27.11.2019 / Business / por

Segmento de aluguel de roupas ganha ainda mais força com adesão da H&M

Foto: Reprodução
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Uma das empresas que mais trabalharam para acelerar o segmento de fast fashion, a H&M revelou nesta semana seu mais novo projeto: uma coleção disponível apenas para aluguel (inicialmente, somente na flagship em Estocolmo).

Isso é, em parte, um reconhecimento das crescentes preocupações do consumidor sobre o impacto da indústria da moda no meio ambiente e nas questões sociais também. E claro, olho num mercado crescente e promissor que, faz alguns anos, tem ganhado cada vez mais corpo, tanto em iniciativas quanto em adeptos.

A moda no mundo está caminhando nessa direção e marcas, do fast fashion ao luxo, já estão pensando em como inserir o aluguel de roupas em sua estrutura. Esse movimento já está acontecendo e será gigante, quer a indústria queira ou não. O fato da H&M começar a testar a ideia mostra que eles, de fato, estão já de olho nesse mercado. Quem sabe, no futuro, a rede sueca será uma grande cadeia de aluguel de roupas…

A empresa lançou uma coleção limitada com cerca de 50 vestidos e saias vindos das coleções Conscious Exclusive entre 2012 e 2019 – as peças giram em torno de US$ 36. E uma vez que os ítens voltam para a loja, são lavados a seco. “A moda é sobre desejo e impulsos”, diz à Forbes Anna Gedda, Chefe de Sustentabilidade da H&M. “Até 2030, haverá 8,5 bilhões de nós. Vamos precisar de dois planetas – mas isso não significa que todos ficaremos nus, então a questão é como tornamos isso possível? No final do dia, temos que mudar a forma como gostamos e usamos a moda”.

O mercado de aluguel seria uma boa saída para o fast fashion. Estima-se que mais da metade das roupas deste segmento – onde novos estilos são introduzidos várias vezes ao ano – é descartada dentro de um ano. De acordo com a Ellen MacArthur Foundation, a indústria da moda dobrou a produção nos últimos 15 anos para atender à demanda, mas o tempo que gastamos vestindo essas roupas caiu 40%. Ou seja, a conta não está fechando.

E não adianta dizer que as roupas podem ser recicladas ou doadas. Segundo o programa Make Fashion Circular, também da fundação Ellen MacArthur, menos de 1% dos têxteis coletados são realmente reciclados em roupas novas. “A reciclagem sozinha não pode resolver os problemas de poluição e resíduos da moda”, diz François Souchet, chefe do projeto.

A H&M já vem flertando com o aluguel de roupas usadas e não vendidas desde quando investiu na Sellpy, o maior e-commerce de segunda mão da Suécia.

Benefícios do modelo de aluguel de roupas

Pesquisas mostram que as vendas estão sendo reduzidas nos Estados Unidos e na Europa, à medida que os gastos das mulheres com roupas estão cada vez mais mudando para experiências como férias e comer fora, segundo artigo publicado na Bloomberg. O aluguel pode ajudar os varejistas a se adaptarem a essa nova realidade.

A fala de Lilly Morton, 36, em uma matéria do New York Times exemplifica bem essa mudança de mindset: “Vou fazer um tratamento facial, uma massagem ou arrumar meu cabelo”, diz. “São coisas que me fazem sentir bem e feliz, em vez de uma compra por impulso que faz você se sentir bem um pouco, mas depois talvez você se canse dela”. Consequentemente, muitas de suas compras giram em torno de auto-aperfeiçoamento e não de consumo material.

Especialmente no mercado de fast fashion, multas começam a ser aplicadas por conta dessa maré não favorável a moda descartável. No Reino Unido, os legisladores propuseram recentemente um imposto de um centavo sobre todas as roupas novas. Um centavo parece mais uma medida simbólica, mas se pensarmos que essas lojas vendem centenas de milhões de peças ao ano, a conta começa a ficar mais polpuda.


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Numa operação de aluguel, os consumidores podem estar mais inclinados a correr riscos com roupas que, talvez, eles não comprariam. Cobrar um aluguel pode ser melhor do que se livrar do excesso de roupas que sobram através de grandes liquidações.

A marca certamente ficará mais atrativa para as gerações millennial e Z. A demanda dos millennials por novos looks resultou numa febre chamada wardrobing, que consiste em comprar uma roupa, usa-la e em seguida devolver aos varejistas falando que se arrependeu – tudo isso dentro do prazo estipulado pela loja para retorno da peça.

De acordo com a empresa de pesquisa Mintel, um em cada cinco consumidores de roupas do Reino Unido admite esse comportamento. Isso pode explicar as taxas de retorno dos varejistas on-line, que podem chegar a 50% de tudo o que é vendido.

Nos EUA, o mercado de aluguel de roupas pode atingir US $ 4,4 bilhões até 2028, de acordo com a GlobalData.

O mercado de aluguel de móveis também está aquecido nos Estados Unidos, com jovens optando por decorar suas casas com móveis alugados em contratos de 12 meses.

E se a logística for algo complicado, há empresas que cuidam do inventário das marcas, da limpeza das peças, do atendimento ao cliente e da logística de entrega, cobrando em troca uma taxa por assinante (paga pelo varejista). Um dos exemplos é a CaaStle, que já faz esse serviço para gigantes do segmento, como a Rent the Runway.

EXEMPLOS DE LOJAS DE ALUGUEL DE ROUPA

A Rent the Runway começou em 2009 como um serviço de aluguel de vestidos mais chiques e, desde então, introduziu assinaturas para itens do dia a dia. A empresa se expandiu para as roupas infantis este ano e planeja introduzir travesseiros e mantas de West Elm neste verão. Este ano, ela foi avaliada em US$ 1 bilhão. “A recessão acelerou essa mudança, mas acho que há um valor atribuído à inteligência e à esperteza sobre como você gasta seu dinheiro e que também coincidiu com a ascensão da economia compartilhada”, diz Jennifer Hyman, CEO da Rent the Runway ao NYT.

Sua maior concorrente é a Le Tote, que chegou em 2012 e foca mais em peças para o dia a dia. Porém hoje nos EUA, muitas marcas têm introduzido seus próprios serviços de assinatura de roupas, como Rebecca Taylor, American Eagle, Ann Taylor e Urban Outfitters.

Roupateca /Reprodução
Roupateca /Reprodução

Aqui no Brasil vale destacar o trabalho da Roupateca, House of Bubbles, Dress and Go e Blimo. Há também o Loc, um aplicativo de aluguel de roupas e acessórios onde os próprios usuários disponibilizam suas peças para alugar. Sem falar do Enjoei, fundada em 2009, que também tem como proposta o consumo colaborativo.

Portanto, os fundamentos desse modelo de aluguel são em parte financeiros, em parte ideológicos. Você pode ter o que deseja por uma parcela do valor de compra ao mesmo tempo que compreende que o mundo hoje já tem roupas novas o suficiente para dar conta de toda a sua população por muito tempo.


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