Cami Talks: A coragem e a paixão por trás das marcas independentes

Uma homenagem aos estilistas que tocam a nossa alma

Apresentação de Flavia Aranha no SPFW N51 / Foto: Cai Ramalho
Apresentação de Flavia Aranha no SPFW N51 / Foto: Cai Ramalho

Ao encerrar a transmissão ao vivo do SPFW, eu achei importante parabenizar as marcas que participaram e conseguiram entregar um material que, de fato, nos convidasse a mergulhar em seus universos. Apesar dessa ser uma tarefa que parece óbvia, ela não é das mais fáceis, especialmente nesses tempos tão duros em que vivemos.

Daí no dia seguinte vi esse depoimento do Marc Jacobs após apresentar sua primeira coleção desde o início da pandemia. Ele diz assim:

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“Na jornada de volta para fazer o que mais amamos, após uma perda incomensurável, solidão, medo, ansiedade e incerteza, me lembro de por que a criatividade é tão vital para nossa existência.

Nossa decisão de fazer uma pausa nos permitiu desacelerar, refletir, ruminar, reavaliar, lamentar e fazer um inventário completo do que funciona, do que não funciona, do que amamos, do que estamos dispostos a abrir mão e o que tem valor, importância e significado.

Criar uma coleção requer um enorme esforço, ao longo de muitos meses, de nosso pequeno grupo de indivíduos extraordinariamente talentosos e dedicados.

Encontramos propósito no trabalho em momentos de alegria transcendentes poderosos e intermitentes. E enquanto o mundo continua a mudar com uma velocidade inimaginável, meu amor pela moda, a vontade de criar e compartilhar coleções por meio deste sistema de entrega – a passarela – perdura”.

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Era exatamente o que eu sentia e queria passar para esses estilistas, a maior parte deles pequenos e independentes, que produziram não apenas uma coleção, mas também um video de lançamento, com pouco tempo e poucos recursos. Mas é justamente aí, na escassez, de onde brota o verdadeiro propósito e quando temos a rica oportunidade de lembrar o por que fazemos o que fazemos. Onde nos encontramos novamente com a paixão. Aquela que some em meio aos problemas do dia a dia, à falta de grana, ao eterno multitasking de um pequeno empreendedor.

Apresentação da Led / Foto: Italo Gaspar
Apresentação da Led / Foto: Italo Gaspar

Me impressionou o trabalho apresentado pela Led, marca pequena de Celio Dias, que veio com uma coleção de quase 50 looks e um video cheio de modelos e artistas em cenários e moods diferentes. Dá pra ver cada gota de suor, dá pra sentir o amor e o poder do coletivo.

Outra marca que me tombou foi a Meninos Rei com seu maximalista afro cheio de história e uma imagem absurda de forte. Vimos não apenas a essência da marca potencializada, mas também uma evolução dos irmãos Junior e Céu Rocha em termos de criação e do que sua marca pode ser.

Para mostrar uma coleção, é preciso ter uma história para contar. Isso se você quiser fazer a diferença, se quiser tocar seu consumidor, amigo ou fã. Não se trata mais de ter apenas um bom produto. Queremos cada vez mais mergulhar no seu mundo. Queremos nos inspirar, olhar para o seu trabalho e falar: uau, que incrível, eu quero estar ao lado dessa marca. É um grande esforço por parte da equipe criativa, mas se a empresa estiver bem estruturada em sua verdade, em sua história e em seu por que de existir, ela não vai ter problema em fazer essa conexão.

Meninos Rei / Foto: Bruno Gomes
Meninos Rei / Foto: Bruno Gomes
Renata Buzzo / Foto: Haryan Buzzo
Renata Buzzo / Foto: Haryan Buzzo

Flavia Aranha criou oito looks (ou criaturas, entidades?) e a eles deu os nomes Mulher Antiga, Mulher Casulo, Mulher Borboleta, Mulher Retalhos, Mulher Amarela, Mulher Rosa, Mulher Metamorfose e Mulher Tupinambá. Reuniu um grupo plural de mulheres e fotografou em meio a natureza com nomes da nova geração (Cai Ramalho e Mariana Caldas) em um processo coletivo e que enaltece a linda rede de artesãos e colaboradores que ela vem construindo ao longo dos anos.

Ronaldo Fraga transformou uma viagem ao Cariri, no Ceará, em coleção e filme. Uma criação generosa e afetiva baseada em encontros e aprendizados e que fala muito também sobre o momento atual.

Fiquei emocionada com o depoimento de Walério Araujo, um guerreiro da moda independente, que há anos trabalha duro pra manter sua grife e, apesar das dificuldades, sempre passa uma imagem de alegria. Mas ele me disse que também chora muito. E entre risos e lágrimas, está celebrando 30 anos na moda. #RESPECT

Projeto Sankofa, João Pimenta, Soul Básico, Renata Buzzo, Weider Silveiro, Freiheit, Ju Jabour, Another Place, Modem, ÀLG, Martins, Neriage, Ponto Firme e Isaac Silva são também outras marcas que mostraram materiais potentes que conseguem espelhar sua identidade com clareza, mas também nos faz vislumbrar sua sensibilidade e paixão pela moda.

Isaac Silva / Foto: Flora Negri
Isaac Silva / Foto: Flora Negri

É a partir de marcas como essas que podemos sentir a potência do que a moda pode ser enquanto criação e emoção, de relembrar por que estamos todos aqui em primeiro lugar. Um encontro de pessoas que não vêem a moda apenas como um negócio e que consegue mobilizar e conectar pessoas criativas e apaixonadas. Sabemos que nesse negócio – não apenas, mas especialmente se você for pequeno e independente – nem sempre o retorno é o esperado. Sem paixão, você não dá conta. Ela é o drive. Mas como é fácil esquecer isso a cada boleto que chega, a cada peça não vendida.

Por isso, OBRIGADA pelo trabalho e pelo esforço de todes vocês.

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