na verdade, faz referências a muitos outras sonoridades da música global: ‘‘Funk é música eletrônica brasileira, me lembra muito Club Music, Jersey Club, Kuduro. Eu comparo também com o PC Music, gênero que SOPHIE produzia, acho que pelas percussões metálicas, sons digitais e frequências sonoras, uso de muitos efeitos e samples’’, descreveu Bassan.

    Outro ritmo dentro do funk paulista que também tem crescido internacionalmente é a bruxaria, bastante divulgado pelo DJ K e seu álbum ‘‘Pânico no Submundo’’ – avaliado pela Pitchfork com nota 7.9. Experimental e sombrio, a bruxaria já foi até comparada à um subgênero do heavy metal por seus riffs de guitarra pesado: ‘‘Acredito que a bruxaria paulista é bem semelhante ao techno, acid e algumas outras vertentes da música eletrônica’’, relata Caio Prince.

    Mas afinal, quais são as diferenças entre o funk paulista e o funk carioca?
    Apesar de serem confundidos, suas sonoridades, como havíamos explicado, são bem diferentes. Tendo isso como base, as festas, o público, as vestimentas e até o jeito de dançar são impactados pelas diferenças sonoras aplicadas a cada gênero:

    ‘‘Na minha visão, dos DJ ‘s à musicalidade, da estética à como tudo funciona, dá pra diferenciar através das roupas, nitidamente, e de como a música conduz o baile e o público. No Rio de Janeiro o ritmo é mais acelerado, clima de calor, os passinhos, as rodas de dança e os MC ‘s interagindo com o público. Você vê mais corpo, suor e acessórios como chinelo Kenner, suporte de Iphone na cintura, muitas correntes de ouro e camiseta de time. Já em São Paulo você se depara com muita informação visual e sonora, na mistura dos paredões de som coloridos e iluminados, às diferentes combinações e sobreposições de roupas, das camisetas de várzea, até a ostentação de roupas de marcas que são consideradas artigos de relíquia no baile como, Ed Hardy, Christian Audigier, Oakley, Planet Girls. Eu acho que é tudo bem diferente’’, explica DJ Bassan.

    Além disso, apesar do funk paulista também ter nascido e fazer parte da cultura de baile periférico, o ritmo ainda é visto muito mais como uma vertente da música eletrônica do que do funk de fato – principalmente, porque é, na maioria das vezes, comparados aos ritmos cariocas: ‘‘Um exemplo é se formos para uma festa no Rio de Janeiro, o funk paulista será muito mais acolhido numa festa de eletrônica do que numa festa de funk. Há um grande bairrismo em relação a isso, mas vejo que também é uma questão de tempo, até porque a galera precisa de tempo para conhecer novas paradas’’, relata DJ Caio Prince.

    Nas redes e no mundo
    Desbravado cada vez mais pelos bailes e festas brasileiras, o funk paulista também tem tido grande reconhecimento no cenário internacional. O exemplo mais recente foi a coletânea ‘‘funk.BR – São Paulo (NTS)’’ criada pela rádio londrina NTS com editorial feito pelo Mile Lab, laboratório de criação e pesquisa de moda marginal do Grajaú, Zona Sul de São Paulo. A coletânea conta com artistas como MU540, DJ Arana, DJ Dayeh, DJ Blakes, DJ Léo da 17, DJ K, Deekapz, entre outros nomes da cena paulista, e apresenta faixas exclusivas criadas para o projeto.

    ‘‘São Paulo construiu uma reputação por sua produção de funk de confronto na última década, sublinhada pelo surgimento do som mandelão. Esta variedade desenfreada de baile funk é feita sob medida para as festas de favela – bailes ou fluxos – da megalópole brasileira. Esta coleção de 22 faixas de músicas inéditas encontra produtores famosos ao lado de figuras fortes da cena e ícones nacionais. Tudo serve para fornecer um retrato vital da magia musical desta cidade sensacional’’, relata a NTS Radio em release oficial.

    Nas redes sociais, o funk paulista também é reconhecido em projetos como a série documental The Beat Diáspora, produzida pela KondZilla, além do programa de residência artística do PerifaCon viabilizado pelo Programa Funarte Retomada 2023 – Artes Visuais (Fundação Nacional de Artes) que tem como ‘‘objetivo evidenciar o funk paulista e a cultura pop nas periferias de São Paulo’’ selecionando 10 jovens artistas periféricos que serão ensinados sobre técnicas visuais e imersos no universo do funk.

    E hoje?
    Atualmente, é cada vez mais fácil encontrar o funk paulista inserido em festas e bailes espalhados pelo Brasil, e perceber que o público está cada vez mais diverso. A globalização do gênero musical vem, principalmente, pela liberdade sonora e criativa encontrada nos ritmos, e consequentemente, pelo poder de conquista maior que subgêneros mais nichados.

    ‘‘O funk vem cada vez mais ganhando notoriedade dentro e fora do nosso país, fazendo com que outros públicos além da favela consumam esse estilo musical. Então vejo que a cena clubber/underground vem sendo ocupada pelo movimento do funk, não só sonoramente, mas como cultura geral em si. As pessoas estão se vestindo como funkeiros, vivendo como funkeiros (risos) e realmente o funk está dominando tudo e virando até mesmo um estilo de vida’’, explica DJ Caio Prince.

    https://www.instagram.com/p/C584fdOrEIv/

    Da periferia para a periferia
    É importante enfatizar que apesar de ser um gênero brasileiro, o funk paulista ainda tem seus maneirismos e produções feitas para a periferia: os bailes acontecem nas periferias, as músicas são feitas nas periferias e, principalmente, os artistas nascem nas periferias. Globalizar o gênero, não o torna menos periférico, só transporta um pedaço pequeno das vivências do artistas para ambientes que os sons ainda não tinham chegado.

    ‘‘A globalização do Funk é uma realidade e o ritmo de São Paulo tem alcançado grandes públicos, com o TikTok e as playlists de funk do Spotify, consequentemente, alcançou públicos que não frequentam o baile funk e curtem o gênero. Mas a essência de produzir e consumir o funk permanece forte nas favelas’’, relata DJ Bassan.

    É fácil cair na tentação de falar que o funk paulista, ou até mesmo o funk em geral, seja um ritmo ‘‘menos brasileiro’’ por conta de suas letras, sonoridade e público, no entanto, a grande sacada para entender o gênero, é perceber que talvez ele só não seja o que você está acostumado a ouvir:

    ‘‘O funk, assim como outros gêneros musicais, possuem músicas com letras explícitas. O grande problema é que pelo funk se tratar de um gênero periférico, de pessoas pretas, o incômodo é muito maior. E claro que não podemos culpar o funk por isso, até porque ele reproduz o que é presente na sociedade. Então acredito que a presença de mais mulheres e pessoas LGBTQIAP+ no funk, faz com que essas reproduções heteronormativas e machistas sejam diminuídas, e que outras narrativas e vivências sejam contadas através de outros pontos de vista. Um grande exemplo, são as Irmãs de Pau, travestis que fazem funk há alguns anos e vem movimentando a cena do funk’’, explica DJ Caio Prince.

    DJ Bassan, extremamente reconhecida na cena paulista e brasileira como artista, DJ e mulher trans, explica um pouco de como isso se relaciona com suas próprias experiências:
    ‘‘É 8 ou 80, isso ainda é uma questão dentro da cultura e das quebradas, por justamente ser um assunto que não é falado, a representatividade desses corpos nos bailes, nas músicas, nos clipes, nas produções e o preconceito, que sim, ainda existe. Ainda me sinto sozinha nesse caminho, mas é um trabalho coletivo, sinto que tem muito respeito pelo o que eu faço e como eu faço e entendo que minha presença ali é crucial para que se tenha um imaginário de nós, pessoas trans, nesse espaço, que seja além do óbvio, tipo eu sou trans e faço a mesma coisa que vocês. Eu tenho minha rede de apoio dentro do funk, mas ainda sim existem preconceitos enraizados no geral que nossa presença pode quebrar esses tabus. Como disse, me sinto meio sozinha, mas com muita disposição para fazer esse trabalho de formiguinha, de abrir portas, representar e trocar de igual para igual, para que seja confortável para as próximas pessoas trans que estão a ocupar esse espaço também’’.

    Para conhecer mais
    Se você ficou curioso para descobrir mais sobre o funk paulista, aqui vão algumas recomendações do DJ Caio Prince e da DJ Bassan:

    Bailes: Baile do Bega, Baile do Helipa, Marcone, Pantanal ZS, Rua do Meio (Baixada Santista), Amaravati e outros.
    Festas: Pankas, Ralachão, Batekoo, Submundo 808, Fuck Party, Estora Caixa, Trevvo, Perifa no Toque
    Música:
    BRUXARIA BONDE DA ZONA SUL – DJ DAYEH , CAIO PRINCE , BONEKINHA IRAQUIANA e MU540
    Set:
    DJ BASSAN NA SUBMUNDO 808

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