06.05.2019 / Comportamento / por

O que é Camp? Entenda o tema desta edição do Met Gala

Montagem / Reprodução
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Esta noite acontece o Met Gala, evento que, nos últimos tempos, se tornou um dos tapetes vermelhos mais aguardados do ano e uma passarela potente para grandes marcas com budget para vestir estrelas pop e pagar até US$ 300 mil por uma mesa no jantar. O gala marca a abertura da exposição anual do Costume Institute, um braço do museu Metropolitan, em Nova York, e é organizado por Anna Wintour.

O tema desta edição é Camp: Notes on Fashion, inspirado pelo ensaio Notes on Camp, que a escritora e filósofa americana Susan Sontag escreveu em 1964 – o artigo a estabeleceu como uma importante crítica cultural. A exposição quer “explorar as origens da estética camp e como ela evoluiu de um lugar de marginalidade para se tornar uma influência importante na cultura”, diz Andrew Bolton, curador do Costume Institute.

A exposição abrange desde o século 17 até o presente, rastreando as origens do camp de Versalhes e a figura do dândi até as subculturas queer da Europa e da América no final do século XIX e início do século XX. “A maior parte da mostra será dedicada a como esses elementos – que incluem ironia, humor, paródia, pastiche, artifício, teatralidade e exagero – são expressos na moda”, explica Bolton.

Mas o que é Camp? A palavra é ampla, tem muitas interpretações e não é fácil de ser explicada de uma maneira clara, uma vez que está mais ligada a uma sensibilidade e a um estado de espírito. Bolton explica que a palavra camp vem do verbo francês “se camper”, que pode ser traduzido por “fazer uma pose exagerada”, emergindo da opulência e decadência da corte francesa durante o reinado de Luís XIV.

Em seu ensaio, Sontag explica o conceito de Camp em 58 notas, jogando luz no que faz uma coisa ou uma pessoa ser camp e como o espírito do camp pode ser encarnado. Sua essência está no amor pelo que não é natural, pelo artifício e pelo exagero. Se há uma plataforma perfeita para o exercício do camp, é a moda. Marcas como Gucci, Moschino, Viktor & Rolf e estilistas como John Galliano, Jean Paul Gaultier e o jovem Tomo Koizumi servem como uma luva ao tema deste ano.

Graças a Sontag, o camp virou símbolo de uma atitude mais liberal em relação a sexualidade, política e sociedade nos anos 60. Mas seu ensaio na época, causou indignação. “Como a pílula anticoncepcional ameaçava a supremacia masculina e o movimento negro dos direitos civis ameaçava a supremacia branca, Notas sobre Camp era uma ameaça à supremacia heterossexual e fazia parte de um movimento mais amplo para derrubar hierarquias estabelecidas”, relata o escritor Benjamin Moser, autor de Sontag: her Life and Work.  

 

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At last night’s pre-Met party, hosted by Sally Singer, guests like @spaceykacey and @lilynova97 were treated to dinner by @thefourseasonsrestaurant, including cotton candy globs, which bore a strong resemblance to the puff-ball ballgowns that occupied space in the room. Tap the link in our bio to see more. photographed by @arnold_daniel #CottonCampy

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Em um artigo para a Town & Country, Moser escreve que a filósofa não gostaria de ver uma noite excludente como a do Met Gala se apropriar de um termo que também tem a ver com resistência. “Em um mundo em que a gays são assassinados diariamente, Susan ficaria alarmada ao ver uma crítica profunda sobre a sociedade dominante apropriada para um evento que simboliza o establishment do qual os gays foram excluídos. Ela, uma grande ativista pela justiça social, teria ficado enojada com um evento que cobra ingressos de US$ 30 mil por pessoa e com as quantias obscenas que os convidados gastam com roupas e jóias”.

“Na estética gay, Sontag viu uma crítica da sociedade, um ‘protesto contra as expectativas burguesas’. Sendo assim, ela ficaria emocionada com qualquer convidado que, dentro nesse evento mais burguês, permanecesse fiel ao espírito outsider do camp”. 

Notes on Camp por Susan Sontag

“Para começar de maneira muito geral: camp é um certo modo de esteticismo.
É uma maneira de ver o mundo como um fenômeno estético. Dessa forma, o caminho de Camp, não é em termos de beleza, mas em termos do grau de artifício, de estilização”.

“Não é necessário dizer que a sensibilidade Camp não é engajada nem politizada”

“O Camp tem uma afinidade por certas artes, em vez de outras. Roupas, móveis, todos os elementos da decoração visual, por exemplo, compõem uma grande parte do camp. Para Camp, arte é frequentemente arte decorativa, enfatizando estilo, textura e superfícies sensuais à custa do conteúdo”.

“Camp é uma visão do mundo em termos de estilo – um tipo de estilo bem particular. É o amor pelo exagerado. O melhor exemplo está na Art Nouveau; seus objetos,
tipicamente, convertem uma coisa em outra coisa: as luminárias na forma de plantas com flores, a sala de estar que é realmente uma gruta. 
Um exemplo notável: as entradas do metrô de Paris, projetadas por Hector Guimard no final da década de 1890. em forma de hastes de orquídea em ferro fundido”.

“O Camp vira as costas para o bom e mau eixo do julgamento estético comum. Não argumenta que o bem é ruim ou que o mal é bom. O que ele faz é oferecer para a arte (e para a vida) um conjunto de padrões diferente”. 

Curiosidades

O ingresso individual para o jantar do Met Gala sai por US$ 35 mil. Já a mesa para 10 pessoas, custa entre US$ 200 mil e US$ 300 mil e são normalmente bancadas por grandes marcas parceiras da Vogue, como Dior, Ralph Lauren e Calvin Klein. Mas fontes dizem que essas três marcas especificamente resolveram não comprar mesas este ano. Louis Vuitton e Burberry compraram mesas e devem vestir muitas celebridades.

A noite é inteiramente coordenada por Anna Wintour, que decide quem é convidado, quem senta perto de quem e que celebridade senta na mesa das marcas que patrocinam a noite. Este ano, a Gucci é a principal patrocinadora do evento, então espere ver os principais nomes da noite portando looks da marca.

O gala é co-presidido por Lady Gaga, Alessandro Michele, Harry Styles e Serena Williams. Entre os confirmados, estão Tom Ford, Donatella Versace, Miuccia Prada, Pierpaolo Piccioli, Clare Waight Keller, Katy Perry e Blake Lively.

 

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Some of the largest objects on display in “Camp: Notes on Fashion” are these two dresses by Giambattista Valli. Head to our Instagram Stories to see Glenn Petersen, Conservator, work on assessing the pieces. // Dresses, Giambattista Valli (Italian, born 1966), fall/winter 2017–18; Courtesy of Giambattista Valli. #TheMet #CostumeInstitute #MetCamp #fashionconservation

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