24.10.2017 / Moda / por

"Com a Gucci, trouxemos a emoção de volta à moda", e mais aspas do CEO Marco Bizzarri

O CEO da Gucci Marco Bizzarri / Reprodução
O CEO da Gucci Marco Bizzarri / Reprodução

O CEO da Gucci Marco Bizzarri, 54, veio ao Brasil para participar da segunda edição do Iguatemi Talks Fashion, que termina hoje no shopping Jk Iguatemi. Um dos executivos mais respeitados na indústria da moda, ele assumiu a marca italiana no final de 2014 após passar por Stella McCartney e Bottega Veneta, com um grande desafio a cumprir: ressucitar a Gucci, que vinha de dois anos comercialmente fracos, e transforma-la em um ícone novamente. Na época, Frida Giannini, diretora criativa, e Patrizio dio Marco, CEO, estavam deixando a empresa ao mesmo tempo, uma mudança brusca dentro de qualquer organização. Mas o que se viu em seguida foi um renascimento pouco visto na história da moda, tanto pelo seu impacto criativo quanto por sua rapidez.

Na hora de escolher o próximo diretor criativo, ele optou por pegar alguém da casa no lugar de algum estilista estrela. Ao contrário: queria alguém rico em ideias, mas sem atitude arrogante. E ao lado de Alessandro Michele, causou uma revolução em todas as áreas da empresa: produto, comunicação, lojas, digital, logística… Focado em manter o grupo unido e atento, ele logo assegurou que os dados sobre o que é vendido nas lojas retornem diretamente às unidades de produção, de modo que mais peças adoradas pelos clientes possam ser feitas.

Chamado de gênio por outros profissionais, Bizzarri tem um faro reconhecido na descoberta e gerenciamento de talentos e representa uma nova atitude no gerenciamento de uma empresa de moda. Contra a cultura do medo e a favor de criar um terreno fertile onde a criatividade e a emoção podem desabrochar

Alto, sorridente e elegante, com seu característico terno de três peças, ele conversou com o crítico Tim Blanks e o Presidente do Grupo Iguatemi Carlos Jereissati Filho. Bizzarri contou histórias e fez muitos outros comentários valiosos não apenas sobre a Gucci, mas sobre seu modus operandi e sua visão sobre a moda.

Abaixo, uma série de aspas de Marco Bizzari, coletadas não só no papo do Iguatemi, mas também em entrevistas que deu a veículos como WWD, BoF, Interbrand e Financial Times:

IGUATEMI TALKS

“Quando entrei na Gucci, a cultura do medo reinava. Alessandro Michele trabalhava há mais de 15 anos lá e sequer estava na lista de candidatos para diretor criativo. Como pode isso?”

“A razão pela qual resolvi olhar para além da lista de candidatos quando buscava um diretor criativo, é porque não queria alguém egocêntrico. Se você tem uma cultura de respeito, a criatividade flui. Você cria essa energia e as pessoas se sentem mais seguras para tomar riscos”.

“Como pode uma marca passar 20, 30 anos com o mesmo diretor criativo? Será que não houve tempo para que surgisse um talento na nova geração que pudesse fazer esse trabalho?”

“As pessoas respondem para o storytelling. Você precisa falar sobre emoção se quiser capturar a atenção. Passamos os últimos anos muito racionais e focados no ofício: “essa bolsa foi feita assim, essa calça desse jeito…”. E víamos campanhas com fotos que não diziam nada para ninguém. Com a Gucci, nós trouxemos a emoção de volta”.

 

ALESSANDRO MICHELE

“Nós vimos vários candidatos com potencial. Por acaso, eu pedi pro diretor de RH da Gucci uma lista com as pessoas mais importantes da empresa porque eu queria ligar para elas e dizer: “olhe, não tenha medo!”. Uma dela era Alessandro, mas eu não o conhecia. Então falei que iria à Roma pra gente se conhecer. Tomamos um café em seu apartamento e era pra ser uma conversa de meia hora, mas acabamos conversando por quatro horas. E eu dividi com ele minhas ideias sobre a Gucci, sobre a necessidade de voltar a estar um passo adiante da concorrência e transformar a marca em líder de novo”.

“Saí de lá e pensei: “meu Deus, talvez o diretor criativo esteja dentro da empresa! Ele conhece a marca, os processos, as pessoas, como acessa-las e acima de tudo, parecia ser uma pessoa normal. E essa era a outra coisa que eu estava buscando”.

“Alessandro é muito educado. Ele escuta, respeita as pessoas e as empodera. É alguém com quem você tem vontade de trabalhar e conversar”.

NEGÓCIOS

“Haverá empresas que farão muito dinheiro e outras que perderão muito. É um mercado que está se tornando maduro, que luta por partes de mercado. Aqueles que inovam e mudam vão ganhar. Aqueles que olhem para o passado perderão”.

“A Gucci é uma organização de aprendizagem, por isso eu encorajo os funcionários a correrem riscos e deixá-los entender que estávamos dispostos a aceitar erros, porque se você estiver inovando, vai cometer erros. Nosso mundo está evoluindo muito rapidamente. O que foi certo ontem não está necessariamente certo hoje. Você sempre precisa fazer perguntas. É uma questão de troca de idéias e incentivar as pessoas a darem feedback com os quais você pode aprender”.

“Se eu for demitido porque cometi um erro, está bem. Não tenho um problema com isso. Mas eu não quero ser demitido por decisões que outras pessoas fazem por mim”.

“Trabalho como se todo dia fosse o último e com uma mentalidade de start-up”.

“Nós dizemos que, no nosso mundo, devemos pensar e ouvir os consumidores e isso é verdade, mas não muito, no sentido de que se você quer mudar e inovar, você também deve pensar com sua própria cabeça. Talvez faça escolhas que o mercado não está pronto para aceitar, mas isso será aceito em 18 ou 24 meses”.

“O mundo está mudando tão rápido e temos dado ao canal digital um impulso muito forte. Nosso objetivo era estar na vanguarda. As barreiras de entrada ao nosso mundo sempre foram muito altas, devido ao investimento que era necessário nas lojas, como abrir pontos nas ruas mais importantes das cidades mais importantes. Isso mantinha novos potenciais concorrentes afastados porque eles não tinham a possibilidade financeira ou física de abrir lojas na Via Montenapoleone, Fifth Avenue ou Avenue Montaigne, por exemplo. Mas hoje, com a explosão do e-commerce e da comunicação digital, a possibilidade de alguém vir contra você sem você nem perceber é enorme”.

“Sou um CEO, não uma pessoa criativa. Preciso ter em mente que pessoas criativas como Alessandro sabem mais do que eu. Preciso respeitar isso. Mesmo quando eu não entendo, não me sobreponho a ninguém. Eu respeito a competência deles e eles a minha”.

“Meu maior risco foi investir bilhões – não milhões, mas bilhões – nos últimos dois anos. O dinheiro foi gasto colocando uma nova linha nas 500 lojas da Gucci em uma questão de poucas semanas e logo após o primeiro desfile. Além de revisar a estratégia de comunicação e o visual das lojas”.

 

A IMPORTÂNCIA DA CRIATIVIDADE

“Tudo começa com o respeito. Para mim, isso não é apenas com o diretor criativo. Nunca aceito pessoas que agridam outras. Nosso negócio é especial, onde cada atividade é através das pessoas. Se eu tiver gente dizendo às pessoas que elas não são boas, tudo será morto, elas nunca correrão riscos, tanto nos negócios quanto na moda. Para ser criativo, você precisa se sentir bem!”

“A diversidade e a inclusão, que são os verdadeiros terrenos para a criatividade, devem permanecer no centro do que fazemos. A criatividade é a nossa Estrela do Norte. Esta maneira de trabalhar, esta velocidade de hoje, esta nova abertura e inovação… Colocar tudo isso em discussão deve permanecer na base do que fazemos”.

HERANÇA

“Quando vi Alessandro pela primeira vez e começamos a falar de Gucci, ambos estávamos convencidos do poder do logótipo. Você não pode ter vergonha de seu logo e do que ele representa, mas você deve pensar de maneira contemporânea. Alessandro conseguiu misturar o mundo animal, as abelhas, a cabeça de um leão com o logomarca, e misturar diferentes sinais juntos. Isso torna as peças basicamente impossíveis de copiar. Para mim, esse é o aprimoramento do logotipo, como queríamos dizer. É a criação de algo único, reconhecível, mas que o diferencia. E ele trouxe artistas para essa conversa, permitindo que eles interpretem o logo da maneira que preferirem, ou alguém o fará em seu lugar”.

VALORES

“É crucial ter pessoas que respeitam outras pessoas, porque respeitar cria construção de equipes e, se você cria a construção de equipe, você cria energia e, no nosso negócio, o que faz a diferença são as pessoas e a criatividade que é promovida quando há diálogo. Não é apenas design. É o dia a dia, com todas as suas interações”.

“Tudo começa com o respeito. Para mim, isso não é apenas com o diretor criativo. Nunca aceito pessoas que agridam outras. Nosso negócio é especial, onde cada atividade se dá através das pessoas. Se eu tiver gente dentro da organização que fala mal de outra pessoa, f=diz que elas não são tão boas, elas nunca correrão riscos, tanto nos negócios quanto na moda. Para ter criatividade, você precisa se sentir bem!”

“Eu queria trazer a perspectiva da alegria e do respeito de volta, valores instrumentais para que a criatividade aconteça”.

“Energia cria energia”.

ERA DIGITAL

“O mundo de hoje está indo tão rápido. Estamos na era digital e seis meses hoje não são os seis meses de antes. A Gucci estava em um momento em que precisava fazer uma grande afirmação. Eu acho que na maioria das vezes, especialmente hoje, as emoções devem assumir a liderança mais do que a racionalidade. Caso contrário, nos tornamos muito metódicos em nossas escolhas. A ideia dos primeiros dois shows foi: não pense em ser comercialmente viável. Vá ao extremo e depois você pode ajustá-lo. Não podemos agradar a todos. Alguém vai te amar e alguém vai te odiar. E tudo bem.

“Nós somos entusiastas das redes sociais, mas chega um momento que você tem que parar de ver. Você não pode fazer mudanças radicais e ouvir todo mundo ao mesmo tempo”.

 


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