Privê Skateboarding

Campeão do skate Pedro Barros conta ao FFW sobre sua nova marca de streetwear

O skatista Pedro Barros / Foto: Tauana Sofia / Cortesia
O skatista Pedro Barros / Foto: Tauana Sofia / Cortesia

Ele já ganhou  seis medalhas de ouro no X Games e conquistou a medalha de prata na modalidade skate park na Olimpíada de Tóquio no ano passado, entre muitas outras conquistas. Pedro Barros, um dos principais expoentes do skate brasileiro e mundial dessa geração, acaba de lançar uma marca de moda que é a melhor tradução do termo moda com propósito.

A Privê existe há poucos meses e foi criada como uma plataforma que opera muito como ferramenta social. “Foi uma maneira que encontrei de devolver ao skate, um esporte que deu tudo o que eu tenho na vida”, ele me diz em uma conversa que tivemos via zoom. “Se não existem apoiadores na cena pra fortalecerem aqueles que não têm condição, nosso lifestyle e o esporte vão perdendo a essência e originalidade porque vai virando algo que é para poucos.”

Pedro estava em Florianópolis, no espaço que é seu escritório e ateliê da Privê, sentado debaixo do sol, na entrada de uma das casas. Aos 27 anos, ele parece realizado não apenas com as suas conquistas no esporte, mas com o cuidado que está conseguindo construir a Privê e, especialmente, com a pessoa que se tornou. Ele pouco se gaba de seus prêmios e medalhas e muito fala de dar de volta, ciente de todos os privilégios que o skate trouxe para sua vida. A começar pelos próprios pais, que frequentavam essa cena. “Desde os 2 anos meu pai me levava pra campeonatos e eventos. Eles me tiveram bem jovens, então fui criado nisso. Eu não conheci outro lifestyle que não esse do skate”, lembra.

Apesar da influência da cena streetwear hoje, Pedro sentia falta de usar algo que o representasse 100%, roupas que ele pudesse fazer parte não apenas da construção estética, mas também dos valores.

Agora com a Privê, ele pode ocupar um outro espaço dentro dessa cena, dar vazão à sua criatividade e participar na formação de jovens talentos do skate. Junto com seu pai ele fundou a LayBack, empresa que fomenta a cultura do skate e do surfe no país e, inclusive incentiva bem a categoria feminina. Eles já têm 19 espaços de convivência pelo Brasil, que misturam esporte, cultura e gastronomia.

Leia abaixo os principais trechos da conversa:

Foto: Tauana Sofia / Cortesia
Foto: Tauana Sofia / Cortesia

Por que você decidiu lançar uma marca de moda?

O skate é a minha maior inspiração e também o que me fez entender o que era moda. Foi através dele que a gente criava curiosidade sobre o que estava-se usando, via algum skatista usando num video ou numa revista e sabia o que era legal naquele momento. Meu interesse foi crescendo e, com 25 anos, eu já tinha trabalhado com as maiores marcas do skate do mundo, mas percebi que quando as pessoas que me viam na televisão, elas não me enxergavam da forma 100% como eu gostaria, porque estava sempre representando outras marcas. Isso me despertou a vontade de criar algo meu.

Como funciona quando você tem que escolher roupas pra um campeonato?

Normalmente vou na loja da marca parceira e e tem uma quantidade que pode pegar em roupas. Dai montamos o visual com as peças que mais representam a gente. Mas na Olimpíada foi mais complicado porque a seleção tinha um uniforme mesmo, assinado pela Nike. Tínhamos quatro tipos de camisetas pra usar num dia. Durante a criação a gente até deu alguns insights, mas a Nike já está acostumada a produzir roupas pra esse segmento.

A comunicação da Privê fala de skate, comportamento e rua, mas trabalha também forte a questão da sustentabilidade com a linha Handle With Care, feito à mão. O trabalho artesanal nunca foi ligado ao streetwear, de onde veio essa vontade de juntar?

Se você pensar no shape, que é a nossa alma e de onde surgiu a Privê, ele é uma madeira que recebei um trabalho manual muito forte, fora toda a história que ele tem. As madeiras vêm de uma árvore chamada Maple, que só cresce no Canadá. Elas chegam no ateliê de um cara que tem um maquinário específico que foi desenvolvido por skatistas. Daí vem uma pessoa que corta isso a mão num formato específico pra ter funcionalidade e performance e ainda tem o trabalho do artista de fazer o gráfico do skate. E botar essa arte no shape também não é um processo tão simples. É um trabalho a mão mesmo, muito cuidadoso. Mesmo que a Privê um dia venda 10 mil shapes, quero que isso seja valorizado, que a pessoa use com carinho, cuide e guarde. E tudo o que a gente faz aqui é feito com esse mesmo zelo.

Foto: Tauana Sofia / Cortesia
Foto: Tauana Sofia / Cortesia

Onde você produz as peças de vestuário? Vocês conseguem checar o processo de produção?

Percebemos que terceirizando peças ou produzindo via private labels não bastaria pro que a gente quer fazer. Então montamos um ateliê in house aqui no nosso espaço em Florianópolis onde temos costureiras e crocheteiras aqui com a gente. Como estamos no começo, dá pra fazer assim. São poucas peças, todas numeradas, ainda não estamos preocupados com a quantidade da produção.

E a parte das camisetas?

Essas fazemos fora com um fornecedor daqui da região, que tem qualidade. É uma peça importante que os skatistas usam muito porque eles suam bastante, sujam… A gente cai, rasga ela inteira. Às vezes em uma sessão você acaba com uma camiseta. Então tem que ter esse mix de algo com qualidade, mas que também seja pro uso do skatista na prática dele.

Então tudo feito à mão é produzido aqui no ateliê e as peças mais utilitárias, como camisetas e moletons, fazemos com fornecedores que estão próximos da gente.

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Você que cria as peças?

Eu desenho uma ideia. Eu não tenho técnica nenhuma, mas faço uns esboços das minhas ideias. Eu não tenho estudo na moda, mas vivi a rua, vendo o estilo no dia a dia durante os 26 anos da minha vida. Tem muita coisa que é sobre aprender técnica, mas o skate é muito sobre atitude, pegar e fazer. É sobre não ter que fazer igual ou seguir padrões.

A Privê já patrocina ou apoia algum skatista?

Já temos uma equipe com oito atletas! Eu sou um grande expoente no meio do skate, então a minha relevância la fora é forte e temos uma porta de entrada muito grande. A minha ideia é aproveitar essa estrutura que eu tenho como Pedro e trazer mais visibilidade pra pessoas brasileiras que não têm essa oportunidade. A minha equipe não é formada por astros e sim por pessoas de alto nível, mas que estavam no underground, nas ruas, nos seus locais e não tinham oportunidade e estrutura pra poder seguir adiante.

Foto: Tauana Sofia / CortesiaLucas Pinheiro, um dos atletas apoiados pela Privê / Foto: Tauana Sofia / Cortesia

E o skate, os acessórios, o tênis custam caro…

Tudo custa. Pra você ir numa viagem onde tem um campeonato, pra filmar uma manobra num lugar legal, pra fazer uma foto… E quando você vem de uma realidade mais humilde, você tem que se esforçar já pra caramba pra ter as peças porque tudo isso já é muito caro. Um tênis hoje de uma marca boa de skate, quanto custa? Se não existem apoiadores na cena pra fortalecerem aqueles que não têm condição, o nosso lifestyle e o esporte vão se apagando e perdendo sua essência e originalidade porque vai virando algo que é para poucos, de pouco acesso. E vamos perdendo a ferramenta social que esse esporte realmente tem.

Fala um pouco sobre isso.

O skate também é uma ferramenta social que pode ser muito transformadora. E as marcas usam dessa ferramenta social pra viver dessa cena, elas também vivem da imagem que ela traz e do movimento social que ela cria, então acho que o que uma grife pode fazer é dar de volta pra esse movimento. Então a Privê é uma plataforma que eu criei pra dar de volta pro skate. É a minha missão como Pedro porque o skate deu tudo o que eu tenho na minha vida.

Foto: Tauana Sofia / Cortesia
Foto: Tauana Sofia / Cortesia

Como você percebe hoje a situação das meninas no skate? Sempre existiu muito preconceito, mas hoje vemos cada vez mais força no skate feminino.

Tem uma coisa muito legal acontecendo nesse sentido. A força do skate feminino hoje existe por batalha das meninas. Acredito que estamos passando por uma fase de transformação e lição que é não ter mais tolerância com pessoas preconceituosas e que criam barreiras pra coisas acontecerem. E muito graças a esse movimento e a garra das meninas, que viviam em locais onde tinham muita repressão e muito machismo. As mulheres fazem um trabalho muito bom e forte pra dar força pra meninas dentro do skate. Aquele espaço é de todos. Vemos cada vez mais meninas andando, mais trans e pessoas cada vez mais confortáveis com quem são, podendo viver na sua essência. A pista, a rua, tem que estar abertas pra todos.

Quem eram (ou ainda são) seus ídolos do skate?

Leo Kakinho, grande amigo meu que mora aqui em Floripa. Ele já era profissional de skate nos anos 70, virou amigo do meu pai e foi quem me deu meu primeiro skate. O Leo me inspirou muito, ele desenha as pistas, ele que construiu as primeiras pistas que tínhamos no nosso quintal e na nossa comunidade. Meus ídolos hoje são pessoas que eu vejo fazendo as coisas acontecerem. Meu pai com certeza também é um deles, minha mãe, as pessoas que estão na cena e que abrem mão de muita coisa pra poder fazer algo com um propósito maior. Meus ídolos são mais seres humanos que poucas pessoas vão saber os nomes.

Vocês planejam vender em outros lugares além do site oficial?

Estamos fazendo um movimento em direção à colaborações e parcerias pra posicionar a Privê em locais que não é somente público do skate pra que outras pessoas possam conhecer a marca. Por enquanto estamos vendendo no site e em breve vamos pros Estados Unidos para estar dentro de skate shops de lá também.

Privê Skateboarding

@priveguest


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