21.03.2019 / Business / por

Revenda: entenda o negócio de US$ 20 bilhões que está remodelando o mercado de moda

Uma das lojas da The RealReal / Reprodução
Uma das lojas da The RealReal / Reprodução

No ano passado o FFW publicou uma matéria em que mostrava como algumas lojas de revenda estavam remodelando o mercado. E de fato, 2018 foi o ano em que esse segmento ganhou o mainstream com projeções bem ambiciosas para o futuro. O mercado de revenda cresceu 21 vezes mais rápido que o varejo de vestuário nos últimos três anos e vale hoje US$ 2o bilhões – espera-se que dobre de tamanho nos próximos quatro anos e ultrapasse o fast fashion em uma década.

Basicamente, revenda (ou resale, termo que está em alta) é um novo nome para brechós ou lojas de segunda mão. São sites e pontos físicos onde você compra barganhas: boas peças por preços mais baixos. O que muda nessa nova configuração é que os produtos à venda são de marcas de luxo, a oferta parece infinita e as lojas se assemelham muito mais a uma loja de departamentos com seus cafés e salas amplas do que um brechó com roupas penduradas em tudo que é canto.

POR SER UM MERCADO QUE ESTIMULA A ROTAÇÃO DE ROUPAS EM VEZ DA ACUMULAÇÃO, ELE TEM UMA CONEXÃO DIRETA COM A SUSTENTABILIDADE E O NÃO DESPERDÍCIO

Esse mercado começou uma revolução na moda e que ainda está apenas no começo. O que tem causado essa transformação? Muitos fatores. Primeiro, a conversa em torno do sistema de moda circular é mais frequente, as pessoas têm ouvido falar sobre isso com cada vez mais frequência. Por ser um mercado que estimula a rotação de roupas em vez da acumulação, ele tem essa conexão direta com a sustentabilidade e o não desperdício.

Quem vende peças não mais usadas, deixa de ter seu próprio estoque morto em casa e ainda consegue ganhar até 70% do valor que pagou na peça original. E quem compra, adquire uma peça de luxo por um preço mais baixo e ainda pode revendê-la quando enjoar. Há benefícios ambientais e financeiros para ambos os lados. “A consignação é um impulsionador da economia circular e os consumidores agora estão percebendo que podem estender o ciclo de vida desse item e evitar o aterro”, diz Rati Levesque, diretor da RealReal. “Nosso objetivo é conscientizar sobre os problemas com o fast fashion e agora temos visto consumidores conscientes adotando uma abordagem mais ponderada na hora de comprar”. 

Interior da Rebag / Reprodução
Interior da Rebag / Reprodução

OS MILLENNIALS E A GERAÇÃO Z SÃO OS MAIORES CONSUMIDORES DE RESALE, CONSUMINDO PRODUTOS DE REVENDA 2,5 VEZES MAIS QUE AS DEMAIS FAIXAS ETÁRIAS

Segundo, as pessoas hoje sentem menos a necessidade de possuir uma coisa para sempre. Os valores estão mudando e a ascensão da economia compartilhada também tem ajudado. Isso explica porque roupas e acessórios por aluguel, assinatura e segunda mão são as três principais categorias de varejo que mais crescem atualmente. 

Terceiro, claro, os millennials. Junto com a geração Z, eles adotam produtos de segunda mão 2.5 vezes mais rápido do que o consumidor médio. Isso ocorre parcialmente porque eles preferem usar as tendências mais recentes, o que significa que as peças da última temporada são rapidamente inseridas nas lojas de revenda ou em outros sistemas de economia circular. Eles contam com sites de segunda mão, como thredUp ou The RealReal, para manter seus guarda-roupas atualizados. O esquema funciona mais ou menos assim: eles começam como compradores pela primeira vez, desfrutando de um item de designer com desconto até que acabam se cansando e revendendo. Então pegam o dinheiro ganho e gastam no mercado primário, como uma loja de departamentos, onde compram um novo item de alta qualidade. Uma vez que a peça é vista o suficiente por seus amigos, eles o vendem nas lojas de consignação.

EM 2017, 44 MILHÕES DE PESSOAS COMPRARAM PEÇAS DE RESALE. EM 2018 ESSE NÚMERO SUBIU PARA APROXIMADAMENTE 56 MILHÕES DE CONSUMIDORES

“Seja no mercado de massa ou luxo, se as pessoas puderem encontrar um produto de alta qualidade por muito menos, elas escolherão as peças usadas ”, escreveu James Reinhart, co-fundador da ThredUp, em um relatório feito em parceria com a GlobalData que analisou as tendências que estão revitalizando esse setor. Reinhart revela que 56 milhões de mulheres compraram produtos de segunda mão em 2018 nos EUA – 12 milhões a mais do que no ano anterior. De acordo com a consultoria Blumenthal, uma em cada 10 mulheres nos Estados Unidos já é membro da ThredUp, fazendo dela a maior loja online do mundo onde você pode comprar e vender roupas de segunda mão de alta qualidade. O site processa 100 mil itens por dia e coloca mil ítens online por hora. Você ter uma em cada 10 mulheres americanas é algo de proporção imensurável.

Campanha da Stella McCartney com The RealReal / Reprodução
Campanha da Stella McCartney com The RealReal / Reprodução

O próximo passo é fazer parcerias com designers. A RealReal saiu na frente no final de 2017 ao anunciar uma parceria com Stella McCartney, a primeira do segmento de luxo que não viu essa possibilidade com resistência (designers e marcas não ganham nada nas negociações feitas em sites de revenda). A estilista encorajou seus clientes a revender as peças que não usariam mais, evitando que terminassem incineradas em aterros. O resultado? Os consignadores de itens Stella McCartney aumentaram em 65% este ano e a colaboração irá se repetir este ano. “Passar da redução do impacto ambiental negativo para um impacto positivo requer que todos nós mudemos nossa mentalidade e busquemos soluções que tornem a moda circular e eliminem o desperdício”, disse a estilista.

 

A EXPECTATIVA É DE EM 10 OU 15 ANOS ESSE TIPO DE COMPRA SE TORNARÁ O PADRÃO

 

De fato, há muitas compras de oportunidades nos sites de revenda. Usando como exemplo o ThredUp, você pode achar uma mule da Burberry por US$ 75 (ou US$ 50 se inserir um código promocional que ganha ao entrar no site). Um sapato da Prada está US$ 135 – o equivalente novo sair por US$ 850 na Farfetch. Na rebag, paraíso virtual das bolsas, você encontra peças de todas as marcas que imaginar, a partir de US$ 100 (R$ 379). Claro que os produtos muito especiais custam mais caro, mas como o velho e bom brechó, vale uma boa pesquisa para conseguir tirar o melhor proveito.

Segundo Levesque, é apenas uma questão de tempo para que esse negócio ganhe o mercado por completo. “Nossa expectativa é que, em 10, 15 anos, esse tipo de compra será o padrão”. 


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