Alta Costura Digital: Por que não?

Leanne Young e Catty Tay, do IoDF falam sobre seu trabalho e os impactos na indústria da moda

detalhe do vestido de alta costura digital para o ateliê august getty
detalhe do vestido de alta costura digital para o ateliê august getty

Quando falamos em Alta Costura, você provavelmente deve pensar em roupas feitas artesanalmente por dezenas de mãos especializadas num ateliê em Paris – afinal, esse é um dos critérios para ser parte desse seleto grupo de marcas. Mas talvez seja tempo de repensar esses conceitos. 

O Institute of Digital Fashion (IoDF), um dos players mais destacados à frente do mercado de moda e arte digital, criou uma série de looks chamados de Alta Costura Digital. Bom, se pararmos para pensar, esses looks também foram criados manualmente e com mais detalhe e cuidado – mesmo que as mãos em questão operem máquinas. Vale pontuar, também, que criar uma escultura digital pode ser tão difícil e exigir uma mão de obra tão qualificada quanto criar algo físico. 

Para entender um pouco mais sobre esse cenário e como os NFTs podem impactar o futuro da moda digital, conversamos com Leanne Young e Catty Tay, as mentes e mãos por trás do Institute of Digital Fashion, que já tem entre seus clientes marcas como Balenciaga, Nike, Selfridges, Samsung entre outras.

Catty e Leand IoDF | Divulgação
Catty Tay e Leanne Young, fundadoras do IoDF. foto: cortesia

Para muitas pessoas, quando falamos de Alta Costura, algo tão artesanal e feito à mão, pode parecer antagônico falar de moda digital. Como vocês veem isso?

Nosso trabalho abriu uma série de novas conversas na indústria da moda. Uma grande questão da alta costura digital versus física, é que, se os mesmos padrões se aplicam à categoria, pode o exclusivamente digital ser Alta Costura?

Muitos criadores digitais concordaram, mas também ouvimos pessoas dizendo “É apenas um programa de software”. Grande parte do trabalho que estamos entregando com o IoDF é desmistificar o cenário digital, que é o porquê de mostrarmos o backstage e os elementos humanos, a cria e o criador. 

É antagônico para a comunidade de moda, como a mudança não é algo que a indústria gosta, mas estamos aqui para encabeçar a mudança e deixar as pessoas desconfortáveis. 

o processo de construção digital do vestido de alta costura
o processo de construção digital do vestido de alta costura

Existe um alto nível de detalhamento e trabalho nas peças que temos visto da Alta Costura Digital. Em termos de preço e tempo, existe uma estimativa de seu preço? Existe um mercado consumidor para isso ou estamos falando de um trabalho mais experimental e artístico?

Esse projeto existiu no duelo entre duas áreas: a beleza do digital é sua versatilidade, mas, especialmente com esse projeto, ele serviu a diversos propósitos: uma campanha de PR, um briefing de marketing e mídias sociais e entregou para o consumidor uma perspectiva de visualização 360º da peça e uma réplica física. 

O projeto custou bastante, mas o resultado valeu a pena, o fato que foi a primeira vez no mundo também foi um momento incrível. O IoDF modelou a peça, nosso ateliê digital, foi somente os olhos e mãos do ateliê físico, recriando cada pérola, costura e ornamento. Foi um trabalho experimental nesse sentido, à medida que nos levou a testar nossas capacidades ao máximo. 

Sobre as roupas digitais, não achamos que ainda estamos vendo a próxima fase, está meio parado. São usadas na fase no design e então na esfera do marketing, mas não tem sido bem utilizadas no meio. Temos visto alguns esforços no sentido de experimentação de roupas virtualmente, mas a conexão entre o digital e real ainda não aconteceu, ainda parecem truques de led e fogos de artifício. Estamos buscando avançar a agenda da moda digital para a realidade em que ela merece estar, onde é usada do conceito ao usuário. 

“Temos visto alguns esforços no sentido de experimentação de roupas virtualmente, mas a conexão entre o digital e real ainda não aconteceu…”

Além de criar roupas digitais para o consumo, o IoDF tem também um importante papel educativo e criativo na moda, certo? 

Nós do IoDF somos um emblema por mudanças, acreditamos na educação desde o início, para mudar e reimaginar um novo sistema. O Institute of Digital Fashion foi criado para reestruturar um sistema quebrado, oferecendo alternativas progressistas e inclusivas aos modelos tradicionais do ciclo da moda, criação e produção. 

Estamos trabalhando para criar essa realidade inclusiva, diversa, um espaço onde vozes marginalizadas podem ser ouvidas e cedidas uma plataforma para serem representadas em sua integridade. O IoDF está aqui para desafiar o status quo e transformar conversas em ações reais. 

Os sentidos da moda estão mudando, então estamos trabalhando com stakeholders como as companhias de software para garantir mudanças ativas. Educação não apenas no sentido formal, mas sobre as marcas, as companhias de software e os criadores que precisam trabalhar juntos.

Também estamos trabalhando dentro da academia, LCF, Central Saint Martins, Chelsea, Parsons, Assembly Africa. Estamos trabalhando com parcerias para realmente construir uma trajetória de aprendizado. Também dentro do IoDF estamos lançando um programa educativo para indivíduos marginalizados, um espaço de aprendizado entre real e virtual (IRL X URL), em parceria com a Dazed com aplicações nos próximos 2 meses. 

projeto com a LFW e a multimarcas Machine-A
projeto com a LFW e a multimarcas Machine-A

Em tempo, vocês acreditam que a moda digital servindo a grandes marcas que já dominam o mercado de moda, pode ser de alguma forma negativo?

Nosso objetivo é democratizar o cenário, muitos dos nossos trabalhos olham para a esfera na moda para construir uma nova realidade, sem estruturas arcaicas. Então sim, a criação digital é cara, então predominantemente, grandes marcas que conseguem usufruir desses serviços. 

Pensando nisso, lançamos um braço filantrópico do IoDF para facilitar o trabalho digital para designers emergentes. Nosso mais recente projeto para a LFW foi parte disso. Na última Semana de Moda de Londres, nossos designers foram atingidos pelo Brexit e as lojas estavam fechadas devido ao COVID, então presenteamos nossos serviços para criar uma campanha de realidade aumentada que estampou diversos outdoors por Londres. O projeto foi um showcase de 10 designers (dentre eles A Cold Wall, Martine Rose e Richard Quinn) em parceria com a multimarcas Machine-A recriada em realidade aumentada.

“Pretendemos democratizar a paisagem, muito do nosso trabalho olha para a esfera da moda e tenta construir um novo, derrubando o antigo paraíso e estruturas arcaicas.”

O mundo todo tem falado sobre NFTs, de forma positiva e negativa. Existe a questão da criatividade, ricos ficando mais ricos e da sustentabilidade. Com tudo isso em mente, qual é a visão de vocês sobre NFTs, artistas digitais e a moda? 

Nós sentimos que existe um espaço para as NFTs, especialmente dentro do metaverso, elas serão uma corrência comum e mais útil para a comunidade digital para validar e proteger a arte. 

Temos algumas soluções interessantes e feedbacks importantes no que tange a questão da sustentabilidade. Obviamente temos NFTs sendo lançados, que tem sido preparados há bastante tempo, apenas esperando o momento certo para lançar. Você sabe que algo atingiu seu auge quando a sua avó te manda uma mensagem sobre! 

É nesse lugar que o NFT se encontra, borbulhando no auge do seu hype e com a repercussão negativa tentando estourar estas bolhas…


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