24.04.2017 / por

O encontro com Lagerfeld, a aceitação de sua beleza e mais sobre a nova sensação Linda Helena

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Por Guilherme Meneghetti

Guarde este nome: Linda Helena. A modelo de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, começou a trabalhar aos 15 anos e hoje, aos 20, integra o casting de uma das maiores agências do mundo, a IMG Models (a mesma de Alessandra Ambrósio e das irmãs Hadid). Seus traços fortes e sua personalidade chamaram a atenção de nomes grandes do mercado e só na última semana de Paris, desfilou para Chanel, Saint Laurent e Hermès. No Brasil, ela amou trabalhar com Vitorino Campos, seu estilista preferido.

Linda não é estranha do FFW. No mais recente ranking de 25 modelos do FFW Model, ela aparece em 14° lugar; tinha acabado de pegar a campanha da Saint Laurent. Antes ainda, em 2015, Higor Bastos já havia feito uma matéria apostando na modelo. Na época ela disse que sonhava em trabalhar com Karl Lagerfeld e Anna Wintour e mal poderia imaginar que poucos anos mais tarde, seu sonho seria realizado. Ela foi descrita pela Vogue americana como “andrógina e eclética”.

Linda é doce, divertida, simpática e transmite força e atitude. Hoje, ela mora em Nova York com seu namorado e está totalmente focada na carreira. Conversamos com ela por telefone, que nos contou sobre a sua carreira, desde o início em Mato Grosso do Sul ao primeiro encontro com Lagerfeld e ainda sobre ser confundida por transsexual. “Já recebi perguntas do tipo: ‘você se sente constrangida por parecer uma transexual?’. Sabe, não vejo problema nenhum em ser confundida com uma trans, mas essa pergunta me ofendeu: até quando haverá pessoas que pensam assim?”.

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FRUITS, Sicky Mag ©Ivan Resnik/Reprodução

Você tinha esse sonho, ser modelo?

Eu era um “bicho solto”, vivia andando descalça, em cima das árvores. Às vezes pegava as roupas da minha mãe, passava batom vermelho e ficava desfilando dentro de casa. Mas meu sonho não era ser modelo, gostava de curtir a natureza, ser livre, simples e sem vaidades. As pessoas diziam que eu era magrinha e que deveria me tornar modelo. Saí de casa aos 15 anos, foi quando tive a minha primeira experiência como modelo. Hoje sou apaixonada pelo que faço.

Como foi o início de sua carreira em Mato Grosso?

Foi tudo por acaso. Eu ajudava uma vizinha, cuidava de seu bebê, já que ela havia sofrido um grave acidente e não podia andar. Quando ela se recuperou, nos levou para almoçar num restaurante e lá fui abordada por um olheiro. Depois de muita insistência, fui a São Paulo com a minha mãe. Minha avó era professora e foi totalmente contra isso, pois não queria que eu deixasse a escola. Completando 16 anos, mudei definitivamente para SP, onde continuei meus estudos, tentando conciliar com a vida de modelo. E aí, nesse período eu soube que a IMG Models mostrou interesse em me representar e me ofereceu um contrato para iniciar uma temporada em Paris.

Saint Laurent Paris - Inverno 2017 Março 2017 foto: FOTOSITE
Linda no desfile Inverno 18 da Saint Laurent ©Agência Fotosite

Qual foi seu primeiro trabalho fora do Brasil?

Passei uma temporada na Argentina, estava com minha mãe, e lá fui confirmada para um shooting. Não sabia detalhes, apenas fui. Depois, a surpresa foi enorme quando, enquanto passávamos por uma banca, nos deparamos com o meu rosto estampado na capa de uma revista! Morri de felicidade!

Como a sua família lidou com isso?

Minha avó não queria que eu apostasse num futuro incerto, mas mesmo assim, sempre tive todo o apoio que ela podia me dar. Quando viajei pela primeira vez, era tudo mais complicado, não entendia muita coisa, tudo muito novo. Minha mãe me acompanhou em algumas viagens, mas logo engravidou da minha irmãzinha e não pôde mais me acompanhar. Em compensação, ganhei o mundo, adquiri – e ainda estou adquirindo, na verdade – as melhores experiências da minha vida.

Em pouco tempo de carreira, você já trabalhou com alguns dos principais nomes da moda.

Sim, com Karl Lagerfeld, Donatella Versace, Anna Wintour, Anthony Vaccarello, Nadège Vanhee-Cybulski (Hermès), Marco Zanini (Rochas Paris), Andreas Melbostad (Diesel), Vitorino Campos (meu preferido ever!), Cindi Leive, Pedro Sales e Zee Nunes. Tenho muito a agradecer em especial ao Higor Bastos, do FFW Models, que é um irmão para mim, sempre me motivou em tudo e esteve presente nos momentos mais difíceis – a carreira de modelo tem seus altos e baixos, e ele esteve sempre ali, comigo; meu agente internacional Emiliano; e meu agente no Brasil, Leonardo Gomes.

Chanel Paris - Inverno 2017 Março 2017 foto: FOTOSITE
Chanel, Inverno 18 ©Agência Fotosite

Nesta última temporada em Paris você desfilou para Saint Laurent e Chanel. Como foi trabalhar com Vaccarello e Lagerfeld?

Tenho bastante prazer em trabalhar com o Anthony. Ele é bem discreto, não fala muito, é uma pessoa cativante e, como todos podem ver, muito talentoso. Minha primeira campanha com ele durou cinco minutos. Tanto Anthony como Alastair [McKimm, stylist] respeitam completamente o bem estar das modelos – o que é crucial, visto que algumas pessoas esquecem que somos seres humanos. Como a Saint Laurent havia me fechado como semi exclusiva, eu passava o dia todo lá, praticamente. Já com Karl tive dois momentos. Como não pude fazer castings, fui diretamente ao fitting, fiquei super nervosa. Ele é um doce, me disse bonjour, conversou comigo em francês, aí lascou né [risos], não entendi muito bem. O call time do desfile era às 4h30 da manhã, e tudo era tão incrível que se confundia com sonho. No final do desfile, ele nos abraçou e agradeceu.

A Vogue US te descreveu como andrógina e eclética. Como você enxerga essas qualidades dentro da profissão?

Foi difícil para eu aceitar meu rosto masculino, tendo em vista que o perfil mais pedido não era bem o meu. Na verdade, acho que personalidade é tudo. Como disseram na entrevista que concedi à Vogue americana, não sou como as bombshell brasileiras, mas acreditei e fiz acontecer. O mundo está sempre em transição e hoje em dia a moda está aceitando melhor o conceito da igualdade. Imagino quanto foi difícil para a Lea T conquistar seu espaço – a admiro muito, aliás! Diversas vezes já acharam que eu era trans. Já recebi perguntas do tipo: “você se sente constrangida por parecer uma transexual?”. Sabe, não vejo problema nenhum em ser confundida com uma trans, mas essa pergunta me ofendeu: até quando haverá pessoas que pensam assim? Nunca entendi o porquê dessa diminuição. Contudo, uma modelo precisa compreender o perfil de cada cliente, marca, fotógrafo ou publicação e entender o que cada um espera. É mais atitude e dedicação do que apenas aparência. Se acham que sou andrógina e eclética, encaro como elogio. Quero apenas exercer meu trabalho e ser reconhecida como uma excelente profissional.

Você tem referências, outras modelos em quem se espelha?

As brasileiras são as melhores modelos do mundo! O Brasil é um país que recebeu tantos povos diferentes, talvez seja por isso, pela variedade de nossos perfis. Admiro a atitude e personalidade de Gisele Bündchen, Alessandra Ambrósio, Isabeli Fontana, Raquel Zimmermann, Adriana Lima, Lea T, Raica e tantas outras.

Saint Laurent Paris - Inverno 2017 Março 2017 foto: FOTOSITE
Saint Laurent, Inverno 18 ©Agência Fotosite

Hoje você vive em Nova York. Planeja voltar ao Brasil?

Claro! Quero voltar a morar no meu país. Mas agora meu foco é crescer profissionalmente. Existem muitas marcas, revistas e fotógrafos com quem quero trabalhar, como Steven Meisel, Mario Testino e Patrick Demarchelier – tenho uma lista enorme de profissionais, mas se tiver que escolher apenas um, é o Meisel – e morar em NY ajuda muito. Eu amo morar aqui, me mudei para cá com meu namorado em outubro do ano passado, e logo adotamos duas gatinhas. Então tenho minha própria família aqui. Assim que alcançar meus objetivos, quero voltar para Campo Grande, lá estão minhas raízes e tudo o que eu preciso. Não adianta fazer tantos planos na carreira de modelo, eu me jogo!


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