12.11.2018 / Fotografia / por

Juno Calypso: "Busco fazer a fotografia perfeita de uma mulher tentando criar a imagem perfeita dela mesma"

Whirlpool, Juno Calypso / Reprodução
Whirlpool, Juno Calypso / Reprodução

Juno Calypso está “no ar” agora com a campanha de Natal da Burberry, em uma série de retratos de artistas (M.I.A, Naomi Campbell) que fez usando uma de suas técnicas recorrentes em seu trabalho, que mostra o rosto da personagem como se dividido por um efeito de espelho.

Esta é uma oportunidade para trazer à tona o trabalho autoral dessa artista e fotógrafa inglesa, que despontou em 2015 como um talento novo para ficar de olho. E de lá pra cá tem estado cada vez mais em evidência. Só neste ano, ela participou de três exposições, em Londres, Berlim e Milão.

O que tem na imagem criada por Calypso que tem interessado tanto críticos de arte, colecionadores, designers e amantes da fotografia em geral? Pense em uma cronista dos nossos tempos habitando o cenário impecável de um filme kitsh e noir ao mesmo tempo, dando vida a uma mulher que busca ser perfeita, com doses ensaiadas de fetiche. Juno se auto-fotografa, revelando seu corpo – e quase nunca seu rosto – em situações que questionam o lado extremo da beleza, a juventude eterna e o anti envelhecimento radical – em outras palavras, até onde as pessoas vão para preservar sua juventude. Suas fotos têm alto impacto visual e uma atmosfera cinematográfica. “Estou tentando fazer a fotografia perfeita de uma mulher tentando criar a imagem perfeita dela mesma”, disse em entrevista à revista de arte Elephant.

What to do with a million years, Juno Calypso / Reprodução
What to do with a million years, Juno Calypso / Reprodução

Seu trabalho mais recente, What to do with a Million Years mostra sua busca por situações absurdas ou surreais dentro desse contexto. As fotos foram feitas em um bunker construído em Las Vegas na década de 60 por Gerry Anderson, fundador da Avon. Na verdade, trata-se de uma mansão subterrânea com quartos impecáveis decorados em rosa e branco, casa de hóspedes, área de churrasco, piscina e até um jardim falso com luzes que podem mudar o clima de dia para noite. Nesses ambientes, ela fotografou mais uma série de seu alter ego, Joyce, impondo regimes de beleza rigorosos e solitários em si mesma. “Antes só fotografava amigos ou modelos. Eu só aparecia na frente da câmera para fazer testes e, para me sentir menos envergonhada, fazia caras engraçadas ou cobria o rosto completamente”, diz ao site It’s Nice That. Seu professor da faculdade viu os testes e a encorajou a continuar no papel principal da foto. E assim nasceu Joyce.

Com Joyce, Juno foi parar em um motel nos Estados Unidos onde se fotografou sozinha curtindo um lugar que normalmente recebe casais em lua de mel. A série ganhou o nome de The Honeymoon e fala sobre desejo, feminilidade e solidão, revelando o trabalho oculto das mulheres por trás das portas dos banheiros. Sua ideia era estender essa série com retratos feitos em locações similares no Brasil e no Japão, mas ela acabou focando somente nessa região, na Pensilvânia.

No primeiro semestre desse ano, ela lançou uma instalação na Galeria Melissa, em Londres, chamada The Salon, sobre a relação da mulher com os salões de beleza. “Queria fazer algo sobre a relação que tem com você mesma. Sinto que toda a experiência de ir a um salão tem conotações religiosas, você se desnuda e entra em uma sala para ser embalsamada, e a coisa toda é sobre o terror da morte. Todas essas máscaras e loções estão gritando ‘por favor, não morra! Por favor, não se decomponha'”. 

Este trabalho específico tem como referência o livro The Beauty Myth, de Naomi Wolfe em que ela discute como os homens nunca são identificados como “brilhantes”
ou “radiantes”, enquanto a mulher deve ser um anjo brilhante; que não pode ser chata ou entediante. “As marcas de moda também estão sempre mostrando uma mulher com a pele brilhante, molhada, suada. Eu pulverizei tantas coisas na minha cara tentando conseguir esse efeito… É como se estivéssemos tentando ser um pedaço de fruta, suculento e molhado”, diz a The Elephant.

The Salon, Juno Calypso / Reprodução
The Salon, Juno Calypso / Reprodução

Sobre suas locações que nos parecem estranhamento familiares, mas que mesmo assim não conseguimos dar um lugar e um tempo exato a elas, Juno diz que passa horas por dia pesquisando no eBay e que já deve ter entrado em todos os quartos do TripAdvisor. “Gosto de encontrar lugares que te dão uma ideia de estar preso em um enredo. Não tem uma época específica, mas tem que ser estranho. E geralmente rosa. Hoje em dia está mais difícil de encontrar porque sempre quando busco por suite rosa de lua de mel, só aparecem fotos do meu próprio trabalho”, ri.

E é interessante notar como Juno usa Joyce para conquistar algo que ela própria não tem. “Porque construí minha carreira tirando fotos de mim mesma, as pessoas acham que sou muito confortável comigo mesma, mas é o oposto. Sempre acho que não sou fotogênica e me ver através da câmera só aumenta esse meu transtorno. Mas  encenar minhas fotografias com tanto cuidado e me usar para fazer as pessoas rirem me ajudou a superar isso”, disse à i-D.

Há muitos artistas e fotógrafos surgindo a cada momento e não são todos que conseguem criar um universo visual pelo qual são reconhecidos. Em poucos anos de carreira, Juno Calypso já mostrou que este não é o seu caso.


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