03.04.2020 / Moda / por

Cathy Horyn, a mais destemida das críticas de moda

Cathy Horyn fotografada para o Ssense / Reprodução
Cathy Horyn fotografada para o Ssense / Reprodução

O site do e-commerce Ssense publicou recentemente uma ótima entrevista com uma das mais prestigiadas críticas de moda de todos os tempos, a americana Cathy Horyn. Ótima porque, apesar de serem vozes potentes da indústria, não é sempre que a mídia prepara entrevistas ou artigos especiais sobre críticos de moda, dando ao público, fãs de moda e leitores a chance de compreender seu ponto de vista e conhecer seu background como profissional.

Cathy ficou conhecida quando se tornou crítica de moda do New York Times, em 1998, onde ficou até 2014, criando uma bibliografia de moda crítica, afiada e original sobre os principais desfiles e acontecimentos daqueles quase 20 anos no jornal. Hoje ela é crítica do site The Cut, da revista The New York. Para os recém formados em jornalismo que estão em fase de enviar seus currículos, Horyn também passou pelo mesmo processo, enviando seu CV para 75 jornais e recebendo resposta de apenas três.

Filha de um jornalista, Cathy começou a trabalhar no Virginian Pilot, onde sentava ao lado da editora de moda Cammy Sessa. Um dia, viu um anúncio para um jornal de Detroit que buscava uma jornalista de moda, “alguém que pudesse escrever bem e não precisava ter experiência na área”. Lá ficou até 1990 quando foi trabalhar no Washington Post. Alguns anos mais tarde foi para a Vanity Fair, mas em 1997, o New York Times ligou procurando alguém para substituir a então crítica Amy Splinder, que era destemida e ficava louca quando pegada os executivos das grandes marcas tentando mentir ou esconder números para sair bem no jornal. Cathy seguiu a linha se tornou a segunda crítica de moda do jornal, criando o blog On The Runway

Ao longo de sua carreira, ela criou laços fortes na moda, como com os designers Raf Simons e Karl Lagerfeld. Foi ela que, recentemente, fez a principal entrevista com Raf e Miuccia Prada, quando ambos anunciaram a entrada de Simons na Prada, e também quem deu a entrevista com Raf sobre sua saída surpresa da Dior. 

“PREFIRO AQUELES QUE FALAM NA CARA. OSCAR DE LA RENTA ERA ASSIM. DONATELLA VERSACE É ASSIM. JÁ TIVE DESIGNERS ME LIGANDO E GRITANDO, MAS ELES SÃO LEGAIS COMIGO NO DIA SEGUINTE. ELES AINDA ME CONVIDAM PARA SEUS SHOWS. NÃO DIREI NADA NO IMPRESSO QUE NÃO DIRIA NA CARA DELES. SEMPRE MANTIVE MINHA POSIÇÃO”.

 

Ao mesmo tempo, Horyn despertou a ira em muitos outros estilistas por seus reviews diretos e honestos. São muitas as histórias que viraram buchicho na época, como quando ela foi banida dos desfiles de Giorgio Armani e Hedi Slimane; ou quando Oscar de la Renta a chamou de um “hamburguer velho de três dias” em uma carta aberta no WWD; ou quando Lady Gaga escreveu um artigo na V Magazine dizendo que seus textos não tinham um approach moderno à crítica.

Mas Cathy nunca teve medo, jamais se desculpou por seus textos e sempre manteve seu ponto de vista, por mais doloroso que fosse para algumas marcas, transformando-a em uma força numa indústria que sempre tentou manter os críticos à distância. “Prefiro aqueles que falam na cara. Oscar de la Renta era assim. Donatella Versace é assim. Já tive designers me ligando e gritando, mas eles são legais comigo no dia seguinte. Eles ainda me convidam para seus shows. Não direi nada no impresso que não diria na cara deles. Sempre mantive minha posição”, diz ao Ssense.

Como sabe quem escreve sobre moda, os melhores reviews são aqueles em que ou você ama ou odeia o desfile. “Em ambos os casos, você pode escrever com a mesma paixão e o mesmo vigor. Acho que na ausência de paixão criativa e na ausência de pessoas fazendo um trabalho desafiador e diferente, você tem menos sobre o que falar”. Verdade. 

Um dos pontos mais interessantes é quando ela fala que a moda hoje é muito menos espontânea, citando como exemplo a relação vigiada que jornalistas têm com estilistas. “Você não tem o mesmo acesso hoje. Karl foi a última pessoa que teve uma porta aberta para os jornalistas. Agora você precisa marcar um horário, o PR quer participar…Não gosto de menosprezar os designers, porque sei que muitas pessoas querem falar com eles, mas isso cria uma relação mais fabricada”.

E o advento do digital também descentralizou quem lê as críticas de moda. “Naquele tempo, nós estávamos escrevendo para leitores apaixonados e com conhecimento. Quando toda a coisa digital se abriu – e com ela, as mídias sociais -, percebi que havia mudado muito a atmosfera”. Justamente por isso, uma boa crítica parece mais necessária do que nunca.

“É tudo motivado pela personalidade e pela experiência que as grandes grifes podem oferecer, mas sem a sensação do risco. E acho que o público também não tem essa qualidade de se arriscar.’

 

Esse pensamento também chega até os ateliês das marcas hoje. Para Horyn não temos uma geração jovem de designers que tenha o tipo de criatividade que vimos no século 20 e no início do século 21. “É tudo motivado pela personalidade e pela experiência que as grandes grifes podem oferecer, mas sem a sensação do risco. E acho que o público também não tem essa qualidade de se arriscar. Vivemos um tempo em que as pessoas querem ser casuais. Eles querem certos tênis ou certas bolsas. Mas há uma falha em toda a cadeia – sem os designers que correm riscos, você não tem varejistas que podem explicar os riscos para seus clientes ou revistas que podem descrevê-lo para seus leitores”.

Existe uma relação natural entre estilistas e críticos, e muitas vezes ela pode ser contraditória. Como a moda é um negócio complexo, ela sempre ouviu os dois lados, tanto por parte dos criativos como dos empresários. “Os críticos estão muito curiosos sobre o processo criativo, mas a moda também é um negócio complicado. É por isso que grandes designers de moda geralmente têm parceiros que lidam com o negócio: para conseguir manter os dois mundos”, diz.

Hoje, ela diz que um dos problemas de longo prazo é o fato do mercado ainda ser influenciado por um pequeno punhado de pessoas. “Karl Lagerfeld costumava me dizer: são necessárias apenas duas ou três pessoas por década para que a coisa avance. Não temos isso agora. Talvez daqui a cinquenta anos”. 


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