15.10.2020 / Beleza / por

Potencialidades> Penteados afro: a história e seus cruzamentos na moda

Tamiris Silveira em backstage da Casa de Criadores | Foto: Camila Rivereto
Tamiris Silveira em backstage da Casa de Criadores | Foto: Camila Rivereto

Por Jal Vieira

Ao longo dos anos, temos passado por uma grande revolução capilar. O que antes se resumia a tratamentos químicos agressivos que nos ensinaram que nossos cabelos afro não eram bonitos tentando nos encaixar em padrões estéticos impostos socialmente, se transformou numa grande potencialização das nossas identidades e na percepção do quanto há de beleza em nossos cabelos naturais.

Nos libertamos cada vez mais com nossos volumes, tranças e penteados que carregavam em si nossa história. Isso também passou a se refletir, por exemplo, nas passarelas e editoriais de moda, por meio do trabalho de profissionais pretes da área que passaram a exaltar e visibilizar cada vez mais suas raízes e ancestralidade.

O que talvez algumas pessoas não saibam é a história que todos esses penteados carregam.

reprodução de fotos históricas
reprodução de fotos históricas

Desde a Pré-história, nas pinturas em cavernas, os cabelos eram registrados como maneira de identificação entre as pessoas, revelando seu papel social em meio a elas por meio de cores, tipos e texturas. Já no Egito antigo, nos hieróglifos, a cabeça significava o céu, devido ao seu formato circular. E, até hoje, representa o lugar mais sagrado do corpo entre os povos e culturas ao redor do mundo.

Há registros, por exemplo, de que as tranças nagô – um tipo de trança rasteira – são as mais antigas da história do continente africano. E no decorrer de todo esse percurso histórico, esses penteados também compunham inúmeros significados para identificação de grupos, religiões e posições na sociedade.

Durante a escravidão no Brasil, os penteados serviam também como ferramenta de sobrevivência. Cada desenho formado por tranças, por exemplo, funcionava como um mapa que carregava em si rotas de fuga para os escravos.

foto reprodução tumblr
foto reprodução tumblr

A importância do espaço da cabeça se transfere também às religiões. No candomblé, por exemplo, raspar a cabeça marca ritos de passagem e uma nova simbologia social dentro da religião. Aquele corpo, em si, é transformado, renascendo após a feitura do santo. A cabeça é o centro sagrado fundador e irradiador da iniciação onde se carrega o santo, pois este mora na cabeça. É a energia vital onde toda a força se concentra.

A potência que os penteados e sua origem têm, ficam claros, também, nos desfiles cada vez mais impactantes de estilistas pretes. Na última edição da São Paulo Fashion Week, Isaac Silva, ao lado de Virgínia Grazia e Vanessa Alves, da Styllus V&V, trouxeram história e potencialização para a passarela por meio dos penteados que ajudavam a compor todo o styling da marca. Os cabelos eram um ornamento que simbolizavam a realeza de cada um daqueles modeles que passavam por ali. E essa força era sentida por cada pessoa presente na plateia.

Desfile de Isaac Silva na SPFW |Foto: fotosite
Carmelita e Wesley Baiano no desfile de Isaac Silva na SPFW |Foto: fotosite

 

Desde os primórdios, os cabelos e penteados afro carregam em si simbologias e origens das quais descendemos. É um ledo engano achar que nossa história tem como ponto de partida a escravidão. Nosso povo tem a origem muito anterior a imposições hegemônicas. Ele nasce em reinos! E nosso cabelo, que também conta a nossa história, é nosso ornamento sagrado que nos faz lembrar todos os dias de que nós descendemos de reis e rainhas, e que, essa origem jamais poderá ser apagada.

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