10.06.2019 / Comportamento / por

"O que eu crio não cabe no mundo", diz jovem performer que usa a modificação corporal para se expressar

Aun Helden / Reprodução
Aun Helden / Reprodução

Aun Helden, 22, é um artista que transita entre a performance, a música e a criação de imagens para a desconstrução e a elaboração de novas possibilidades de corpo. Foi nas festas de hard techno que ele encontrou um espaço para se expressar livremente através de performances e criar uma linguagem própria, usando seu corpo como plataforma de expressão, e trabalhando a partir de suas próprias angústias e fragilidades.

Dessa forma, o resultado de suas criações são tão expressivos e curiosos quanto angustiantes. Aun começou a trabalhar com próteses, processo que chama de “incorporação prostética”, criando novas possibilidades de existir em um corpo totalmente desvinculado de gênero e até mesmo da anatomia corporal como a conhecemos. Figuras férteis, maternais, próteses que desconfiguram as formas, olhos escuros e vazios. A imagem que resulta de seus processos, seja nas performances ou no Instagram, são incômodas, apocalípticas e têm origem na sensação de estranheza que sempre o acompanhou. “O estranho existe na margem, então eu sempre estou na margem. É muito desconfortável porque a partir do momento que você começa questionar seu corpo e pensamento, acaba questionando a sociedade que está a sua volta. O que eu crio não cabe no mundo”, diz em uma conversa no restaurante do Cartel 011, multimarcas que lança nesta semana uma linha de camisetas com fotos de Aun censuradas pelo Instagram.

Os sócios Fernando Sappupo e Cristian Resende assistiram a uma performance de Aun em uma festa e foram impactados por seu trabalho. “Antes, na nossa época, tinha uma coisa mais hedonista, era uma montação fun, divertida, colorida. Essa geração chega com outra realidade: ‘olha, eu não estou tão bem assim, acho que você também não’. Não é uma geração que é 100% saudável e o trabalho reflete isso”, diz Cristian.

O CZO Studio transformou essas imagens em uma coleção limitada de 60 camisetas (R$ 199 cada), que será lançada dia 14.06, com  um evento especial no Cartel 011, com performance de AUN. “A parceria surge no pensamento de criar novos meios e possibilidades de existência para uma imagem censurada. A imagem que estará na camiseta poderá ser apagada e censurada assim como é em uma plataforma de mídia social? E hackeamento de espaço é justamente isso, criar táticas para que a imagem criada exista sem a punição de uma sociedade que objetifica tudo antes de dar uma abertura de conversa”, diz Aun.

Aun fala uma lingua similar a dupla Fecal Matter, de quem falamos aqui no ano passado. Eles são amigos, se conheceram através do Facebook e hoje trocam ideias sobre processos criativos. Seu trabalho tem sido cada vez mais divulgado, não apenas por sua rede que cresce a cada dia (18 mil + no Instagram), mas também em matérias em publicações como Dazed e Folha de S.Paulo.

Na conversa abaixo, x artistx conta sua trajetória, fala sobre sua constante sensação de não pertencer, dos desafios e da angústia de não ser compreendido e como a arte pode criar espaço para existirmos na nossa maior potência.

Foto: Cortesia
Foto: Rodrigo Maltchique / Cortesia

Quando você começou a fazer essas performances?

Meu trabalho artístico começou no teatro, em São Bernardo, quando tinha 9 anos. Fiz teatro por 10 anos e comecei a migrar pra perfomance quando passei a vir mais pra São Paulo. Tive o primeiro contato nas festas, foi quando me deparei com essa forma de produzir arte e percebi que tinha a liberdade de criar minha própria linguagem. Imagino essas festas como pequenas zonas temporárias de expressão de liberdade no nosso mundo.

Você fala muito sobre ter uma autonomia corporal.

Comecei a usar próteses há uns três anos e meio quando comecei a ter uma ideia mais consolidada sobre meu gênero e minha sexualidade. Quando comecei a ter uma ideia do que o meu gênero representava pra mim.

O que o seu gênero representava pra você?

A estranheza. Meu trabalho parte do estranho, é nesse nascimento da estranheza que surgem as dúvidas e as questões. Estou criando um copo que é estranho onde existem mil questões e nessas questões existem mil possibilidades. São perguntas e respostas ao mesmo tempo. Nunca é um resultado. É disso que sempre tento fugir, das coisas que são consolidadas, concretizadas.

E nessa sua observação do seu ser, você se sentia deslocado?

Até hoje sinto um total desconforto. O estranho existe na margem, então eu sempre estou na margem. E ser um estranho que cria dúvidas é mais desconfortável ainda porque, a partir do momento que você começa questionar seu corpo e pensamento, acaba questionando a sociedade que está a sua volta. O que eu crio não cabe no mundo. O corpo que eu crio, a imagem que eu crio não cabe do mundo. É por isso que ela é censurada.

Ela não cabe no mundo, mas faz todo sentido pra você.

Aquela imagem onde eu me caibo e onde me sinto em potência, não cabe no mundo, então sempre me sinto absolutamente frágil. Mas é um desconforto que me move, que me leva pra um lugar.

Como você faz as suas próteses?

Faço tudo no meu quarto. Elas são feitas de latex, mas tem todo um processo. Tenho um molde do meu rosto que fiz de gesso e crio molduras em cima do meu próprio rosto, jogo o latex e crio a pele. Às vezes ela é feita pro rosto, mas encaixo em outro lugar.

Usa uma vez e tem que jogar fora?

Não, aproveito todas que faço.

Quando está com essa pele, se sente mas feliz?

Depende muito, mas fragilidade é a palavra que compreende bem o que eu sinto. Sempre me sinto muito frágil. Deveria ser o contrário, mas o que eu faço é raramente entendido. O entendimento não existe e eu não cobro que as pessoas que entendam. O entendimento vem da vivência. Essa personagem surge de uma ambição minha de ser uma figura que seja uma como uma epidemia, um verme, uma doença.

Por quê?

Por causa do objetivo dela (Aun). Não é uma coisa ruim. O objetivo dessa figura é contaminar, criar novas possibilidades de relações. Um dos objetivos é causar esse desconforto porque ele vai fazer com que as pessoas questionem. Então, quando estou ali no palco, em uma festa, falando sobre gênero e sexualidade no lugar onde deveria estar falando sobre entretenimento… O artista que é contratado pra se apresentar numa festa tem o papel de criar uma ambientação para as pessoas que estão ali, assim como o DJ. Mas eu enxergo esse espaço como um local de manifestação artística absurda, um momento de fuga, de liberdade. De repente você tem quatro, cinco horas pra existir na maior potência da sua vida.

Existe uma comunidade de performers como você no Brasil?

Igual não, mas existe uma cena absurda de performance em São Paulo. São zonas temporárias de expressão e cada performer cria sua própria linguagem. E é incrível porque vemos cada um ali bebendo de suas experiencias e criando suas autonomias sem necessidade de existir numa galeria ou num espaço tradicional de arte.

Me fala das suas fotos que foram censuradas no Instagram e que acabaram virando uma linha de camisetas.

É meio absurdo porque o Instagram tem suas normas de nudez, que acho correto, mas não tem um controle. Por exemplo, as minhas fotos são excluídas por nudez, sendo que não é nudez, é uma prótese, eu crio um outro sexo, mas o Instagram lê como nudez. Uma outra imagem foi excluída como discurso de ódio. Eu fiz um texto sobre gênero e sexualidade e o app leu as palavras que eu coloquei como xingamento, ele leu bicha, etc, e entendeu como discurso de ódio. Mas tem muita gente que denuncia também. Alguns trabalhos tem um caráter mais viral e quando viraliza eu tenho que trancar meu Instagram.

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As pessoas xingam muito?

Super. Você olha meu perfil, tem 50% xingando, 50% defendendo. No final do ano passado, quando minhas imagens estavam sendo muito censuradas, descobri que estavam compartilhando as fotos no Facebook de um grupo de extrema direita. Mas as minhas fotos eu faço para serem virais, não é algo inocente. O ato de denúncia também se relaciona com essa questão de estranheza. Talvez a censura seja a etapa final, tudo se relaciona, mas é dolorido.

Você parece estar sempre na dor.

Sempre.

Mas é uma escolha.

Não exatamente. A minha escolha é fazer da minha dor o meu trabalho e não viver na dor. Porque se eu tenho a dor, eu tenho a escolha do que posso fazer com ela. Me afundar ou criar a partir dela. Carregar essa dor na minha criação não é fácil porque falo sobre vários temas, como abusos. Mas quando eu crio e meu trabalho cria uma importância, um despertar, essa dor desaparece.

Você acha que seu trabalho seria diferente em um outro momento político?

É complicado porque apesar do cenário politico, as mudanças que eu sinto são mínimas. Pra um corpo que sempre existiu nessa marginalidade, estamos vivendo um agravamento do que a sociedade já me mostrava ser. Desde que eu nasci, todas essas questões estão comigo.

Desde criança você se sente assim?

Com certeza, sempre fui uma criança muito consciente, então sempre tive que enxergar essas barreiras que a sociedade colocava. Sempre foi um confinamento. Justamente quando comecei a sair dessas paredes e existir nesses lugares em que faço a minha arte foi quando consegui ver uma possibilidade de existir numa liberdade, mesmo sendo provisória.

E sua mãe?

Eu não cobro entendimento da minha mãe. Ela sabe do meu trabalho, mas não entende muito. Mas quando ela conseguiu enxergar o que eu faço como trabalho e não como uma piração, passou a ver de outro jeito e tentar entender. Meu trabalho é muito sobre a minha mãe também.

Ah é?

Eu utilizo muito a figura materna, os ovos, penso muito nela quando eu atuo. O relacionamento que tenho com ela é muito forte. Sempre fomos somente nós dois. E a figura que eu criei é vem da maternidade e surge também dessa minha repulsa à figura masculina. Todos os homens que cruzaram a minha vida, desde o meu pai, até os outros relacionamentos que tive com homens sempre foram abusivos e nocivos.

Os abusos que você sofreu na infância e adolescência têm um impacto no seu trabalho.

Sim, se relacionam com o que eu crio.

Hoje você sobrevive do seu trabalho?

Sim. Faço performances todo fim de semana em festas eletrônicas como a odd, Mamba Negra, Sangra Muta. E tem o meu Instagram, que não ganho dinheiro, mas é onde tenho mais voz. E tem essa parceria com a Cartel, que me abriu para outras possibilidades de trabalho. Tenho enxergado muito o que faço como roupa também. Quando crio uma prótese que fala sobre extensão corporal, roupa pra mim também é sobre isso.

Acha que seu trabalho é uma visão de futuro?

As pessoas relacionam meu trabalho com a questão do futuro, mas ele não é pro futuro. Ele é do agora. Eu nem penso no futuro. Esse corpo que eu faço não existe no futuro. Ganhar dinheiro com arte, ter uma vida através da arte era uma realidade muito distante e só de um tempo pra cá que entrei nesse processo, então pensar no futuro é ainda um próximo passo. Futuro não é uma possibilidade pra mim ainda.


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