A Gen Z está obcecada com o Old Money: Por que isso pode ser problemático?

Jovens tem gravado vídeos de looks e aesthetics inspirados no ‘Dinheiro Velho’ na rede social

Casablanca | Reprodução
Casablanca | Reprodução

Que o Tiktok é um antro de novas tendências e estéticas das novas gerações, você já deve saber. Recentemente, a estética do Old Money tem tomado conta da rede social, com mais de 320,9 milhões de visualizações sob a hashtag #oldmoney, 90 milhões sob #oldmoneyaesthetic e mais milhões sobre outras variações da tendência.

O QUE É ESSA ESTÉTICA?

Old Money, em inglês, significa ‘dinheiro velho’, literalmente e é um termo utilizado para designar fortunas derivadas de herança, portanto um dinheiro herdado e acumulado ao longo de gerações, e, por isso, velho. Imageticamente falando, é a estética de herdeiros, nascidos ricos e cheios de capital acumulado. O Old Money é mais comum em países em que não houve aristocracia ou monarquia e o dinheiro começou a ser acumulado pelos burgueses principalmente a partir Revolução Industrial.

Se isso te lembra Lana del Rey ou Gossip Girl, você não está enganado! Vários vídeos da rede social são embalados por músicas de Lana del Rey, majoritariamente do primeiro álbum, com a estética Sugar Baby da cantora, ou áudios da série Gossip Girl, seja a original ou o remake lançado recentemente.

Lana del Rey em shooting do álbum Chemtrails Over The Country Club
Lana del Rey em shooting do álbum Chemtrails Over The Country Club

A estética também se parece muito com isso: mansões ou casas de campo com lustres e quadros renascentistas servem de pano de fundo para looks que costumávamos chamar de preppy. Derivado do termo Preparative School, o preppy é o estilo tipicamente usado em colégios particulares internos norteamericanos e britânicos composto por coletes, suéteres, saias rodadas e peças em xadrez, muito frequentados justamente por herdeiros e usado pelos jovens de Gossip Girl, por exemplo.

Além disso, os looks inspirados no universo do tênis e do hipismo tipicamente esportes ligados ao estilo de vidas dos mais abastados, também servem de inspiração para os jovens que seguem essa estética no TikTok. O objetivo é se parecer com um herdeiro e se vestir como rico – por mais que isso se pareça com um estilo de vida das décadas passadas.

Para se colocar em marcas, imagine conjuntinhos de tweed da Chanel, os típicos aparatos esportivos de tênis da Lacoste, camisetas e polos da Ralph Lauren, tudo adornado com delicados acessórios em pérolas e ouro branco. Além das marcas centenárias que vestiam os milionários e bilionários da época, novos nomes como a Casablanca também tem navegado de braçada nessa estética.

O QUE MOTIVA ESSA TENDÊNCIA?

Como qualquer fenômeno cultural, é difícil apontar um único motivo ou evidência que pode ter motivado a febre pela estética do Old Money. Talvez nossa obsessão com a aristocracia – tão visível em séries como Bridgerton, The Royals e o sucesso de Crown – possam explicar, ou mesmo a série Gossip Girl, que ganhou um remake ainda neste ano e até vídeos das canções mais antigas de Lana del Rey, revividas pelas novas gerações no TikTok.

Essa estética também aparece com uma certa repulsa à estética dos novos ricos, ou New Money, pessoas que enriqueceram recentemente. Os novos ricos, com frequência são artistas, personalidades da mídia, asiáticos, mais caracterizado por looks extravagantes e pela ostentação. De certa forma, a tendência do Old Money vem como um contraponto à tendência do Y2K – os looks chamativos, sensuais e cheios de brilhos dos anos 2000, principalmente usados por celebridades. É como uma resposta dos fãs do look casual-rico dos herdeiros milionários e bilionários às produções exageradas e carregadas dos influenciadores e celebridades, que adquiriram capital e riqueza a partir dos anos 2000.

Imagem: Reprodução Pinterest
Imagem: Reprodução Pinterest

O QUE EXPLICA O RETORNO DESSA ESTÉTICA

De alguma forma, é quase como um grito conservador de uma moda e estética tradicionalmente “elegantes”. O fato é que culturalmente existe uma espécie de obsessão com a riqueza e o lifestyle dos ricos, e isso não é nenhuma novidade.

Mas surpreende que esse retorno esteja sendo feito pelas novas gerações no TikTok. Isto é, à medida que as discussões sobre acúmulo de capital, desigualdade social agravada pela pandemia e a taxação de grandes fortunas ao redor do mundo se aquecem, valorizar o Old Money parece, no mínimo, fora do tom. Não obstante, vale dizer que as figuras que protagonizam os movimentos estéticos do Old Money são, majoritariamente, brancas. Afinal, é esse grupo social e racial o maior detentor das maiores fortunas há anos, décadas, séculos.

Grupos sociais tradicionalmente marginalizados começaram a vivenciar alguma ascensão social na virada do milênio, rappers, artistas, cantores e outros profissionais começaram a frequentar os mesmos lugares que os brancos herdeiros e se tornaram a nova classe de milionários New Money. Nesse sentido, é, de alguma forma inevitável questionar as motivações e o que há por trás da tendência do Old Money.

Por outro lado, de alguma forma, a tendência do Old Money pode servir como uma espécie de escapismo, o sonho de uma segurança financeira que parece cada vez mais distante para os jovens ou ainda, uma recusa às tendências fugazes e exageradas que dominam as redes sociais hoje. No entanto, esses jovens criadores parecem falhar em perceber que parte da raiz desses problemas está justamente na acumulação de capital e vão justamente às mesmas redes sociais que produzem essas tendências fugazes para postarem seus looks Old Money. 

Casablanca | Cortesia
Casablanca | Cortesia

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