06.04.2017 / Arte / por

Parte da programação do Festival SP-Arte, exposição traz à tona transformações sociais com vítimas do desenvolvimento econômico

Uma das fotos da mostra, Catrimani, de Claudia Andujar ©Cortesia Galeria Vermelho
Uma das fotos da mostra, Catrimani, de Claudia Andujar ©Cortesia Galeria Vermelho

O cenário artístico é uma ótima válvula para reflexões, denúncias, registros, questionamentos e críticas de nosso tempo.  O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini é um exemplo daqueles que seguiram à risca tais princípios ao criticar em sua obra algumas das transformações sociais na Itália, além de registrar práticas culturais que ele percebera desaparecer gradativamente.

Por exemplo, O Evangelho Segundo São Mateus, filme de Pasolini de 1964, conta a história de Jesus a partir do texto de São Mateus. Com o filme, que foi muito criticado pela igreja católica quando lançado e 50 anos depois exaltado pelo Vaticano como o melhor filme sobre Jesus, Pasolini registrou e homenageou à sua maneira o catolicismo popular de sua época em um casting de não atores (prática recorrente nos filmes neorrealistas italianos) – a maioria, camponeses do sul da Itália que traziam no próprio rosto as marcas do trabalho pesado nos campos.

“São imagens de corpos e práticas culturais dissidentes em relação às então novas formas hegemônicas que se impunham à heterogeneidade das culturas italianas”, explica Gabriel Bossian, cocurador da exposição Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno, que abre hoje na Galeria Videobrasil como parte da programação do Festival SP-Arte.

Cais do Corpo, de Virginia de Medeiros ©Cortesia da artista e Galeria Nara Roesler
Cais do Corpo, Virginia de Medeiros ©Cortesia Virginia de Medeiros e Galeria Nara Roesler

Bossian, ao lado de Solange Farkas, curadora da mostra e diretora da Associação Cultural Videobrasil, parte desse pensamento do cineasta italiano, sobre transformações sociais e o desaparecimento de práticas culturais, transporta-o para o contexto brasileiro e se depara que, ao mesmo tempo em que as reformas urbanas na história do Brasil serviram para reorganizar os espaços das cidades, elas também causaram transformações sociais por faltarem com a premissa da inclusão, com diversos empreendimentos de infraestrutura inviabilizando modos de vida tradicionais para populações urbanas e até povos indígenas que seguem sob ameaça.

Por isso foi proposta essa espécie de etnografia de vítimas do desenvolvimento econômico com as obras de Caetano Dias, Miguel Rio Branco e Virgínia de Medeiros; por outro lado, com o título da mostra, emprestado da obra de Miguel Rio Branco, é trazida sob perspectiva crítica e heterodoxa a abordagem ao transe espiritual, emocional ou erótico do sexo e da morte, apresentando as obras de Gisele Motta e Leandro Lima, Claudia Andujar, Rodrigo Bueno, Rodrigo Braga e Runo Lagomarsino. “O repertório simbólico, resultado do diálogo proposto por estes artistas e sua relação com práticas religiosas não ocidentais, acaba por configurar um lugar de resistência de modos e formas de vida que permanecem, insistindo em afirmar sua força e, sobretudo, sua diferença”, aponta Bossian.

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Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno, Miguel Rio Branco ©Cortesia do artista e Galeria Millan

A mostra, que é gratuita e fica em cartaz até junho no Galpão VB, também conta com uma programação a fim de expandir os questionamentos propostos pela curadoria, com uma seleção de documentários produzidos por Thomaz Farkas, uma visita guiada pela exposição e pelo bairro da Vila Leopoldina, onde a galeria está localizada, e também uma conversa com o arquiteto e urbanista Paulo Tavares.

Sempre aos sábados, confira os detalhes das atividades gratuitas que compõem a programação da mostra:

Caravana Farkas

Com Solange Farkas e Gabriel Bogossian

Quando: 29 de abril, sábado, às 15h

Entre 1964 e 1980, o fotógrafo e empresário Thomaz Farkas produziu, em parceria com diferentes diretores brasileiros, um conjunto de mais de trinta documentários que ficou posteriormente conhecido como Caravana Farkas. Nessas obras, há tanto uma busca por revelar aspectos desconhecidos do presente quanto o desejo de registrar e documentar práticas culturais que estariam ameaçadas pelas transformações nos modos de vida de comunidades tradicionais no interior do país. Neste dia, será apresentado um recorte dessa produção, seguido de debate com o público.

Ativação de Emboaçava (lugar de passagem), de Rodrigo Bueno

Com Rodrigo Bueno. Mediação de Gabriel Bogossian

Quando: 20 de maio, sábado, às 15h

Única obra desenvolvida especialmente para Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno, o site specific Emboaçava (lugar de passagem), de Rodrigo Bueno, evoca o rico passado da Vila Leopoldina, onde está localizado o Galpão VB. Na região foi construído um dos primeiros fortes da cidade, o Trunqueira do Emboaçava, para conter os constantes ataques de índios à então Vila de Piratininga. Nessa ativação, o artista e o curador Gabriel Bogossian irão realizar uma visita guiada que começa em um trajeto pela exposição, explorando as relações entre as obras, e parte depois para um passeio a pé por lugares-chave da história do bairro, retornando ao Galpão para o encerramento da visita.

Conversa com Paulo Tavares

Com Paulo Tavares. Mediação de Gabriel Bogossian

Quando: 10 de junho, sábado, às 15h

Doutor pelo Goldsmith College e colaborador do Forensic Architecture, o arquiteto e pesquisador brasileiro Paulo Tavares vem desenvolvendo nos últimos anos uma investigação que aproxima arqueologia, urbanismo e antropologia para refletir sobre as articulações possíveis entre patrimônio cultural e direitos de povos e comunidades tradicionais. No último dos programas públicos de Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno, Tavares irá relatar suas recentes experiências no Equador e no Brasil em uma conversa com o público mediada pelo curador Gabriel Bogossian.

Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno permanece em cartaz na Galeria Videobrasil, em São Paulo, até 17 de junho, com entrada gratuita.


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