Música De Kenner, da dupla FBC e VHOOR faz sucesso ao celebrar a moda da quebrada

Ao citar camisas de futebol, bermuda de surf, óculos espelhados e o chinelo da Kenner, eles exaltam as peças como símbolo de valorização de uma identidade

capa do álbum Baile da dupla FBC e VHOOR assinada por Raideno. foto: wanderley vieira.
capa do álbum Baile da dupla FBC e VHOOR assinada por Raideno. foto: wanderley vieira.

Por Gabriel Fusari

Quem entra na hashtag #MandrakeChallenge no Tiktok, com certeza já se deparou com o hit “De Kenner”, que descreve as peças da moda que fazem parte do estilo que ecoa nos bailes funk. Exaltando a autoestima e identidade da periferia, o single foi produzido pelos músicos FBC e VHOOR, moradores da Zona Norte de Belo Horizonte. Com mais de 7 milhões de plays no Spotify e mais de 1 milhão de visualizações no Youtube, a faixa integra “Baile”, o mais recenete e aclamado álbum em conjunto da dupla.

“Aqui em Belo Horizonte tem uma coisa de Miami no funk, a gente vê que isso é algo nosso e não algo que se traz de fora. A gente chamava de funk de conscientização porque ele tinha uma mensagem na música”, comenta FBC, artista visual ganhador de inúmeras batalhas de MCs nos 20 anos de carreira. Ele ficou responsável pela produção de referências vocais e pela narrativa do álbum. A música foi a primeira faixa do álbum a ser desenvolvida no ritmo do Miami Bass, que é a influência master do funk brasileiro dos anos 2000. O estilo fez muito sucesso nos países da América do Sul entre os anos 80 e 90, levando artistas a fazerem suas versões em português com a batida.

A música “De Kenner”, que celebra peças de roupa e estilo favoritas dos frequentadores dos bailes, nasceu de uma conversa sobre moda, onde os dois artistas listaram memórias com as roupas que usavam e desejavam consumir. Ao pensar na Cabana do Pai Tomás, região em que cresceram, homenagearam a história da geração que viveu em volta do Baile da Vilarinho, o principal evento funk da cidade. Nessa comunidade se passa a história do protagonista do disco, chamado Pagode. O personagem é frequentador do baile da UFFÉ e durante um desses eventos, acabou sendo preso por engano. Faixa a faixa, FBC reflete a narrativa de figuras da região, descrevendo os ambientes e refletindo os costumes, os comportamentos e claro, as roupas dos moradores do local. 

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Comparando a cena musical dos anos 2000 com a atual, os artistas perceberam que as roupas da época são novamente tendência entre os frequentadores dos bailes.  O uniforme é exaltado na letra: “Nove em dez no baile tão de camisa do Messi / Cyclone, bigodin finin’, corrente e Juliet / Da mesma cor pra combinar com o Kenner”. Ao citar camisas de futebol, shorts de surfista, óculos espelhados e principalmente o chinelo da Kenner, os artistas exaltam as peças como símbolo de valorização de uma identidade.

“As roupas estão relacionadas com a afirmação de uma autoestima vinda de um estilo que era acessível para nós. Todas as peças descritas na música representam o Super-Chavoso, aquele que tem o estilo mais daora da quebrada” contextualiza  VHOOR. A música faz referência direta ao estilo Mandrake, muito popular em festas de música eletrônica e funk. “A música tem total relação com o Mandrake pois esse estilo é um espírito coletivo que acontece no Brasil todo. Toda periferia no Brasil se veste parecido”, alega FBC. Pelo fato do Brasil ser um país quente, a roupa tem que ser a mais prática no uso, pois como o autor da música descreve,  “é mais leve para correr, para dançar e rápida para secar”.

A estética também refletiu em outros elementos do álbum como a capa, a sonoridade e a estrutura. Assim como a roupa, todo álbum tem carga política. “De onde eu vim, pessoas sofrem muito preconceito e por isso acabam acreditando que não tem a capacidade de lançar uma estética e cultura. E eu acho muito muito legal quando a gente consegue enxergar isso, a gente tenta valorizar de todas as formas. É lindo ver toda a movimentação de todos para a exaltação da cultura da periferia”,  diz VHOOR.

FBC acredita que a moda, assim como a música, é uma forma de representação. Ele repara na adesão das peças que circulam em diversos ambientes e vê que a exaltação está ligada a validação social. “É uma moda que todo mundo usa. A galera está atenta a isso agora, em comprar mais roupas, principalmente aquelas que não se tinha acesso. Então, para se fazer circular e ventilar, tem que trazer o espírito do nosso tempo na música. A moda é representatividade, se a pessoa se identifica pela moda ela se identifica pela música”, comenta.  O artista também relata que a moda e a música foram algo que a periferia foi assimilando para si, e isso marcou gerações ao ponto de ser repassada para frente. “A produção de arte representa o resgate de um tempo”, pondera. 

VHOOR, que durante a infância conviveu com o Baile acontecendo em frente ao bar de sua mãe,  diz que a comunidade se sente muito feliz por ser representada em um trabalho. A música e a história da área vem ganhando amplitude nacional, sendo reverenciado por grandes críticos e veículos de comunicação, como Noize e Folha de S. Paulo. “As pessoas da Cabana se sentiram representadas na história cantada nas passagens das músicas. Tem uma afirmação cultural daquele lugar que aconteciam as festas e os roles. Isso mexe com a comunidade”, complementa.

Ao compor a letra, FBC tinha em mente não apenas olhar para o local em que cresceu, mas também representar aqueles que vivem em cotidianos semelhantes em outros lugares do país. “A De Kenner é uma ode ao espírito do favelado, que se identifica com as peças. Peças que identificam qualquer pessoa de quebrada no Brasil. Olhando para você ela vai ver que você é mandrake, escama ou chavoso. É entender que você faz parte do mundo dela”.


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