01.09.2017 / Comportamento / por

O que está por trás da ação da Natura #TodaBelezaPodeSer, que fechou o SPFW com chave de ouro

Natura SPFW - N44 Agosto / 2017 foto: Gabriel Cappelletti / FOTOSITE
Natura SPFW - N44 Agosto / 2017 foto: Gabriel Cappelletti / FOTOSITE

Por Guilherme Meneghetti

O SPFW N44 fechou com a ação #TodaBelezaPodeSer, da Natura em parceria com o curador Jackson Araújo e o estilista-ativista Victor Apolinário, da Cem Freio. Como o próprio nome diz, a ideia foi celebrar a diversidade, toda e qualquer noção de beleza.

Tudo começou com a vontade do Apolinário em mostrar uma herança histórica de suas raízes, pensando em símbolos de alguma aristocracia negra. Ele apresentou a ideia para a stylist e diretora de arte Igi Ayedun, que, por sua vez, chamou Alexandre Lindenbergh e Nathália Cury, do Estúdio Margem, para unirem forças na execução do projeto, ficando responsáveis pela identidade gráfica do projeto.

Foto: Agência Fotosite
Foto: Agência Fotosite

Para criar os brasões, olharam para a identidade da Cem Freio e perceberam um universo muito ligado à arte urbana e ao pixo. Em seguida, pesquisaram sobre a história da tipografia do pixo e se depararam com ideogramas pré-históricos, até que encontraram os caracteres Nsibidi, oriundo de uma tribo do sul da Nigéria com os quais os nigerianos se comunicavam e também usavam como condecoração de atos.

Um dicionário com as traduções dos caracteres foi descoberto e, então, fizeram um recorte selecionando os ideogramas que têm uma conexão com o universo da Cem Freio e da ação #TodaBelezaPodeSer, com palavras como “protesto”, “igualdade”, “beleza”, “liberdade”, “guerra”, “autoaceitação”, entre outras.

“O engraçado é que eu sou a única negra da equipe [do Estúdio Margem], o resto são pessoas brancas de descendência europeia”, divide Igi.  “Eles me falaram: ‘Parece que estamos pesquisando algo sobre um povo alienígena, pois é muito difícil encontrar materiais sobre a raiz dos negros’. No final, conseguiram achar, e isso foi muito revigorante pra eles, até como seres humanos, ao explorar outras culturas e entender, enquanto pessoas brancas, as dificuldades que nós negros temos de achar a documentação daquilo que nos pertence”.

Ao longo da semana, enquanto a coleção era construída, todos os dias havia um momento em que a equipe se juntava para hastear as bandeiras no último andar da Bienal.

Foto: Agência Fotosite
Foto: Agência Fotosite

Apolinário já havia criado uma pré-coleção, mas durante a semana algumas coisas foram sendo construídas, num processo work in progress. “Criamos a coleção pensando em tudo o que beleza pode ser. A última bandeira que hasteamos comunica que toda a beleza faz parte do autoconhecimento, um dos pontos de partida mais importantes de todo o rolê”, conta.

Com os ideogramas criaram patches que foram aplicados nas peças: os 16 integrantes escolhidos para cocriar a coleção e desfilar a própria peça tiveram a sua palavra de inspiração traduzida no ideograma Nsibidi. “Discutíamos diariamente os nosso pontos de vista sobre o lugar que cada um ocupa”, explica Jackson. “Pensamos ‘Quem somos?’, ‘Por que estamos aqui?’, ‘Qual é a nossa relação com a nossa própria beleza?’. Foi muito bacana!”. Na prova de roupas, algumas interferências foram acontecendo: um bordado aqui, um comprimento ali, uma etiqueta acolá, e assim por diante.

O resultado foi emocionante, com a performance apresentada no meio da Bienal após o último desfile. O público se tumultuou para poder assistir. Instrumentistas tocavam tambores caoticamente com ritmos africanos, enquanto os modelos desfilavam as peças criadas por eles mesmos. Apolinário ficava pra lá e pra cá proferindo com um microfone palavras de ordem, como “eu tenho o direito de ser eu!”, para que todos pusessem ouvir. Foi emoção à flor da pele: bastou olhar ao redor para se deparar com os olhos dos convidados cheios de lágrimas. Alguma dúvida de que toda beleza pode ser?


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