Malcom & Marie, da Netflix tem Zendaya, um único cenário e apenas três figurinos

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Por Luiz Henrique Costa

A mais recente produção-surpresa da Netflix dirigida por Sam Levinson é acima de tudo sobre novos e necessários hábitos no processo criativo em tempos de pandemia

Não é novidade que a nossa rotina em um ambiente de trabalho compartilhado mudou, talvez até em definitivo, como tantos profissionais que hoje podem e preferem trabalhar no formato de home office e no setor de produção audiovisual não é diferente. O cinema, acostumado a montagens e equipes robustas também teve que se adaptar em diversas escalas para seguir operando e imagino que esse filme compacto em termos de equipe e produção seja lembrado daqui a 50 anos mais pelo valor simbólico de um período do que por ter se tornado um clássico inesquecível. Na contramão de superproduções como ‘Tenet’ e toda a polêmica em torno da resistência de Mr. Cristopher Nolan em insistir que o filme fosse exibido nos cinemas, ‘Malcom e Marie’ é um filme feito e pensado para o streaming, quase em um tom de teatro, focado em um bom roteiro, uma boa direção e dois ótimos atores em cena.

O filme se inicia com uma super elegante fotografia em preto e branco 35mm assinada por Marcell Rév e nos leva a conhecer a parte externa da Caterpillar House (e que casa absurda!) situada em Carmel, na Califórnia. A partir dessa introdução somos apresentados ao casal protagonista, a visivelmente desconfortável Marie, vivida por uma Zendaya que surge estonteante no figurino assinado por Law Roach, e o companheiro Malcom, interpretado por John David Washington. Vamos seguir madrugada à dentro acompanhando uma briga violenta e nada corriqueira dos dois, alternando momentos em que cada um será alvejado pelos desabafos furiosos do outro. O relacionamento deles é como o carro que surge na primeira cena do filme, mas um carro que perdeu o freio e está descendo uma ladeira. Não se sabe onde ele vai parar e o tamanho do estrago. 

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Zendaya é sem a menor sombra de dúvida uma jovem muito, muito interessante. Além de ser uma das produtoras em ‘Malcom & Marie’, ela vem se revelando uma atriz das mais promissoras, escolhendo seus trabalhos a dedo – como a excelente série ‘Euphoria’ da HBO – além de ter aquele equilíbrio perfeito de brilho, beleza e personalidade que escrevem no horizonte os nomes das grandes estrelas. A sua personagem é quase sempre enigmática, misteriosa, revela aos poucos os dramas de um passado recente,  ao mesmo tempo frágil e agressiva. O seu temperamento é um vulcão em chamas: pode adormecer por algumas horas, mas, não se engane, está prestes a despertar ainda mais explosivo. É um trabalho que exige nuances de interpretação muito sutis. Ela arrasa e merecidamente acaba de ser indicada na categoria de melhor atriz no Critics Choice Awards ao lado de nomes poderosos como Frances McDormand pelo aguardadíssimo ‘Nomadland’ 

Gosto de lembrar da resposta poderosa e certeira de Zendaya aos comentários ofensivos que ela recebeu de uma apresentadora de TV se referindo ao seus dreads usados na premiação do Oscar em 2015. Ela com então apenas 18 anos, retrucou sabiamente através do Twitter: ‘Existe uma linha tênue entre o que é engraçado e desrespeitoso’ Não deu outra. Um necessário pedido de desculpas publico por parte da apresentadora. É nesse tipo de fala, além da indiscutível evolução como atriz, que a geração Zendaya ajuda na autoestima de tantas meninas ao redor do mundo. 

Tenho ouvido certas ressalvas sobre a interpretação mais afetada de John David Washington e discordo. É preciso entender a composição do seu personagem: Malcom é o centro, a vaidade, o ego em sua potência mais inflada e histriônica. Palmas aqui para os trechos do roteiro pautados em auto referências ácidas ao meio cinematográfico e da crítica especializada. 

Não posso deixar de fazer um paralelo aqui sobre outro casal e uma discussão memorável do cinema entre o personagem vivido pelo pai de John, o veterano Denzel Washington e a irretocável Viola Davis no filme ‘Fences’ de 2017, em que ela, tragada por todo o ressentimento de anos de um casamento que a machuca, explode em um monólogo comovente. Pra quem não assistiu, essa jóia está disponível na Amazon Prime Vídeo e vale cada segundo. 

Por fim, talvez ‘Malcom e Marie’ peque por alguns trechos e diálogos pouco verossímeis, distantes demais da realidade de uma briga verbalmente sangrenta como se propõe, mas merece ser apreciado pelas atuações imperdíveis e a fotografia cheia de personalidade e estilo. 

 


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