15.03.2018 / Comportamento / por

Com looks radicais, dupla Fecal Matter usa expressão pessoal para chocar e questionar

Foto: Reprodução Instagram @matieresfecales
Foto: Reprodução Instagram @matieresfecales

Por Guilherme Meneghetti

Segundo o sociólogo alemão Georg Simmel no livro Filosofia da Moda, há um vínculo intrínseco entre moda e identidade. O “eu” se constrói socialmente a partir das roupas e do visual como um todo quando cada um expressa sua individualidade, e então esses dois elementos (indivíduo + imagem) confundem-se, tornam-se miscíveis e viram um só, conforme a filósofa e escritora francesa Hélène Cixous enfatiza, dizendo que as roupas não são principalmente um escudo para o corpo, funcionando antes como uma extensão dele.

Basta se deparar com o casal de amigos Hannah Rose Dalton, de 22 anos, e Steven Raj Bhaskaran, 24, para elevar essa ideia à máxima potência e comprová-la empiricamente. Por onde quer que andam, arrancam suspiros seja para o bem ou para o mal. Eles adoram o universo fantástico (“uma parte crucial para a sobrevivência do ser humano”) e Matrix é uma de suas grandes influências. Eles são impecavelmente montados que chegam a se assemelhar a “aliens”: Hannah usa nos pés um protótipo revestido com material que parece pele como se fosse um salto do seu próprio pé (em breve ela planeja vendê-los); ambos usam lentes pretas, brancas ou verdes que cobrem todos os olhos; makes pesadas que simulam veias e cicatrizes no rosto com direito a borboletas penduradas na testa; cabeça raspada com apenas algumas mechas coloridas de cabelo colocadas estrategicamente; e por aí vai. Se eles se vestem assim todos os dias? “Obviamente quando treinamos usamos tênis de corrida”, brincou Steven à Vogue US.

Com quase 200 mil seguidores no Instagram, juntos criaram dois anos atrás a Fecal Matter (mesmo nome da primeira banda de Kurt Cobain), uma marca que funciona como plataforma multifunção com a qual eles lançam produtos que englobam moda, cinema, música e política, tudo junto, misturado e mais o que for necessário para, claro, questionar o senso comum e provocar um pensamento crítico e sem amarras. Por isso mesmo eles pouco se preocupam com o que pensarão, embora instintivamente percebem olhares opressores e por vezes risadas – e pensar que Hannah já vestiu Burberry da cabeça aos pés tentando parecer intelectual, já que cresceu em escola particular vestindo uniforme e, sem ele, tinha dificuldade em encontrar sua identidade.

Still just an alien couple out and about

Uma publicação compartilhada por Fecal Matter (@matieresfecales) em

A maioria das roupas e acessórios que criam (alguns com upcycling) são vendidos no e-commerce da marca, além de também serem DJs e produzirem suas próprias mixtapes, que envolvem música eletrônica com beats pesados e caóticos. Ao longo desse período em que estiveram juntos, criaram mais de 10 coleções (criam quando querem, independente de estação) em mais de 10 cidades diferentes. Suas coleções envolvem música, fotografia, filme e performance, tudo para reverberar em diferentes meios um única ideia. Uma delas foi chamada de “Abondonner, que significa ‘abandonar’ em francês. Trata-se da desconstrução do ideal de beleza de figuras femininas e masculinas de nosso tempo – Adão e Eva”, conforme explicaram à Indie Mag.

Tudo começou no último ano da faculdade de moda em Montreal, Canadá, quando conversavam sobre tudo que os incomodavam na indústria da moda. “São coisas da indústria que a gente não concorda, como o trabalho infantil, o desperdício que ocorre na indústria de tecidos, os corantes prejudiciais ao meio ambiente, etc”, diz Steven. Surgiu então uma grande afinidade.

Immune to pain

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Ainda que tenham se conhecido lá e vivem na maior parte do tempo entre Montreal, Nova York e Londres, eles dizem não se basear, pertencer, tampouco se identificar com nenhuma cidade do mundo. “Naturalmente, nós adoramos viajar, estamos expostos a muitos ambientes diferentes, o que altera nossa visão de beleza”. No que diz respeito à recepção alheia de seu visual, eles afirmam que Londres é a cidade menos pior para perambular, pois já houve pessoas que pediram foto e agradeceram por serem tão inspiradores. Já Paris é a mais complicada, onde foram chamados de “Diabo” e até cuspiram neles.

Por meio de sua marca, eles também questionam um outro tipo de relacionamento. “A relação que o humano tem com bens materiais é algo com o que estamos tentando brincar”, aponta Steven. “Você tem que realmente gostar do que você está comprando, do design, da textura…”, complementa Hannah. “É o oposto de comprar uma bolsa apenas porque é da Dior”. E o que esperar para o futuro? “Você realmente não pode esperar nada, não somos tão facilmente previsíveis. Para ser sincero, também é uma surpresa para nós”.


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