20.09.2018 / Beleza / por

Você tem que conhecer o trabalho do jovem beauty artist brasileiro Koichi Sonoda

Koichi Sonoda © Cortesia
Koichi Sonoda © Cortesia

Por Guilherme Meneghetti

Quem viu o desfile da Amapô no SPFW N45 provavelmente irá se lembrar da beleza assinada por Lau Neves e do casting de amigos da estilista e convidados encontrados via internet. Alguns deles sabiam se maquiar e acabaram colaborando com Lau. Foi o caso de Koichi Sonoda, 22 anos, beauty artist, ilustrador e estilista que você precisa conhecer melhor.

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Koichi é de Itapetininga. Veio para São Paulo há quatro anos para fazer faculdade de moda e não voltou mais. Suas ilustrações remetem à arte japonesa e sempre mostram personalidades que ele admira. No início da faculdade, começou a se montar como drag queen e a maquiagem entrou em sua vida para nunca mais sair. Por conta do domínio das ilustrações, Koichi aplica algumas das técnicas na maquiagem e o resultado são makes artísticos incríveis e, muitas vezes, realista.

Ao longo desse processo teve que enfrentar resistência por parte da família, mas não desistiu. Seguiu em frente e, com a sua arte, foi parar na TV, no SPFW e na capa da extinta Elle Brasil. Até que conseguiu viver somente de seu trabalho artístico. Conversamos com Koichi por telefone para saber mais sobre sua história, técnicas, inspirações e referências.

Você sempre gostou de moda?

Acho que me interessei por moda quando comecei a gostar da Lady Gaga, em 2008, mais ou menos. Meu sonho era vesti-la algum dia, então comecei a desenhar e criar roupas e aí acabei fazendo a faculdade.

Foi durante a faculdade que descobriu que gostava de desenhar?

Não. Sempre desenhei, desde criança, mas desenhava coisa sem personalidade, entende? Fazia retrato, desenhava roupa, mas não tinha uma coisa de expressão, de expressar sentimentos.

Você ilustra personalidades como Lady Gaga, Pabllo Vittar e Jup do Bairro. São as pessoas que te inspiram? Quem mais te inspira?

São pessoas que me inspiram, sim. Acho que a Jup e a Pabllo, dentro da comunidade LGBTQI+ e artisticamente falando, admiro bastante e amo a representatividade que elas carregam. E quem me inspira, acho que outros artistas como Salvador Dalí, Frida Kahlo, Takato Yamamoto, Junji Ito e Shintaro Kago representam bem as coisas que eu gosto.

Quando foi a primeira vez que fez maquiagem?

Como toda criança viada – a louca (risos) –, como toda criança curiosa, a primeira vez que fiz maquiagem foi fuçando as coisas da minha mãe e brincando na frente do espelho. A primeira que eu me lembre foi quando eu fiz no rosto metade homem, metade mulher, acho que em 2011. Foi uma época em que eu estava me revelando gay pra minha família e fiz isso uma espécie de protesto, já pensando como um meio de expressão.

No entanto, a maquiagem entrou na minha vida mesmo quando comecei a fazer drag, em 2014. Eu me montei durante oito meses. Na época, eu estava na faculdade, que é algo que exige dinheiro, e começou a sair muito caro pra me montar, porque você tá ali montando outro guarda-roupa, comprando peruca, sapato, maquiagem, enfim, e aí parei. Depois disso, percebendo a falta que a maquiagem me fez, descobri que era mais uma forma de expressão além da ilustração – porque tudo na minha vida surgiu através da ilustração.

E em 2015 eu voltei a fazer make na festa de um amigo meu, a Le Freak, só que dessa vez num estilo mais no gender. Hoje não me considero drag porque não tenho minha persona drag, se eu me montar continuarei sendo Koichi Sonoda.


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Make que fiz no @vanfoxter ontem 👀💜✨ Quer uma make assim? Me chama no DM ✨

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Você começou a usar a maquiagem como uma forma de protesto. Por quê?

De uma maneira geral, quando comecei a me interessar por moda houve certa relutância, principalmente por parte do meu pai. Eu não era assumido gay, mas ele ligava o fato de eu querer fazer moda com ser gay. Então o preconceito era bem pesado, num nível de ele me chantagear pra eu parar de desenhar roupas. Mesmo assim continuei a fazer minhas coisas. Em 2012 me assumi, entrei num curso de costura escondido. Depois que me mudei pra São Paulo, consegui a bolsa na faculdade e isso ajudou bastante o processo. Nessa época meus pais já estavam mais tranquilos. Quando eu era drag, eles não sabiam. Toda minha família era bloqueada em redes sociais pra não ver. Eles só foram saber quando viram as maquiagens no gender, e houve certo estranhamento também. Eles me perguntavam: “O que é isso?”, “Pra que você fica se pintando?”, “Aonde você vai desse jeito?”. Até que as coisas foram acontecendo, eu apareci na televisão e acho que eles pensaram: “Opa! A bicha não está para brincadeira” (risos).

Que produtos você usa?

 Maquiagem em geral: base, sombra, batom, delineador… E o que eu tenho mais “artístico”, digamos assim, acho que é o clown, que é uma maquiagem pastosa, de várias cores, tipo make de palhaço? Às vezes também uso tinta facial, que é um pouquinho mais líquida. Em geral são produtos comuns. Uso bastante coisa da Catharine Hill, Nyx Cosmetics, Océane, MAC e Kryolan – são as principais marcas.

Qual é o grau de dificuldade de uma maquiagem dessas mais artísticas que você faz? 

 Não sei se a palavra certa é dificuldade. Eu vejo mais como uma questão trabalhosa, pensando nos processos e detalhes. Geralmente penso em todo um conceito e esboço no papel a ideia inicial. Por exemplo, se for um editorial de moda, vejo com o sytlist o que ele tá pensando e aí penso no conceito, desenho a maquiagem no papel, na maioria das vezes só com grafite, sem cor porque pode mudar depois, e então reproduzo a maquiagem no rosto. Esse é um processo que eu gosto de fazer, que eu me sinto à vontade e preparado, mas às vezes não dá e tem que fazer direto no rosto, no free style, o que eu particularmente não gosto tanto.

Quanto tempo demora, em média?

Varia muito conforme a complexidade da maquiagem. Em geral, no mínimo duas horas e meia. Já tive alguns casos que fiz em uma hora e meia. Mas, na maiorias das vezes, de duas horas pra cima.

Koichi Sonoda © Cortesia
Koichi Sonoda © Cortesia

Qual foi o make mais difícil que você já fez?

Tem algumas que foram muito demoradas. Eu nunca conto o tempo, na verdade. As pessoas me perguntam e eu sempre respondo duas horas pra mais, porque quando é auto maquiagem, principalmente, é um processo que você mergulha naquilo e se perde no tempo. No geral, acho que a maquiagem mais difícil que fiz até agora foi a da Isabeli Fontana para capa de 30 anos da Elle, em maio, por causa do tempo, por ser a Isabeli, a pressão que estava ali, enfim…

Você também faz make para quem quiser? Como funciona?

Sim, quem quiser. Me procuram pra festa, pra editorial de moda, publicidade… É só me mandar direct no Instagram.

Como é o mercado de trabalho pra quem faz esse tipo de make mais criativo e artístico?

Essa é uma pergunta um pouco complicada porque a minha maquiagem é algo muito específico, ela transita entre o editorial, o artístico e um pouquinho de “efeitos especiais” – entre aspas porque não uso prótese como normalmente as maquiagens de efeito especial usam. Por exemplo, maquiagem social: tem muito mais volume de trabalho. Já a maquiagem artística é um pouco mais difícil, não tem tanto volume assim. Mas, em relação à isso, aqui no Brasil está crescendo, né? A gente vê cada vez mais em publicidade, em revistas… Por isso vejo como um mercado bastante promissor, porém, ainda assim sinto a necessidade de me adaptar um pouco.

Você também personaliza roupas?

Sim! Comecei a personalizar na adolescência por duas questões: uma que eu não tinha dinheiro, pois não trabalhava; outra porque não achava nada nas lojas que eu gostava, e aí fui pintar minhas camisetas. Na verdade, comecei a personalizar mais no início do ano passado, com o meu TCC, que tinha tudo a ver. Hoje também faço por encomenda e tenho algumas peças prontas. Como é um trabalho manual e bastante demorado, o preço encarece um pouco e o que acontece é que o público que me segue é muito jovem, por isso nem sempre eles têm a quantia necessária pra bancar um trabalho desses, tão demorado. Mas é uma coisa que eu amo fazer, inclusive tô fazendo agora, pintando uma camisetinha que eu nem usava.

Elle Brasil, maio 2018 © Cortesia
Elle Brasil, maio 2018 © Cortesia

Ano passado você esteve no programa Amor e Sexo, da rede Globo. Este ano desfilou para a Amapô no SPFW N45 e também participou da beleza do desfile. Maquiou a Isabeli pra capa da Elle Brasil de maio e apareceu ao lado da top em um dos editoriais. Como tudo aconteceu?

Em relação ao programa Amor & Sexo foi por causa do Dudu Bertholini, meu amigo. Era um episódio especial com tema LGTBQI+, em que tinha várias drags, personalidades, artistas e cantores. Foi super legal! Gostei muito porque também envolveu essa questão da militância LGBTQI+. Na verdade foi a minha segunda experiência na TV. Antes eu fui ao programa da Sabrina Sato falar da minha maquiagem.

Já o desfile da Amapô foi à convite da Carô [Gold] e da Pitty [Taliani]. Também foi muito legal a experiência porque sempre quis desfilar e nunca tive oportunidade. Foi bem bacana, uma experiência incrível, amei muito!

Sobre a capa da Elle, fui convidado pelos stylists Davi Ramos e Flávia Pommianosky. Quando recebi esse convite fiquei muito, muito chocado, boquiaberto e feliz (risos). O processo criativo foi bem legal. Eles me passaram o briefing, queriam uma beleza bem surrealista, com essas landscapes parecidas com as que o Dalí fazia. Eu havia esboçado umas ideias e eles gostaram. No dia foi muito legal – tipo, maquiar a Isabeli Fontana, uma modelo internacional incrível, e pousar também, que era uma coisa que eu sempre achei muito bacana. Acho que foi o meu passaporte para visibilidade nesse mercado.

E como você conheceu todos?

Através do Fábio Kawallys [estilista]. Na época a gente se adicionou no Facebook, começamos a conversar sobre moda e aí ele me mostrou pro Dudu e para as outras pessoas.

Quem você sonha maquiar?

Pergunta difícil (risos). Não é exatamente uma coisa que eu fique pensando. Refletindo agora acho que a Gaga. Se na minha adolescência eu queria vesti-la, agora quero maquiá-la. É uma referência artística que eu tenho e amo muito. Já me ajudou muito em várias partes da minha vida. Seria um ponto alto da minha carreira se eu tivesse a honra de maquiá-la um dia. Espero que ela volte a ser um pouco mais excêntrica pra poder usar essas maquiagens que eu faço (risos), porque ultimamente com esse Joanne [álbum de 2016] tá difícil.

Conte mais sobre seus projetos e próximos passos.

Um projeto que eu mais tenho idealizado e pensado bastante é ter meu ateliê. Uma casa ou um apartamento que seja grande o bastante pra eu conseguir montar um ateliê pra tudo que eu faço: ilustração, roupas, maquiagem. Poder atender toda essa minha gama de clientes nesse espaço. De repente virar um espaço cultural onde aconteça colaborações com outros artistas. Acho que esse é meu goal mais forte de agora.

 


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