Clean beauty: muito além das fórmulas

Produtos com refil, apoio a cooperativas de reciclagem, fórmulas waterless: as inovações que levam o conceito de sustentabilidade na indústria da beleza para muito além das fórmulas clean.

Por Laís Andrade, do @cherryglossbr

No início dos anos 90, o movimento de “clean beauty” começava a ensaiar seus primeiros passos nos Estados Unidos. Redes de supermercados focados em produtos orgânicos, como a Whole Foods (adquirida em 2017 pela Amazon), passaram a disponibilizar em suas prateleiras desodorantes livres de alumínio e sabonetes caseiros feitos por pequenos produtores. De lá pra cá, o mercado dos produtos com fórmulas “clean” sofreu um boom: enquanto especialistas preveem que a indústria da beleza tradicional crescerá a uma média de 4,7% ao ano até 2026, o crescimento da indústria da “clean beauty” será mais que o dobro: a previsão é de um aumento de faturamento de 12% ao ano.

Afinal, o que é “clean” na beleza?

Embora em constante evolução, o movimento da tal “beleza limpa” ainda não conseguiu resolver uma das principais questões que estão na base de sua fundação: a definição legal, única e absoluta do que, afinal, pode ser considerado um produto “clean”. Muitos esforços de fabricantes, fornecedores de insumos e varejistas da indústria estão sendo feitos para definir de uma vez por todas quais ingredientes são autorizados e quais devem ficar de fora para que uma formulação seja considerada “clean”. O problema é que, diferentemente de classificações como “orgânico” ou “cruelty free”, não existe nenhum órgão regulador que certifique se um determinado produto atende ou não os parâmetros do “clean” – afinal, tal definição não é um consenso entre a indústria e a comunidade científica, e depende da legislação sanitária de cada país. 

A marca Drunk Elephant, uma das pioneiras no universo da “clean beauty”, possui uma filosofia de “biocompatibilidade” e uma lista nomeada de “The Suspicious 6”, com 6 classes de ingredientes proibidos em suas formulações. “Acreditamos que esses seis ingredientes estão na raiz de quase todos os problemas da pele, e quando eles são removidos totalmente da sua rotina, sua pele pode voltar a sua versão mais saudável e balanceada”, afirma o manifesto no site da marca. Por outro lado, a “Dirty List” da varejista americana Credo Beauty, que define os itens que não podem estar nas formulações de um produto para que ele possa ser comercializado em suas concorridas prateleiras, conta atualmente com 2.700 ingredientes específicos. Uma é melhor que a outra? Não necessariamente, pois é preciso analisar os parâmetros para cada classificação, bem como as pesquisas científicas em que cada uma dessas proibições foi embasada. Um verdadeiro nó, difícil de desfazer. 

Além da questão da falta de definição legal do termo, existe um problema ainda maior no mercado da clean beauty, relativo à sua abordagem muitas vezes simplista da problemática ambiental, que muitas vezes desconsidera os impactos causados pela produção, comercialização e descarte de um produto de beleza – e que vão muito além dos ingredientes usados em suas fórmulas.

O que observamos atualmente, é que muitas marcas buscam afirmar que são “sustentáveis” apenas apostando em fórmulas “limpas”, evitando o uso de alguns ingredientes químicos e esquecendo-se de todo o resto. Por mais que um produto seja totalmente livre de parabenos, sulfatos e silicones, ele ainda assim precisa ser produzido, envasado, transportado, comercializado, consumido e descartado. E muitas marcas, numa clara estratégia de greenwashing, se focam apenas na questão da formulação clean, deixando todo o resto em segundo plano. Pior: acreditam que, por oferecerem fórmulas limpas, já estão “fazendo a sua parte” por uma indústria da beleza mais “verde”, isentando-se de tantas outras ações essenciais para poderem se considerar, de fato, sustentáveis. Afinal, se pegarmos a definição oficial sobre sustentabilidade, ela significa satisfazer as necessidades das gerações atuais (considerando uso de recursos naturais) sem, no entanto, comprometer a possibilidade de tais necessidades serem satisfeitas pelas gerações futuras. A água utilizada deve retornar limpa para o meio ambiente; os resíduos gerados no processo devem ser manejados de forma ambientalmente adequada, e por aí em diante.

O lado nada bonito da beleza: um oceano de plástico

Um oceano de plástico / Foto: Angela Compagnone
Um oceano de plástico / Foto: Angela Compagnone

Um dos maiores impactos ambientais da indústria da beleza não está na composição de suas fórmulas, mas sim na maneira como elas são embaladas e descartadas após o uso. Anualmente são produzidas cerca de 151 bilhões de embalagens de produtos de beleza no mundo, sendo a grande maioria de plástico, o que, de acordo com o Euromonitor, representa um impacto ambiental gigantesco, já que essa indústria é responsável por 1/3 do plástico encontrado no ecossistema. Outro dado alarmante: apenas 14% de todas as embalagens de plástico produzidas no mundo são coletadas para a reciclagem, das quais apenas 5% acaba sendo realmente reciclada, devido a perdas durante o processo.

Números como esses apontam para uma triste realidade: a indústria da beleza se apoia muito na criação de embalagens recicláveis, sem, no entanto, se preocupar se a reciclagem ocorrerá de fato, nem oferecer mecanismos que facilitem o processo. Particularmente no Brasil, conhecemos bem a situação que isso gera: em 2019, um levantamento do Banco Mundial mostrou que somos o 4o maior produtor de lixo plástico do mundo, com 11,3 milhões de toneladas por ano – sendo que somente 22% dos municípios brasileiros têm algum tipo de coleta seletiva. Isso leva a uma estatística alarmante: apenas 1,28% dos resíduos recicláveis descartados no Brasil são, de fato, reciclados.

Muito além do reciclável

Por isso, de nada adianta as marcas de beleza afirmarem que suas embalagens são recicláveis. O esforço deve ir muito além para garantir que essa reciclagem será feita – e pode ocorrer de diversas maneiras. Uma delas é o apoio a iniciativas como a do Selo EuReciclo, que oferece a compensação ambiental aplicada à logística reversa das embalagens. Tais organizações foram inspiradas no modelo europeu, cujas iniciativas do tipo tornaram possível a reciclagem de 66% das embalagens descartadas em toda União Europeia. No Brasil, marcas de beleza como a Sallve, a Biossance, a Care e a The Chemist Look já colaboram com a iniciativa (para conferir todas as marcas que colaboram com o Selo Eu Reciclo clique aqui).

Outra iniciativa promissora relacionada a um uso mais consciente das embalagens de beleza, e que precisa de mais adeptos na indústria, é a dos produtos com refil. Para se ter uma ideia, se ela fosse adotada por toda a indústria, poderia eliminar até 70% das emissões de carbono do setor, de acordo com o LCA Center, instituto de pesquisa focado em embalagens e seus impactos. No Brasil, marcas como a  a Care, a Baims e a Simple Organic oferecem itens como blushes, bases, hidratantes e até um protetor solar em pó com embalagens que podem ser abastecidas por meio de um prático refil. E não dá pra falar em produtos de beleza com refil sem citar a pioneiríssima Natura, marca que oferece itens refiláveis desde 1983 – tal opção está presente atualmente em 30% de seu portfólio de produtos. Para além do setor da “clean beauty”, marcas de produtos de beleza de luxo como a Hermés e a Carolina Herrera também apostam na ideia, criando rebuscados cases de batons que parecem verdadeiras jóias, e que podem ser reabastecidas com refis. “Quando o refil é bem pensado, ele realmente elimina grande parte dos materiais que precisam ser extraídos e usados para a criação de um produto novo. Multiplicando isso para cada uso e compra do produto, podemos ver claramente como essa é uma opção vantajosa para o consumidor e o meio ambiente” afirma Mia Davis, vice-presidente de sustentabilidade da Credo Beauty.

Compre, use, traga de volta

Uma iniciativa mais antiga, mas que poderia ter mais adeptos na indústria da beleza, é a de oferecer pontos de coletas de embalagens vazias dentro das próprias lojas. Marcas como a Natura, o Boticário e a MAC já possuem programas do tipo, e com grandes vantagens para o consumidor: na MAC, por exemplo, através do programa “Back to Mac” você leva 6 embalagens vazias de produtos da marca e ganha um batom. Dessa forma, a marca garante a logística reversa da embalagem, responsabiliza-se pelos seus resíduos, e de quebra ainda tem a oportunidade de criar uma conexão mais forte com o consumidor, que precisará visitar a loja para deixar suas embalagens.

Garantindo a preservação da água, uma barra por vez

Um dado surpreendente sobre o uso da água nos produtos de beleza dá uma ideia do quanto poderia ser economizado com uma mudança de formatos: a proporção em média de água x ingrediente em um shampoo líquido é de 80% para 20%. Isso mesmo: 80% do shampoo que você compra é puramente água, o que leva a uma necessidade de utilização de embalagens plásticas pesadas e resistentes para contê-lo, gerando todos os problemas que citamos anteriormente. Isso demonstra claramente as vantagens dos inovadores produtos waterless, como os com formato em barra, que tem expandido sua presença no mercado brasileiro através de marcas como a B.o.B (Bars over Bottles), trazendo à tona uma importante discussão sobre nossos hábitos de consumo e nos fazendo repensar sobre o que é, de fato, essencial em um produto de beleza. 

Santuários de beleza

Como temos visto até aqui, a discussão sobre beleza sustentável vai muito além de fórmulas com ingredientes mais limpos. Um outro tipo de iniciativa que vem chamando a atenção na indústria leva em consideração justamente isso, e repensa toda a cadeia de suprimentos de um produto de beleza a partir de suas áreas de cultivo. Cases de “santuários ecológicos” criados e mantidos por algumas das mais importantes marcas de luxo do mundo mostram como esse tipo de iniciativa é promissora, e uma das tendências para o futuro da beleza sustentável.

Recentemente, a Chanel apresentou para a mídia internacional seu laboratório ao ar livre, uma área de 40 hectares em Gaujaq, no sudoeste da França, dedicada ao cultivo agroecológico das camélias vermelhas, principal ingrediente de sua nova linha de beleza, a No 1 de Chanel. Para propiciar o ambiente ideal de cultivo da flor, a marca não usa pesticidas, herbicidas nem fertilizantes químicos em suas plantações, e preserva o ecossistema local, contribuindo para a conservação da biodiversidade da região. E a sustentabilidade do uso da camélia foi muito além das fórmulas de skincare: suas cascas e sementes foram transformadas em tampas para os produtos da linha No 1. 

Outra marca de beleza que vem apostando na preservação de áreas naturais é a gigante Lancôme, que recentemente revelou seu Global Sustainability Program com diversas metas e ações a favor de um futuro mais sustentável. Uma delas é a  criação do Domaine de la Rose, um santuário para a biodiversidade em Grasse, onde serão cultivadas, de forma totalmente orgânica mais de 160 espécies de plantas aromáticas usadas em seus produtos. A meta do local é ser autossuficiente em energia e água, o que passa pela instalação de um sistema de recuperação da água usada na propriedade – iniciativa extremamente importante, considerando que o local fica na Côte d’Azur, região que tem sofrido períodos de seca cada vez mais intensos.

Beleza limpa de verdade: comprar menos e usar até o fim

Nenhuma discussão sobre sustentabilidade na indústria da beleza estaria completa se não abordasse o ponto mais crucial de todos: o excesso de consumo, o que leva a um enorme desperdício de produtos que estragam muito antes de acabarem.

Basta uma rápida reflexão para termos uma ideia do tamanho do problema. Qual foi a última vez que você conseguiu usar um batom até o final? Ou ver o fundo da embalagem de um blush em pó? A verdade é que o maior impacto que nós, consumidores, causamos no meio ambiente passa pelo consumismo desenfreado, e somente uma mudança de mentalidade pode alterar essa realidade. Para além de todas as iniciativas admiráveis citadas aqui, a ação mais sustentável de todas ainda é a de termos mais consciência sobre nosso consumo, comprando menos, usando os produtos até o final, ou mesmo trocando com amigos itens que não usamos mais. Afinal, um produto com fórmula clean, em uma embalagem reciclável e com refil ainda causa mais impacto ambiental do que produto nenhum.


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