27.03.2019 / Comportamento / por

A volta da The Face: as capas icônicas e os novos desafios da "bíblia do cool"

Kate Moss por Corinne Day e styling de Melanie Ward, 1990 / Reprodução
Kate Moss por Corinne Day e styling de Melanie Ward, 1990 / Reprodução

A revista The Face está de volta. Para quem não conhece, foi a bíblia de estilo que teve imensa influência na cultura jovem nos anos 80 e 90 e ficou conhecida como o “almanaque do cool”. A publicação abordava movimentos jovens e assuntos que iam de moda a política, da cena clubber underground ao mainstream musical com um ponto de vista único, acompanhada de uma fotografia criativa, fresca e emergente. Fotógrafos como Corinne Day, Nick Knight, Juergen Teller, David Sims devem muito à The Face por suas carreiras, assim como stylists que ajudaram a construir a imagem da moda contemporânea, como Katie Grand, Melanie Ward e Katy England.

Fundada em 1980 por Nick Logan (ex-NME), ela encerrou suas atividades em 2004, uma notícia triste para seus fãs no mundo inteiro, que atravessaram a adolescência lendo suas matérias, como esta que vos escreve. No seu auge, chegou a vender 70 mil exemplares por mês.

A revista agora tem um novo dono e reaparece no formato atual: será lançada na versão impressa a cada dois meses (com estreia em setembro), terá uma versão online (fim de abril) e obviamente, um perfil no Instagram (lançado há dois dias).

Logan vendeu o título em 1999 para a editora Emap e aconteceu o que quase sempre acontece nesses casos: a revista perdeu seu brilho e passou a receber a influência editorial de títulos grandes e comerciais. Em dificuldades financeiras e com uma circulação de apenas 24 mil exemplares por mês, a empresa fechou a revista em 2004.

Alexander McQueen, 1998 / Foto: Nick Knight
Alexander McQueen, 1998 / Foto: Nick Knight

Porém, ao mesmo tempo em que seus retorno faz brilhar os olhos de muitos fãs saudosos, ele também traz algumas questões sobre a viabilidade de seu sucesso 15 anos mais tarde, em uma época completamente transformada. Naqueles tempos, a The Face era única e influenciou praticamente todas as revistas de comportamento que vieram depois. Hoje, existem muitas The Faces impressas e centenas de outras no Instagram, portanto, parece uma faca de dois gumes cujo fracasso ou sucesso só vai se comprovar com o tempo.

A questão é: como ela vai fazer para manter seu ineditismo entre tantas outras publicações em um mundo em que é cada vez mais difícil ser original? Como respeitar suas origens e também trazer uma nova perspectiva e ainda levando em consideração que deve ser comercialmente viável? Parece um pouco o Alexander Wang entrando na Balenciaga pós Nicolas Ghesquierre.

À frente do time editorial está Stuart Brumfitt, ex-diretor da Amuse, publicada pela Vice Media. Junto com ele, vem uma turma fixa e multirracial de colaboradores jovens de diversas áreas, que inclui a estilista Grace Wales Bonner, a turma da marca de streetwear com fortes ligações com a música No Vacancy Inn, a fotógrafa influencer chinesa Margaret Zhang e a curadora de música e cultura Grace Ladoja, todos com menos de 30 anos. “Queremos representar um novo jeito de compartilhar informação e conversas”, diz Acyde, do duo No Vacancy Inn.

Segundo o Business of Fashion, a Wasted Talent, empresa controladora da revista de música Mixmag, adquiriu os direitos do título há dois anos. Em 2018, o ex-proprietário da Wasted Talent e ex-executivo da Emap Jerry Perkins, buscou investimentos adicionais para financiar o relançamento da revista, conseguindo capital com um grupo de investidores que inclui o presidente da Wasted Talent e ex-agente musical Ian Flooks, e a diretora da agência Creative Artists, Emma Banks.

Lee Barrett, na época agente da Sade, 1982 / Foto: Sheila Rock
Lee Barrett, na época agente da Sade, 1982 / Foto: Sheila Rock

A nova The Face terá uma agência interna para criar branded content com as marcas de moda e luxo. A Gucci já anunciou seu apoio e vai fazer uma coleção cápsula de camisetas usando o logo da The Face. A ideia é ser uma bússola para as marcas navegarem hoje nessa cultura digital formada por jovens mais envolvidos na política e no ativismo.

Ainda é impossível prever qual – e como – será sua aceitação. Enquanto isso, relembre algumas das mais icônicas capas da The Face. Na moda, certamente uma delas é a chamada 3rd Summer of Love, de 1990, que apresenta Kate Moss ao mudo fotografada em uma praia por Corinne Day. A capa passa uma inocência e uma vibe positiva que capturou o mood da época e a recém chegada cena raver.

Outra edição memorável é a de setembro 2002, que traz estilistas britânicos na capa representando super heróis. Stella McCartney era a Batgirl, Alexander McQueen como Surfista Prateado, Phoebe Philo como Mulher Gato e John Galliano como o Homem Invisível, que seria fotografado somente com um diamante entre seus dentes. Porém, fazendo jus ao nome do personagem, ele não apareceu no dia do shooting.

Phoebe Philo, 2002 / Foto: Vincent Peters
Phoebe Philo, 2002 / Foto: Vincent Peters

Todo mundo que importava (ou ainda iria importar) apareceu na capa da revista. Madonna, Ethan Hawke, Sade, Prince, Bowie, Robert De Niro, Björk, Courtney Love, Leonardo DiCaprio, Winona Ryder, Macaulay Culkin, Damon Albarn e a lista continua.

O perfil the archive foi criado pelo fundador da Face, Nick Logan, e celebra a história da revista e aqueles que a tornaram uma referência de jornalismo, moda e cultura pop.

Se o lema da Vogue era “if it’s in vogue is in Vogue” (algo como “se está em voga está na Vogue”), o da The Face era: o que é cool, novo e excitante está na The Face. Esse novo time tem uma responsabilidade grande pela frente.


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