06.11.2018 / Comportamento / por

"Venho de um lugar onde não existia a possibilidade de vencer na vida": uma conversa com @1993agosto

© Cortesia
© Cortesia

Por Guilherme Meneghetti

Durante o SPFW N46, estávamos eu e Camila Yahn entrando na sala 1 do espaço Arca para assistir ao desfile da Cacete Company. Como ela mesma disse neste texto, sobre as marcas jovens e estreantes que trouxeram nova energia para a moda brasileira, trata-se de uma nova geração de criadores, “uma turma engajada, atenta aos acontecimentos políticos sociais e que não tem medo de se posicionar”.

Uma turma que reconhece e abraça com tamanha verdade e respeito suas origens e realidades, que acaba ecoando em seu trabalho e, assim, demonstram o que são e representam, cada um à sua maneira. A exemplo do fotógrafo Marcelo Moraes aka @1993agosto. Ele estava na primeira fila da Cacete Company usando uma máscara inspirada no universo dos animes e recrudescendo o arrojo do universo da marca tocada por Raphael e Tiago antes mesmo do desfile começar. 

Talvez você já tenha esbarrado no Instagram dele na sua timeline. Com mais de 31 mil seguidores, Marcelo é multi-hifenizado. “Tudo que envolve criatividade é a minha arte. Trabalho com todo tipo de imagem: fotografia, vídeo, direção, produção, roteirização, diagramação, design gráfico e artes plásticas. Engloba muita coisa e aí digo que sou diretor criativo”, conta ao FFW.

Nascido em Nova Iguaçu e, como ele diz, “cria” de Belford Roxo, uma das regiões mais violentas do estado do Rio de Janeiro, hoje Marcelo vive em São Paulo. Formado em design gráfico, ele surgiu na cena através da fotografia, com suas imagens de estética vintage, uma vibe 90’s, sem filtro, que tornou-se sua marca registrada.

Seu nome veio à tona a partir da parceria com o selo de rap e hip-hop Ceia Ent, coletivo capitaneado por Nicole Balestro e Don Cesão. Em pouco mais de um ano, já fotografou Mano Brown, Karol Conká, Kaya Conky, Assucena Assucena, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, e a lista segue. Editou o vídeo de Bilhete III, do rapper Froid, e suas fotos aparecem no clipe Favela Vive 3, com ADL, Choice, Djonga, Menor do Chapa e Negra Li.

Seu trabalho já saiu anteriormente no FFW, em parceria com o projeto Meio-Fio, da Melissa, bem como na VFiles e a extinta Elle Brasil. Ele também já foi modelo para marcas como Adidas e Reebok e faz colabs com seus amigos criativos, incluindo a Korshi 01.

Agosto faz parte de uma nova geração de criativos que vem da periferia e está cada vez mais presente na noite, na música e na moda com uma estética que questiona o que é feio ou bonito, feminino ou masculino e também, de certa forma, reflete sua origem – muitos vêm de comunidades em que é notório o abandono e o descaso por parte do governo e da sociedade (mais sobre essa turma em breve).

Em uma conversa após o desfile de João Pimenta, ele conversa com o FFW sobre moda, fotografia, colabs e rolês.

Korshi 01 © Agência Fotosite
Agosto no desfile da Korshi 01 © Agência Fotosite

Como começou a sua história com imagem, você sempre teve esse interesse?

Desde criança. Eu desenhava roupas e fazia meus próprios brinquedos. Construí um robô de madeira de mais ou menos um metro e meio quando tinha sete anos. Então me considero um artista plástico desde moleque. Sempre tive esse senso. Tive contato com fotografia aos 14 e comecei a fazer vídeo também.

O que te levou à fotografia como profissão?

Tudo me levou à fotografia, na verdade. Eu nasci numa região muito violenta, onde você tem poucas coisas como hobby para se fazer lá. Eu já via isso como potencial para registrar a cultura que era só dali, as coisas que aconteciam só ali. Quando tive contato com fotografia, comecei a me aprofundar mais ainda nessas imagens. O ambiente que eu vivi foi o que deu meu senso criativo, minha visão. Por exemplo, eu desenhava os irmãos da boca de fumo. Fazia desenho pra eles, tá ligado? Ali eu já estava fotografando, só que com desenho. Depois quando tive contato com fotografia, comecei a fotografar real, fazer retratos, fotos de rua, arquitetura, o cotidiano, tudo ao meu redor.

Anne Oliveira, do Brechó Original Favela © Cortesia
Anne Oliveira, do Brechó Original Favela © Cortesia

Você fotografou a capa do álbum do Djonga, O Menino Que Queria Ser Deus (2018), e é super aliado do pessoal da Ceia Ent.

Foi natural. Eu os conheci porque já estava fotografando e recebi o convite do Gustavo Treze, DJ da Ceia, que me apresentou ao Cesão e ali eu conheci todo mundo. A gente fechou uma parceria gigante, fazer uma estética, fotografar os rolês e registrar isso que ninguém documentava quando eu vim pra cá. Ninguém fazia essa documentação de rua, de um underground que ninguém via. Uma coisa que é suja, feia, mas ao mesmo tempo é bonito, sabe? Eu trouxe a minha linguagem porque era uma coisa que eu vivia também. E hoje é uma parceria grande.

Isso porque você já frequentava os rolês de rap?

Esse rolê de rap eu conheci em São Paulo, porque no Rio eu só ouvia funk e pagode. Eu conheci o real rap em São Paulo, tive contato com os rappers e tal. Foi essa parceria com a Ceia que fomentou bastante outras coisas. Mas já estava trabalhando com outros lados também – fashion, LGBT, entre outros. Com todas as pessoas que eu consigo me conectar, eu tava fazendo coisas. São parcerias de todos os lados.

Qual foi o primeiro rolê de rap que você foi?

Foi um rolê da adidas, que estava divulgando o modelo EQT, e teve show dos rappers da Ceia e eu conheci todo mundo ali. Nesse dia faltou um fotógrafo, eu tinha uma câmera, tava fotografando por hobby e eles falaram: “e aí, quer pegar um cachê de fotógrafo?”. Mano, nunca trabalhei, mas vamo aí, é dinheiro, preciso de dinheiro, preciso comer. Fiz esse rolê, ganhei minha grana, geral se conectou. Essas fotos saíram em alguns sites, o que eu não esperava, foi conectando com mais gente e aí recebi convite de várias pessoas pra fazer mais isso.

Capa da álbum deste ano do Django, com clique de @1993agosto © Cortesia
Capa do álbum deste ano do Djonga, com clique de @1993agosto © Cortesia

Qual foi o primeiro site que publicou seu trabalho?

I Hate Flash.

Quem você já fotografou?

Karol Conká, Mano Brown, Léo Santana, as gêmeas Tasha e Tracie… Ah, cara, muita gente! Meus amigos todos, todas essas pessoas que eu falei são aliadas, pessoas que eu converso até hoje.

Você contou que suas fotos saíram em veículos internacionais. Quais?

Nylon Magazine, do Japão, a Elle do México, e tem os nacionais também, o próprio FFW em parceira com o projeto Meio-Fio, da Melissa, a Vogue, a Elle (na época que tava rolando), Vice, Capricho

Você tem um projeto que mais gosta?

Tenho. Chama D-CRIA. É uma história que fiz com os criativos e criadores da Baixada, no Rio de Janeiro. São pessoas dali mesmo, nascidas e criadas ali. Quem nasce em favela é “cria”, essa é a palavra-chave. Juntei uma molecada que produz música, que dança, faz coreografia, styling, entre outras coisas, e os capacitei levando uma estética da moda para eles conseguirem se articular com publicidade para atrair olhos de gente que não os enxerga. Eles são super engajados nas redes sociais. A média ali é de 50 mil seguidores. Foi um rolê que saiu até na VFiles. Como eu desbloqueei um rolê mais internacional, mais pra São Paulo, queria levar isso pra lá. Foi o que fomentei. Hoje eles estão trabalhando com outras marcas.

O que te chama atenção para registrar alguém ou alguma cena?

Eu preciso sentir a energia do ambiente. Não tenho religião, mas acredito em energia. Já estive em vários lugares onde havia artistas com nome gigante, internacional, mas simplesmente não me senti à vontade para tirar foto, guardei a câmera e fiquei de canto. Eu preciso conhecer a pessoa, sentir a energia dela, deixá-la à vontade e falar: “e aí, vamos fazer alguma coisa juntos?”, em vez de chegar, meter a câmera na cara dela, “pa pa pa”. Acho isso muito artificial. O meu trabalho conta a história de um encontro real com a pessoa, eu conversei com ela, ela gostou e topou trabalhar comigo.

Storie do Instagram da VFiles divulgando o trabalho do @1993agosto © Cortesia
Stories do Instagram da VFiles divulgando o trabalho do @1993agosto © Cortesia

Como é sua relação com a moda?

Eu sempre gostei de moda. Sempre gostei de me vestir bem, de ter minhas próprias roupinhas. Minha mãe é costureira, isso diz muito sobre mim. Ela fazia nossas cuecas, nossas calças, camisas. Eu pedia coisas do tipo, “ah, mãe, quero uma camisa que seja inspirada no Mickey”. Só eu ia ter aquela peça no colégio. Isso é algo que eu fomentava, ter a sensação de que sou único ali.

E como você descreve seu estilo? 

Ah, uso tudo o que eu gosto. As coisas que eu vivo e vejo. Eu coloco um pouco de coisas que eu curto dos anos 90, a estética japonesa e misturo tudo. Vejo bastante anime e alguns me inspiram muito. Roubo uns looks de alguns personagens, com alguma coisa que possa ser chave, sei lá, um cropped, uma saia que eu gostei ali e consigo achar de outra forma num brechó. 

Qual seu anime favorito?

Akira.

Uma das peças de sua colab com a Dickies © Cortesia
Uma das peças de sua colab com a Dickies © Cortesia

Você faz ou personaliza roupas também?

Sim. Eu sou formado em Design Gráfico, na verdade. Comecei a fotografar como hobby e virou um trampo. Usei disso para poder me comunicar com as pessoas, porque sou melhor com imagens do que com palavras. Mas eu uso as customizações independentes dos amigos que estão à minha volta e também já fiz colabs com outras marcas.

Quais são essas colabs?

Basicamente com todos os meus amigos e algumas marcas como a Dickies, de workwear. Fiz com o Ratsuo, de Porto Alegre, Francisco SKT. Fiz recentemente com a Luiza Santos, do LZST, e a PHSD, duas marcas independentes – uma é um coletivo de minas e a outra é de um amigo que faz bolsas sustentáveis. A mais recente é com a Korshi e a parceria se chama Korshi 01993: são dois acessórios inspirados em mim mesmo: o capuz tem espaço para o meu cabelo passar, os bolsos são do tamanho da minha câmera, tem lugares pra botar cartão SD e as roupas são impermeáveis, porque eu uso o elemento água em tudo. São peças orgânicas e impermeáveis.

Como aconteceu essa colaboração com o Pedro Korshi?

Ele estava fazendo um lance de mandar umas peças para algumas pessoas usarem por uma semana de diversas formas, porque são peças moduláveis, que você pode usar conforme sua criatividade. Quando me mandaram esse e-mail, percebi que a gente poderia fazer algo muito maior. Respondi me apresentando, mostrei meu trabalho e sugeri fazermos algo juntos. E aí a gente fomentou essa ideia. Eu vi que eles estavam para se mudar para o centro de São Paulo, num lugar que descobri que era a 10 minutos da minha casa. Eu ia lá tomar café e falar: “mano, quero fazer isso, isso e isso”. E aí a gente aproveitou para mostrar nesse desfile do SPFW.

 


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土地はますます住めない日ですが、私はすべての海が完全にクリーンである前であっても、数千人が死ぬだろうと信じています。 3018で空気が汚染され、息をする唯一の方法は、マスクを介して行われ、Hidratanismoはまだ唯一の救いとして立ってきれいな水の検索がますます困難であるが、次の水和における連帯は、人類が数以上生存することができます私はそう願っています。私はそれが何だったのか見逃します。アンドロイド細胞はちょうど今日の私の人間の部分の世話をしている私は、半分以上のロボットです。たぶん私は私が最後に新鮮な空気を呼吸するために死ぬことを危険にさらします。運のための水の波 🌊🌊🌊

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Quais são seus próximos planos?

Muitos! Todo dia tem projeto. Eu tenho uma cabeça que não para um segundo de produzir e criar coisas. Pretendo fazer uma coleção própria e uma colab com uma marca global, que já está acontecendo, mas ainda não posso falar. Ah, mas tem algo que eu tô pra fazer também, que é meu sonho: dirigir um filme de luta, estilo Bruce Lee. É um projeto, vai acontecer em breve.

Qual é a filosofia por trás do seu trabalho?

Ah, eu acredito em fazer o bem apenas por fazer. Eu não tenho religião. Eu só quero passar a minha filosofia de ser quem você quiser. Eu prego muito o rolê da água também. Eu não bebo, não fumo, a minha vida inteira foi isso, e uso o elemento água como elemento da vida.

Quero mostrar que dá para fazer coisas sem passar por cima de ninguém, e é isso. Fomentar seu próprio rolê, acreditar no seu sonho. Eu estava em um lugar que não existia a possibilidade de vencer na vida e hoje eu tô vencendo! Essa é a realidade da maior parte dos brasileiros e é isso que eu quero passar.

 


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