Portfólio: as ideias por trás da fotografia da carioca Marina Benzaquem, de 17 anos

Marina Benzaquem / Cortesia Olivia Castro
Marina Benzaquem / Cortesia Olivia Castro

Por Julia Pitalunga, em colaboração para o FFW

A artista e fotógrafa carioca Marina Benzaquem tem 17 anos, mas seu nome já está no boca a boca de fashionistas. Vitorino Campos, por exemplo, considera Marina “um surto” e já trabalha com ela há três anos. Ela produz, fotografa, edita, posta e participa desde as provas de roupas até o backstage dos desfiles da marca própria de Vitorino.

Suas fotos são realistas e caseiras. Para ela, mais do que a construção de uma imagem perfeita, o que vale é a mensagem por trás ou um conteúdo extremamente sensorial, característica que ela diz ser importante para sua geração.

Marina é filha de um produtor musical, Mauro Benzaquem, e de uma diretora de marketing, Monica de Souza, da Animale. Além das referências culturais que vieram da família, conta também o fato de que ela nasceu em uma geração praticamente desprovida de tabus, em que as complexidades do sexo e da figura da mulher são assuntos comuns e diários tanto na escola quanto em casa.

Ela ainda está no 3º colegial, mas dedica todo seu tempo livre às suas pesquisas e ao trabalho ao lado de Vitorino. Sons, palavras soltas, sensações e cenas de rua são anotadas em seu moleskine para depois virarem fotografia, nua e crua.

Leia abaixo as ideias, pensamentos e inspirações de uma menina de 17 anos que quer usar a fotografia para criar conteúdos sensoriais:

Como e quando foi sua introdução na fotografia?

Meus pais trabalham com música e moda, isso com certeza influencia até hoje na forma como me relaciono com todo esse universo cultural que convivo, pois desde pequena acompanhei eles de perto em shows e desfiles. Filmes e livros são referências muito fortes pra mim. Também sempre gostei muito de cinema e desde os 11 anos eu editava coisas, era meio nerd, ficava pesquisando e tentando descobrir como eu podia produzir mini filmes. Minha paixão pela fotografia em si só aflorou quando minha mãe entrou para a equipe da Animale e tinha que fazer trabalhos de pesquisa de imagem. Quando eu tinha 14 anos, ela ganhou muitos livros e revistas da Beth Nabuco (diretora criativa da Animale) e eu folheava por curiosidade. Esse material me ajudou muito a desconstruir a imagem fútil e material que eu tinha do universo da moda e me fez perceber a arte que existia ali. Descobri um novo mundo. Tudo é informação e experiência. Meus amigos, as festas que frequento, as pessoas que vejo na rua.., tudo se complementa na minha cabeça e se conecta na hora que fotografo ou penso em um editorial. Pra mim, a estética está na forma como você vê o mundo ao seu redor e como traduz isso de uma forma orgânica, natural.

Você fez algum curso de fotografia? 

Eu fiz um mini curso de fotografia na escola, mas nada especializado. O que eu faço flui. É muito orgânico e natural e, acima de tudo, muito caseiro. Eu estou no terceiro ano do colégio e utilizo meu tempo livre pra fazer pesquisas e, enquanto pesquiso, descubro novas formas de fotografia, novas referências, novas paixões, novos aplicativos online e por aí vai. Meu tempo livre acaba sendo produtivo pro meu trabalho.

Quais são suas referências e pontos de partida na hora de fotografar? 

Desde que eu descobri esse novo mundo em 2013, não paro mais de pesquisar e de prestar atenção a tudo que se passa a minha volta. Existem fotógrafos que eu admiro, de Steven Meisel à Harley Weir. Steve, aliás, foi por muito tempo a minha referência mais forte de fotografia de moda, principalmente por causa daquele editorial das mulheres enfaixadas na Vogue Italia. Mas não me apego a estética deles, eu gosto de contar histórias próprias, criar algo singular que tenha a ver comigo, por isso minhas maiores referências são objetos abstratos como uma fala, as conversas com meus amigos, o cotidiano, a rua, poesia, filmes e literatura, muita literatura. Não gosto da ideia de me inspirar no trabalho fotográfico de alguém, de pegar uma foto que já existe e fazer uma releitura em cima dela. Anoto tudo o que imagino de cenas, palavras soltas, coisas que escuto e acho interessante no meu moleskine. Foi até ideia do Vitorino eu organizar meus pensamentos assim; lá é onde começo todo o processo criativo de um editorial e onde eu encontro minhas pesquisas juntas. Eu desenho, rabisco, escrevo e faço colagens. Minhas fotos são muito caseiras e espontâneas, nada pensadas, nada montadas e os ângulos aparecem naturalmente na minha mente. Os editoriais são entre amigos e os cenários são escolhidos na hora.

Você faz o material fotográfico das redes sociais do Vitorino Campos. Como começou a parceria?

O primeiro desfile que fui da marca com ele à frente foi no dia do meu aniversário de 15 anos. Minha mãe tinha que ir e acabei indo junto para São Paulo pra não passar meu dia longe dela. Naquela época eu ainda estava começando a entender como a moda funcionava, apesar de sempre ter frequentado desfiles com minha mãe. O Vitorino começou a me seguir no Instagram, se identificou com minha linguagem e me convidou pra trabalhar com ele quando eu ainda estava no primeiro ano do colégio. Desde então, eu faço as redes da marca própria do Vitorino e das parcerias dele, fotografo e participo de provas de roupa ao backstage desde 2014. Eu monitoro tudo online, organizo planejo, fotografo e edito tudo o que vai entrar tanto no Instagram quanto nos Stories da marca. Faço todos os gifs e animações pro social media também. Ele me deixa muito solta e livre, confia em mim e me apoia muito quando o assunto é colégio – ele não quer que o trabalho me atrapalhe nos estudos. E me sinto muito acolhida com isso, de ter a oportunidade de fazer os dois e ter ele praticamente como meu mentor!

Uma página de seu caderno de anotações
Uma página de seu caderno de anotações

Seu olhar não tem filtros e sua fotografia é bem comportamental. Como você define a sua estética?

Acho que estética é algo mutável pra ser definida assim. Meu material tem mais a ver com o conceito, tem que ter um conceito forte mais do que uma imagem forte. Fazer pensar é mais interessante e transgressor. Essa é a beleza, é ser algo natural mesmo. Se não tiver uma mensagem e uma voz por trás, não tem significado pra mim. Contar uma história estética de um jeito mais lúdico de coisas que pra mim são questões consideráveis é o que eu busco hoje. Por exemplo, em um dos meus editoriais usei o ‘toque’ como mensagem subliminar. Ouvi durante uma aula de química: a gente só não entra em uma pessoa porque nossos elétrons nos impedem disso – fiquei instigada com essa afirmação, anotei no meu caderninho, li poesia e vi várias esculturas que me levaram ao assunto e fui lá fazer.

O toque tem muito isso, de não tocarmos mais as pessoas, ele se tornou algo raro, é uma característica da minha geração e da globalização. Eu nasci com os toques somente de celulares e computadores, o toque pra mim é algo difícil de acontecer chegando a ser até diferente quando praticado. Também fiz um ensaio chamado Venom, ligado à liberdade sexual da mulher. Li um poema de uma feminista num blog independente que dizia que ela estendeu a mão pra um homem e enquanto estendida,  viu a própria cobra. Essa história dá várias interpretações. Apurei com minhas amigas, discutimos sobre o assunto e sobre o significado de cobra nas civilizações antigas como poder da mulher, sexualidade, fertilidade e até sobre o falo. Achei interessante e fiz duas sessões de ensaios entre amigos, tudo bem caseiro e espontâneo, mas muito bem apurado.

Além do seu trabalho pessoal e com o Vitorino, o que mais tem tomado seu tempo?

Eu estou em processo de desenvolvimento de um projeto online muito especial em parceria com o Clube Melissa, para o Instagram deles. O processo é escolher os produtos mais difíceis e diferentes da coleção atual e fazer fotos mais conceituais deles, já que as fotos que o clube faz são só comerciais. Claro que não posso fugir da identidade da marca e nem pirar muito, mas colocar o meu olhar e o que eu acredito nesse trabalho é a proposta deles, ter mais a foto pela foto do que a foto versus o produto. Fora isso, estou prestes a me formar e penso em fazer faculdade de Filosofia ou Cinema, ainda não sei…

Que equipamento que você para fotografar?

Eu uso filme em algumas ocasiões. A câmera que eu uso é uma Canon T5, bem simples, o que não é considerada tão profissional pra um fotógrafo. Descobri até que é a câmera da Blue Ivy! (Risos). E eu não edito minhas fotos, o que mais mexo é na luz mesmo ou a coloco em preto e branco, mas editar não edito nada, são cruas, acho que tem muito a ver com a característica da minha geração também. O que outras gerações consideram polêmico ou ruim, pra mim é natural e bonito. Acho que as fotos transmitem essa mensagem de uma nova geração.

E para você, o que é mais importante? A técnica ou o olhar?

 Acredito que, mais do que técnica e olhar, o mais importante é um conteúdo sensorial. A qualidade é boa para uma impressão, mas o que fica é o sentimento e a mensagem. Quanto mais conteúdo relevante você acumular, melhor. Hoje é muito fácil pegar inspiração de outras pessoas, mas pra quem trabalha com imagem a melhor forma é ter referências textuais e sonoras. Tudo se complementa no final das contas: a moda se encontra com a arte, que se encontra com a natureza, há um ponto de interseção entre tudo no mundo, basta você criar o seu próprio espaço e não olhar pro dos outros.


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