26.10.2020 / Moda / por

AFROPUNK 2020: o festival feito com dendê

Por Pedro Batalha

Criado em 2005 como um espaço político de protagonismo e emancipação da cultura negra no mundo, o festival Afropunk desembarcou em Salvador, na Bahia, com um enorme desafio pela frente: produzir shows simultâneos em quatro lugares no mundo durante uma pandemia. “Foi uma correria enorme, porque a gente vive em uma cidade que não tem tanta estrutura quanto o eixo Rio-São Paulo, então foi uma aposta muito grande escolher a Bahia como base do Afropunk esse ano”, nos contou Bruno Zambelli, diretor criativo responsável pela direção dos shows nacionais na edição que aconteceu 100% digital durante o último final de semana.

As apresentações foram gravadas no atual Centro de Convenções de Salvador e no histórico Passeio Público, em frente ao Teatro Vila Velha. Com poucos dias para realização das gravações, a equipe de produção pensou em alternativas criativas e eficazes para mostrar ao mundo o melhor que a Bahia tem a oferecer culturalmente.

>Veja o estilo vibrante do público do Afropunk 2019<

Além de ser espaço de diversidade musical, o festival também é um espaço para explorar as possibilidades de criação de imagem de moda e foi pensando nisso que os estilistas Pedro Batalha e Hisan Silva, da Dendezeiro, assinaram o styling e o figurino do Global Stage, vestindo artistas como Larissa Luz, Àttoxxá, Afrocidade, Hiran e Mahal Pita. A maquiadora de Lailane Dorea (Beberes) foi responsável pela beleza dos artistas.

Com apenas quatro dias para criar e produzir figurinos para mais de 20 artistas performarem durante o festival, os estilistas, junto com a direção criativa de Bruno Zambelli e a direção de arte de Leonardo Tavares, deram vida ao conceito de cada show.

O show do Àttoxxá teve participação de Hiran e tinha como tema a Nasa, representada através de iluminação e projeções espaciais. O figurino foi pensado para transformar os integrantes da banda em ‘Astronautas Baianos’ através de uma releitura fashion de um uniforme espacial. Os macacões brancos foram decorados com listras bordô que trouxeram um toque de sportswear para a estética espacial. Hiran foi representado como um ser alienígena punk do espaço, com peças como uma camisa de paetê prata e um colar metálico da Afrotik. “Estar no Afropunk foi uma experiência incrível. Eu sempre sonhei em estar em um palco dessa magnitude, ainda mais com uma causa tão nobre e tão próxima de quem eu sou” disse Hiran.

>Veja o editoral Hiran<

Áttoxxá. foto: hisan silva
Áttoxxá. foto: hisan silva

As cenas da cantora Larissa Luz com participação de Carlinhos Brown tiveram múltiplos conceitos que se conectam em um único tema: ‘Ancestralidade Futurista’. Os figurinos propunham uma releitura das tradições de religiões de matriz africanas, banhando diversas simbologias religiosas num futurismo baiano. Em um dos seus figurinos, a cantora faz referência ao orixá Iansã, através de uma armadura prateada com búzios cromados confeccionada pelo Atelier Fabulous em Salvador, sugerindo o culto e a permanência dessa matriz no futuro.

larissa luz. foto: hisan silva
larissa luz. foto: hisan silva

A performance do Afrocidade com Majur e Mahal Pita com a temática de “Cidade”, era o momento de mostrar um pouco de Salvador através do cenário e do figurino. Com isso, os estilistas reuniram diversas marcas soteropolitanas de microempreendedores – a maioria encabeçada por pessoas negras. Estão entre elas: Munira, Teroy13 e artistas como Dulove e Bernardo Conceição. Majur foi vestida pelo stylist Bruno Pimentel com um look da estilista Jal Vieira e acessórios de Flávia Schumann.

Produção dos shows

Os shows tiveram estruturas de iluminação e projeção criadas especialmente para cada apresentação. O artista digital Leonardo Tavares foi um dos nomes que trabalhou pela primeira vez num audiovisual dessa magnitude. “Foi um sentimento que eu, desde que recebi o convite até hoje, não consigo explicar. Sempre foi um sonho ir ao festival, mas ter meu dedo num projeto desses foi mágico. Trabalhar dessa maneira com audiovisual foi algo que eu nunca havia feito e tô muito feliz com o resultado de tudo. Salvador foi o lugar certo pra que esse rolê acontecesse, afinal, é o maior festival de cultura preta do mundo acontecendo na cidade mais preta fora da África”, diz Leonardo.

Todo o braço brasileiro do festival foi construído por uma equipe baiana, do processo de concepção à produção, figurino e styling, montagem de equipamentos e estrutura e diversos outros serviços. “O mundo precisa entender o que a gente faz. Não é pra sermos vistos como ‘menores ou pequenos’ e sim em um nível global. A gente faz história e forma opinião”, ressalta Zambelli.

No meio do festival, batemos um papo com a coordenadora de produção Joyce Alexandrino.

Como foi o processo de produzir o festival Afropunk? 

Afropunk é sempre um desafio! Sempre acompanhei o movimento, de longe, através das redes e porque esse é um universo com o qual eu me identifico muito. Quando trabalhei na produção do Carnaval Afropunk – primeira iniciativa do festival aqui na cidade -, o processo já foi intenso e prazeroso e agora essa emoção se repetiu. Foi rápido, tivemos poucos dias para produzir tantas atrações e conteúdos diferentes, mas por contarmos com uma equipe que já conhece e se reconhece na proposta do projeto, as coisas fluíram muito bem. Estamos orgulhosos e confiantes de ter feito um trabalho que apresenta e representa muito bem os talentos afrobaianos.

Para você, qual a importância deste festival ter ocorrido na Bahia?

Acho que essa é uma importância que estamos construindo desde a confirmação de que a primeira edição do festival na América Latina aconteceria na Bahia. Quando um projeto desse tamanho decide apostar numa cidade, isso traz movimento para diversas áreas, dos artistas à rede hoteleira e, mais do que isso, planta frutos. O plano era realizar a primeira edição física agora em novembro na cidade, mas por conta da pandemia houve o adiamento. Na primeira versão global e digital do festival, tivemos talentos baianos que têm um valor artístico enorme e que, mais do que isso, inspiram novos criadores a acreditarem que é possível estar no maior festival de cultura negra do mundo sem sair da própria cidade. Então podemos dizer que isso é importante para a Bahia porque potencializa a cena que temos hoje e nos motiva a construir possibilidades para a juventude preta no futuro.

 

 


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